quarta-feira, agosto 31, 2005

Cultura

Viajar. É uma solução ancestral para desgastar o bicho que mói. Um tipo pega em 600 contos e esturra sem resguardo de consciência a maquia num passeiozito a ilhas que não alaguem. Como não tenho 600 contos mas sou terrivelmente a favor do intercâmbio cultural, arranjei uma solução, ainda que menos colorida, para o tédio do viajante teso.A primeira coisa que se aprende numa língua estrangeira é o calão; após os corococós do olá, boa tarde e passa-me o pão, interessa sobremaneira saber dizer "grande mamas" e "vai-te foder meu ladrazeco do caralho, isso não vale metade do que pedes; que tu e a tua família sofram de varizes anais até à quinta geração". Ora impedido pela carteira de poder dar à língua em território hostil, resolvi desencantar umas preciosidades culturais com que o leitor mais abastado poderá brindar o anfitrião. O site http://www.insultmonger.com/swearing/ é uma fonte de conhecimento e interculturalidade tão rica que quase se sente o aroma a caxemira ou a savana. De entre as muitas sumidades culturais, saliento as seguintes, que o leitor pode completar com passeios por sua conta (tomámos o Arménio como exemplo):
  • Koo mayrigit boots-eh maz chooni ===== Your momma's pussy has no hair.
  • Logo em seguida: Koo mayrigit boots-eh shad maz ooni ======= Your momma's pussy has too much hair; o que sugere, entre outras coisas, que os arménios têm uma aversão à desmedida do pintelho e que são um povo que nutre um carinho especial pelas mães e pelo equilíbrio florestal.
  • Kunem damavo girkad ======= Fuck everyone in your household. Devo enteder que a concepção arménia de mandar um gajo foder estende-se a toda a família. Ora a economia da expressão, longe da redundância bárbara de um "vai-te foder, a tua mãe é uma puta, o teu pai come merda" engloba em si duas componentes fundamentais: os fortes laços familiares (o indíviduo é insultado e à sua família) e a poupança no discurso. Arménio que é arménio não gasta latim em comezices. Manda tudo para o caralho em três palavras.
  • Mor-et vor-eh kunem meenchev zhazh keeteetz dus ga heto mehat zaroonk ke khrem hored vor-eh ========= I'll fuck your mom so much that cum will come out of her nose then I will shove a cucumber up your father's ass. Quase perdi a esperança quando vi este matacão gótico. A síntese arménia, que aprendera a prezar com tanto gosto, desaparecia no meio da verborreia caústica que percorre esta frase. Após rápido escrutínio voltei a animar. Afinal a coisa não é o habitual chorrilho profuso de merda caralho foda-se a que estamos habituados; envolve laços familiares profundos - o estilo arménio, se assim podemos dizer - e um requintado gosto pelo bizarro a que não passo incólume. À imagem da mãe - muito bem conseguida, na minha opnião - não é enfraquecida pelo pepino no cu do pai; pelo contrário, todos os orifícios extra-vaginais estão ocupados, o que sugere uma minúcia muito cuidada na aproximação ao vernáculo hardcore. Apesar de considerar excessivo o tamanho da oração em português, especialmente se for para ser dita no calor do momento, é de calibre certo para um pequeno poema de maldizer, e estou certo de que o leitor já pensou em duas ou três criaturas dignas da sua recolha linguística.

terça-feira, agosto 30, 2005

Táxi!


Taxistas, quem anda de carro em Lisboa ou quem recorre aos vossos serviços sabe que não vos matam por dinheiro.

Saudades estivais

Agora que o Verão se finda num eclipse moribundo - felizmente - podemos começar - de preferência amanhã, seguindo fielmente a máxima agostiniana - a falar de coisas sérias. Como não econtrámos nenhuma e compadêcemo-nos daqueles que vão sentir falta destes três meses de inferno de sol e óleo de côco, resolvemos apresentar uma bibliografia sucinta, capaz de reavivar os de entre vós mais fotossintéticos.
  • SOUAD, Queimada Viva, Asa Editores, 2004.
  • CASTRO, Isabel, O Papel Arde as Palavras Voam, s/e, s/d.
  • PAIXÃO, Pedro, Ladrão de Fogo, Prime Books, 2005.
  • QUIROGA, Carlos, Regresso a Arder, Quasei, s/d.
  • HIGINO, Nuno, O Crescer das Árvores, Campo das Letras, 2003.
  • PRESSFIELD, Steven, Portas de Fogo, Ulisseia, 2004.
  • RAMPA, Lobsang, Chama Sagrada, s/e, s/d.
  • CARVALHO, A. M. Rodrigues, O Cheiro da Madeira, Holograma, s/d.
  • MONTEIRO, Luísa, O Espírito da Mata, s/e, s/d.
  • FERREIRA, António, Lábios de Cinza, Livros e Etc., s/d.
  • ROBERTS, Nora, A Cor do Fogo, Saída de Emergência, 2003.
  • CUNHA, Paulo Ferreira da, Escola a Arder - Combates e Diálogos, Campo das Leis, s/d.
  • FRANCESCA, Caroutch, O Homem de Fogo, Esquilo, 2004.
  • PFEIL, Estruturas de Madeira, LTC, s/d.
  • LYNNE, Ewing, Fogo Frio, Filhas da Lua, s/d.
  • NUNES, Rui, A Boca na Cinza, Relógio d'Água, s/d.
  • CORAN, Pierre, Os Ladrões de Lenha, Começo a Ler, s/d.
  • MAGALHÃES, Álvaro e Cristina, Contos da Mata dos Medos, Assírio, s/d.

Estamos certos de que haverá mais títulos interessantes nessas bibliotecas fora e convidamos desde já os 2 ou 3 mirones que pastam ocasionalmente nesta terra de nenhures a apresentar sugestões.

Ps. Editoras com nomes como "Saída de Emergência" e "Começo a Ler" merecem aplausos. É óbvio que merecem.

segunda-feira, agosto 29, 2005

Espanholada

Factos indespedíveis: os touros são animais perigosos e os espanhóis são burros. Factos da física: os touros pesam entre 300 a 450 quilogramas e um espanhol entre 55 e 100 e tais. Factos anatómicos: os touros têm cornos e sabem o que fazer com eles enquanto que os espanhois - a tê-los - não os podem usar.
Quem sai de casa com a noção de que a sua virilidade depende, em última instância, do confronto directo com uma parede amovível, neurótica, bicuda e veloz merece voltar para casa com o cu inchado, duas semanas sem foder - mexa lá essa anca pisoteada... - e com um resto de ego pendurado em poses de ranhoca. Acima de tudo, merece ser espanhol.

sábado, agosto 27, 2005

out for three days.

Em mudanças. Sede compreensivos. Esperamos ser breves.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Ajudem-nos, porque os rapazes precisam.

Sede caridosos e tentai corresponder aos pedidos expressos neste blog

quarta-feira, agosto 24, 2005

metafísica do veneno.

No comments...

terça-feira, agosto 23, 2005

"I think you misunderstimated me" - Bush. Aplica-se de igual modo à ciência médica contemporânea.


Eu gosto particularmente desta notícia. Permite desmontar (salvo seja, quem lá estiver, quede-se assim, não há razão para alarme) dois fenómenos em simultâneo. O primeiro tem que ver com o facto de se construirem ídolos com a mesma facilidade com que se enrolam cigarros (depois de conseguir o primeiro, o resto é de enfiada). O segundo fenómeno corresponde à enorme infelicidade que a "medicina do espírito" contemporânea (psiquiatria, psicologia e outros refúgios para astrológos descrentes) mostra quando tenta prover uma explicação racional - e, sobretudo, curativa - para qualquer acontecimento cuja expressão se encontre aquém ou além do catálogo sintomatológico definido - e, mesmo dentro deste último, a arquivação não é clara e há claramente um apelo sub-reptício ao "bom senso" do terapeuta para dirimir entre uma esquizofrenia paranóica e uma manifestação condicionada de mania.
Ora o rapaz da notícia supra deu à costa - literalmente - em Inglaterra e, quando foi achado, sem quaisquer documentos indentificativos, começou a gerar uma curiosidade local perfeitamente compreensível e da ordem do "Mas quem é este marmanjão mudo?", uma curiosidade mediatíca sofregamente sobrealimentada pela estrutra epidémica da curiosidade local e uma curiosidade clinico-arqueológica movida, em última análise, por três factores: o festim do reconhecimento público (o primeiro a desvendar o rapaz-mistério tem honras de arqueólogo-mor e garantia de publicação de, pelo menos, dois volumes mini-científicos e densamente autobiográficos), a crença imbecil e parasitária de toda a ciência antropológica segundo a qual a verdadeira natureza do humano se esconde algures numa mata tropical ou num recinto de freaks e nunca no próprio que investiga (a chamada objectividade científica, que termina de imediato quando se pergunta pelo sujeito da investigação) e o abismal sentimento de inutilidade que os terapeutas do espírito sentem no confronto com os seus pacientes (pois os primeiros não são mais do que prescritores de aspirinas - a maior parte delas absolutamente ineficazes - para os segundos que, por sua vez, não querem paliativos; querem uma cura, quando estão em condições de exprimir a vontade que os move).
Este rapaz, que despertou uma onda de empatia mundial porque desenhou um piano quando foi encontrado (gostava de aferir o teor da ligação empática se o jovem houvesse desenhado um cagalhão e meia dúzia de varejeiras...), foi tomado por checo ou francês - sabe-se lá que recurso técnico usaram os rapazes de bata branca para chegar a essa conclusão (ADN, frenologia, búzios?) -, por pianista - pois quem desenha pianos decerto tb os toca (uma perspicaz aplicação da regra da causalidade, no modo da transgressão modal para mongolóides) e por figura simpática e misteriosa com potencial de mediatização suficiente para encher tablóides no Verão.
Afinal, o rapaz é alemão (e não precisaram de amostras foliculares para chegar a essa conclusão), não toca piano (diz-se que repete mecanicamente alguns arpégios - mas não é isso tocar piano?) e está acabado enquanto potencial pop-star de carácter necrológico. Diz-se igualmente que o alemão - que vinha para Inglaterra para pôr fim à vida - já tinha tido contacto com psiquiatras e, por causa disso, percebe-se a facilidade com que os ludibriou... percebe-se?
Os média querem, naturalmente, esquecer o assunto. Os médicos querem processá-lo. Eu compreendo ambos. Não é fácil desenterrar bons sauvages nos tempos que correm e menos fácil é eles serem simpáticos o suficiente para serem capa de revista. Quanto aos média estamos conversados. Os psiquiatras e restante fauna do espírito estão igualmente furiosos com o rapaz porque este, não tendo feito nada de estrondoso, conseguiu em pouco tempo desmuni-los da carapaça de seriedade que o método científico angaria sem custo e colocá-los a todos no próprio sistema de catalogação antropológica que partilham, algures entre os mentecaptos e os severamente limitados.

segunda-feira, agosto 22, 2005

Aimebáque. Foto-reportagem de Paredes de Coura.



Já não tenho idade para esta merda. Ainda me lembro, há coisa de 12 anos, de gramar 8 horas de comboio (o chamado "correio", do Algarve para Lisboa, que pára em sítios que o próprio Deus desconhece) para montar tenda no Avante e ver Vitorino ou Xutos num extâse próprio de quem ainda não viu nada. Nessa altura, em que os neurónios e as costas se prestavam a tratamentos hoje severamente condenados pela Amnistia Internacional, conseguia produzir uma desculpa convicente para três dias de purgatório. A dúzia de anos que medeia o ontem e o hoje está carregada de torcicolos, ressacas e recordações turvas (guitarras, mamas e copos de plástico eternamente semi-cheios).
Este ano, tendo angariado companhia geracional adequada, resolvi meter-me ao caminho com duas convicções que cedo se revelaram tão sólidas como manteiga em focinho de cão. A primeira a de que seria capaz de suportar, sem excessiva auto-comiseração, o desconforto de uma tenda inadvertidamente montada em cima de um curso de água lamaçenta e constantemente exposta ao sol. A segunda fezada recuperava o ideal romântico segundo o qual um gajo com a minha idade não tem nada a invejar aos moçoilos com menos 10 anos de vadiagem em cima que aferem a qualidade de um concerto pelo número de ossos fracturados no moche.
Primeira noite. A malta já não vai a correr para os festivais. A malta sai cedo de lisboa, num Nissan Micra que gasta mais combustível do que o Discovery e pára ocasionalmente e sem pressas para beber cafés, fumar cigarros e comer francesinhas (não confundir com rapariguinhas de saiote a dizer "un éclair de chocolat, s'il vous plaît"; francesinhas são coisas robustas que se acamam no estômago por um período indeterminado).
Chegados a Paredes de Coura - com a ajuda de um GPS e muitas horas depois do previsto - monta-se a tenda, verificam-se as quantidades de tábaco disponíveis e segue-se para o recinto propriamente dito. Tudo isto sem as costumeiras correrias melómanas; a paciência é uma virtude própria da idade.
Perdemos Death From Above 1979 (um banda de guitarra e baixo, algures entre o Apocalipse e um frenesim epiléptico), !!! (ainda não sei como se pronuncia isto...) e Kaiser Chiefs (mais um agrupamento da moda, com dois ou três singles audíveis de rápido consumo e esquecimento). Dizem os cronistas especializados que os !!! portaram-se maravilhosamente (à altura do nome da banda?) e que os outros dois não fizeram mais do que cumprir as obrigações contratuais. Quem lá esteve poderá confirmar o teor das críticas.
O primeiro concerto que vimos foi o dos Bravery. O moçoilo do microfone sobe ao palco, dizendo-se muito contente por estar em Paredes de Coura, a tocar para nós, e descose uma revelação: em terras lusas descobriu o Vinho do Porto e a Super Bock. Segundo o próprio, "duas coisas eminentemente perigosas..." Mau. Eu pensava que uma banda de rock que se prezasse só bebesse Super Bock para enxaguar a coca da epiglote. Fiquei de pé atrás. O concerto - morninho, morninho - fazia lembrar uns Duran Duran desembalsamados de propósito para vender uns disquitos. Alimentados de uma base electrónica irritante e persistente, os rapazes desfilaram uma pop muito ligeira com laivos de dor de corno. A certa altura, chega a segunda confissão da noite. "Esta música", diz o vocalista, "é dedicada a uma ex-namorada minha, que também é minha vizinha. Ela acabou comigo e, nos meses que se seguiram, ouvia-a foder com outros tipos através da parede..." Péssimo. Não chega ser corno, é corno manso e toca a sarampitola ao som da tipa que avia meia equipa de futebol por noite. Será escusado dizer que passei o resto da noite a vociferar-lhe impropérios durante os intervalos e com um secreto desejo de que a lonjevidade da banda fosse proporcional às ereções do vocalista...
Segundos convidados, Foo Fighters. Sempre vi a banda de Dave Grohl como um sucedâneo mais ou menos bem amanhado de Nirvana, por um lado, e do grunge em geral, por outro. Não que estivesse especialmente apaixonado pelo débito avantajado de distorção e berraria, mas profissionais são profissionais e, depois dos Bravery, até os Foo Fighters soaram bem. Puxaram pelo moche, aumentaram, decerto, o volume de vendas de cerveja e o consumo de haxixe e fizeram o que tinham a fazer. Os rapazes amantes da mutilação óssea puderam dar azo à vontade caneleira e nós - os mais velhos, mais cansados e com osteoporose alérgica - recolhemos às tendas.
Acordámos no dia seguinte numa espécie reminescência genética do inferno. A tenda, ajuizadamente instalada no mais deserto dos descampados, colhia o sol de chapa e ameaçava fundir-nos os órgãos vitais num banho-maria de sudação e enxaqueca. Resolvemos dar um passeio por terras do Minho - as vantagens de ter carro e ócio - e esquecer que estavámos num festival.
Segunda noite. Decidimos unanimemente que uma banda chamada the FutureHeads tocava cedo demais para valer a pena e apresentámo-nos a tempo de ouvir os Hot Hot Heat (vide foto infra).
Os rapazes, que nem são nem bons nem maus nem nada, mascaram-se de Beattles e debitam uma pop afiambrada que não envergonha ninguém. Contrariamente aos Bravery, não confessam cornos mal sarados e limitam-se a tocar. Não divagam, não contam historias. Não içam o Marlon Brando mas permitem flutuações ocasionais nos joelhos que, de alguma forma, impedem a instalação progressiva do tédio. São bons moços e até davam um razoável agrupamento de baile e baptizados. O vocalista, que de todo em todo devia considerar uma cirurgia estomatológica (aquele maxilar de cima não se apresenta a ninguém), tem uma voz que não chateia por aí além e mantém-se afinado a maior parte do tempo. Não sendo exactamente Hot Hot Heat, como se auto-denominam, também não os posso rotular de "cold as death". Enfim, são sete da tarde e não esperava nem melhor nem pior.


Oito horas. Devo confessar que a minha ida a Paredes de Coura era - entre outros motivos, também eles mui nobres - fruto de um namorisco que mantenho desde há algum tempo com os Arcade Fire. Tinha curiosidade em verificar in media res, a genialidade de "Funeral", álbum de estreia da banda. Primeira supresa. Os Arcade Fire são mais que as mães (descontem um ou dois roadies e somem aqueles que ainda não tinham entrado em palco para terem uma noção do número de músicos).


Confortavelmente instalado nas imediações do palco e numa lucidez de batráquio em água de ribeira, deixei-me levar. Os rapazes - uma corja estranha de geeks informáticos dificlmente indentificáveis com a sonoridade rock, quanto mais com a possibilidade de se tornarem banda de culto - têm, definitivamente, um dom. Parecem saídos de outra era, de um tempo adolescente onde pululam folhas de carvalho, bagas silvestres, primeiros amores e primeiras mortes. E a música que fazem dá corpo ao anacronismo. Aproveitando de forma exemplar as vozes de todos os elementos do grupo e os intrumentos acustícos que têm tanto ou mais peso que a parafernália electrónica que também possuem, compõem os seus temas como se de marchas se tratassem: há sempre um crescendo de intensidade em cada canção, há sempre reviravoltas tonais acentuadas pela marcação rítmica que insiste em apressar a cadência, sem pressas despropositadas ou previsíveis, com o simples intuito de nos levar até lá. E "lá" é o sítio existencial dos Arcade Fire. É o brilho das armas antes do combate, o ressoar das caixas que antecede a queda dos mais valentes, a salva de tiros com que se brindam os mortos honrados, os sinos que saúdam o regresso dos vencedores. É também e de igual forma o colo daqueles que se ama, o recanto do primeiro beijo, o crucifixo na parede em jeito de crítico, a pulsão primaria de fome, sede e felicidade. Minutos depois do início do concerto estava esquecido do lumbago. No final, compreendi porque fui a Paredes de Coura e, durante largos minutos, impedi-me voluntariamente de falar, não fossem as palavras carrascos indesejados do coração.

Depois dos Arcade Fire e da catarse, a noite estava salva. Viesse o que viesse, não haveria lugar para remorsos. E vieram os Roots, uma espécie de hip-hop transgénico alicerçado num virtuosismo instrumental a toda à prova (que baterista, que baixista (foto infra), que guitarrista, que percussionista!). Devo confessar que, nos meus saudosos tempos de adesão ao fenómeno rap e outras manifestações musicais afins, tinha uma especial predilecção pelo rap ácido dos Public Enemy. Era impossível ficar indiferente à bílis de Chuck D e Flavor Flav, que se revezavam vocalmente na tarefa inacabada de dar tareia ao branco (entenda-se "branco" como a classe média iletrada que grassa na America - e não só - e que produz agrupamentos homossexuais como os KKK e outros adoradores do malho albino). Dado que a revolução hip-hop inicial foi rapidamente absorvida e transformada num produto de consumo rápido como outro qualquer (os vídeos actuais são o epitáfio perfeito para a morte das reivindicações sociais; não há um vídeo de hip-hop que não contenha três elementos fundamentais: gajas (podres de boas), guita e carros), a minha simpatia para com os protestantes convertidos rapidamente mudou de agulha e afinou diapasão noutro sentido. Ainda assim, e porque os Arcade Fire haviam redimido retroactivamente qualquer possibilidade de desilusão profunda, aceitei os Roots, uma espécie de solstício da mercatilização da palavra e, sobretudo, apreciei a base instrumental, que oscilava entre o funk e o jazz. Felizmente, a coisa passou relativamente depressa.


Finda a gastrite vocal dos Roots, a restante programação incluía os Queens of the Stone Age e os Pixies. Se, para mim, "Queens of the Stone Age" não quer dizer mais que "!!!" - é verdade, sou um iletrado do rock pesado contemporâneo-, já os Pixies é outra conversa. Eu cresci a ouvir Pixies, Bauhaus, Joy Division, Echo & The Bunnymen, entre outros ilustres que, por uma razão qualquer, nunca pude ver em palco.
Decidido a aferir a que soavam os QOTSA, mantive-me estoicamente perto do palco, o tempo suficiente para tirar duas fotos muito tremidas (uma delas reproduzida infra) - zoom e falta de luz não ajudam, o moche dificulta ainda mais - e perceber que aquilo não era para mim. Os QOTSA são uma espécie fórmula um à americana. Passo a explicar. Os americanos, adeptos confessos dos carros de grande cilindrada com mundanças automáticas - o que reflecte imediatamente a sua pobreza sexual, pois não há nada que dê tanto pau como meter uma terceira a 140 kms/h e fazer a curva em sobre-rotação - inventaram um desporto automóvel que dá pelo nome de Nascar e que consiste em aglomerar duas dúzias de carros numa pista oval, sem curvas (a inclinação dada às mesmas transforma-as em rectas disfarçadas), na esperança geralmente cumprida que um dos carros, em infidáveis rotações sobre si próprio, acabe por esmagar uma alegre família presente na assistência, numa sã convivência com o desporto.
Os QOTSA são assim. Tal e qual. Não existem mudanças de rotação ou velocidade. Desde que arrancam e até ao final do percurso, estão em quinta. Os seus fãs - os moçoilos da borbulha e da bota de biqueira de aço - fazem mais pó e hematomas do que uma manada de bisontes furiosos. Para mim, não dá. O conceito de moche, nascido como o "Should I Stay or Should I Go" dos Clash, teve o seu apogeu nos Nirvana. Nascar e QOTSA é para malta de outra estirpe, cujo volume tomatológico é directamente proporcional ao volume cerebral (quem não tem não dói). Fui comer, atrás de uma barraquinha, protegido do som e do pó, porque a seguir vinham os Pixies.

O desejo de ver Pixies em palco é um fenómeno comparável ao desejo de ver a Bo Derek (a do Bolero, cavalgando nua em cima de um feliz equídeo). Sabe-se que é irrealizável - porque o tempo não perdoou a Bo Derek nem o cavalo - mas, ainda assim, subsiste uma vontade mórbida de ver o passado plasmar-se no presente, venha como vier. Quem é da geração de 70 sabe do que falo, os outros sentirão a mesma coisa relativamente a outras manifestações presentes daqui a dez ou quinze anos. O tempo, não sendo intrinsecamente circular, não deixa de fazer bolinhas e definir padrões.
Já havia visto Pixies há um ano atrás, no SuperBock, e pensei que seria a primeira e última vez. Ressuscitados sabe-se lá por que motivação, decidiram encetar uma série de concertos e contemplaram Portugal. Não maravilharam - talvez por que, quando se fala de Pixies, a exigência é sempre grande - mas não desiludiram. O mesmo sucedeu em Paredes de Coura. Não têm vinte anos- o Frank Black tem a volumetria de um texugo inchado e a Kim Deal aparece em palco como se houvesse deixado a limpeza da casa a meio - e o rock, como sabia o saudoso Morrison, é pixota. Ora os Pixies, não estando propriamente murchos como japoneses, já não têm testosterona que chegue para levantá-lo a 45º graus. Ainda assim, e alinhando 26 músicas em pouco mais de uma hora, deram conta do recado, sem troféus mas sem vergonha.


Terminados os concertos do segundo dia, fomos retemperar forças no colchão (salvo seja), acompanhados de uma banda sonora mais própria a ajuntamentos de trance e freakalhadas afins. Acrescente-se isso às queixas osteo-musculares de três trintões (desculpa incluir-te R., mas a verdade é que para lá caminhas a passos largos) e podem ter uma noção de como a noite foi divertida.
O terceiro e derradeiro dia começa como o segundo. 40º à sombra, 17º debaixo da água dos chuveiros públicos. os 23º graus de diferença - para quem gosta de números certos - são inultrapassáveis no que toca a arrancar do corpo sons que juramos não serem produzidos pelo próprio. Vem a tona e de forma gutural uma espécie de lamentação primitiva que terá como raiz os primeiros humanos confrontados, numa qualquer passeata, com um bicho esfomeado. É verdade que o duche é revigorante, mas não se consegue aferir a que expensas (a pixota, por exemplo, desaparece rapidamente para dentro do corpo num mutismo de avestruz, só voltando a emergir após longa acalmia climatérica).
Mais uma vez, decidimos que uma banda que tocasse às 18h00 não merecia ser seguida de perto. Chegámos ao recinto - depois de uma excelente francesinha em Ponte de Lima - às 20h00, pensado que já teriam terminado os dois primeiros concertos. Os "National", de facto, já tinham aparecido e desaparecido, mas os Killing Joke, programados para as 19h00, foram substituídos pelos Woven Hand, porque ao vocalista, aparentemente, atacou-se-lhe uma gastroenterite (teremos comido o mesmo?) e cantar com cólicas e a salivar merda pelos tornozelos não deve ser a experiência mais gratificante do mundo.
Os Woven Hand - que só acompanhei com mais atenção nas últimas 3 músicas do concerto - foram uma agradável surpresa (foto infra). São uma banda... como diremos... neo-evangélica. Cantam o Senhor e os Seus mistérios com uma ironia a roçar o insulto (o vocalista, nos intervalos das músicas, era violentamente apupado, ao que respondia com um gesto que entendo como "dar a outra face"). Tendo em conta as letras do grupo e o facto de Paredes de Coura não ser propriamente o encontro Cristão mais reputado, há que reconhecer nos Woven Hand uma certa dose tomatal. Não é qualquer um que vai a um festival de Rock cantar as dores de Cristo. Ainda por cima a música não era má. De todo. Despediu-se com um God bless you mais sarcástico que sincero e foi certamente chibatar-se no camarim.


Segunda banda: Juliette and the Licks. Toda a gente conhece a Juliette Lewis (Kalifornia, Natural Born Killers, ou os quinze segundos mais pornográficos de todo o cinema não pornográfico, no Cape Fear). Eu não conhecia a sua "faceta musical". Tendo em conta que até acho a rapariga simpática como actriz, esperava um espectáculo que, ainda que não deslumbrasse do ponto de vista musical, cumprisse, pelo menos, a sua função de entretenimento simpático. Nada disso. Juliette em palco é como Juliette em filme, mas sem história. Não contém o ímpeto representativo e o concerto é uma espécie de expressão teatral do que ela gostava de ser ou ter sido: uma estrela do Rock'n'roll, do calibre de Madonna ou outra qualquer cadela do demónio. Infelizmente para a pobre da Juliette, ela não tem amigos. Se os tivesse - e não falo dos amigos da coca - estes certamente lhe diriam, após o primeiro concerto, para ela continuar a representar - porque aí desenrasca-se razoavelmente bem - e esquecer os ímpetos de pop-star. Para dar vazão às mágoas há sempre o chuveiro ou a companhia de ocasião, que acede à tortura por amor ou desejo. O "concerto" é tão meticulosamente planeado que já sabemos, pelos panfletos do Festival, que Juliette gosta de dar com o pipi no soalho do palco - o que acaba por, invariavalmente, se cumprir -, que Juliette cabriola como se tivesse o pipi a arder - o que acontece sempre que ela não está a cantar - e que Juliette vai, numa presciência leibniziana, atirar-se para o meio do público para ser copiosamente apalpada - no pipi, entre outras zonas - por duas dezenas de tugas bêbedos. A voz essa, esbate-se na terceira "canção" - a distinção entre elas é difícil porque soam todas ao mesmo - e Juliette limita-se a berrar o resto do alinhamento como se tivesse um furúnculo no cu. Devo confessar que a carga sexual que Juliette detinha depois de a ter visto no Cabo do Medo foi substituída por um sucedâneo bem menos erótico e que vou pensar duas - três vezes? - antes de ver outro filme e que a inclua no elenco.




As minhas companheiras de route asseveram-me duas coisas: Vincent Gallo, sendo um criador de bons filmes, não podia ser pior e a Juliette, afinal, era só uma carga karmíca negativa e necessária, uma espécie de contrapeso existencial para os Arcade Fire. Como São Tomé, quis ver para crer.
Vincent Gallo entra em palco para apoteose dos fãs (para apoteose dos pitos das fãs seria mais apropriado). Com um ar hiper cool, pega na Gibson Les Paul e começa a tocar. Foi, porventura, o início da experiência de tédio mais profunda com a qual já fui brindado e desconfio que Heidegger, se tivesse assistido a este concerto, teria redigido o volume 29/30 da Gesamtausgabe (conceitos fundamentais da metafísica - mundo, finitude, solidão) com uma noção mais precisa do tédio de terceira ordem. Dizer que Gallo é minimalista é um eufemismo. Ele é fundamentalista minimal e ortodoxo convicto da Grande Ordem da Repetição. Ele é a maior seca que podia advir num festival, à meia-noite. Ele é pior que a morte rastejando de socapa. Ele redefine conceptualmente as noções de modorra, desespero e tragédia. Ele tem um Zé Pequeno mais minúsculo do que o mais imberbe dos asiáticos. Ele é tão chato, tão chato, tão chato que, se lhe desse para escrever romances, faria dos realistas de produção enciclopédica leituras sãs e desejáveis. Ele é abominavelmente aborrecido. Ele é mais rápido a desentesar qualquer criatura do que a visão de um nu frontal da minha professora da primária. Ele é leeeeennnnntooooo.
Não sendo suficiente ser mais aborrecido que um protestante ao Domingo, ele gosta de contar histórias, sobre o quanto gostou de Portugal, sobre as mamas da Teresas Vilaverde - há quinze anos atrás - sobre o facto de nunca ter comido uma portuguesa - porque será, Vicente, adormeciam a meio da conversa ou lembravas-te de as punir com uma serenata? - e sobre a namorada grávida que toca bateria, guitarra e qualquer coisa mais. Meu Deus, ele devia constar, num bom dicionário ilustrado, como representação gráfica do tédio e dos seus derivados. Vincent, um conselho amigo - já que não os tens - deixa a guitarra - ou faz só bandas sonoras - e pega na puta da câmara. Filma a Juliette e resolvem-se dois problemas. Arre, que não há pachorra!


Findo o Opus Tedium em Ré menor, já não sobrava vontade ou energia para Nick Cave. O mundo é feito dessas terríveis injustiças. Nick Cave subiu ao palco, na ressaca de Juliette e do Vincent e, apesar de ser um autêntico cão dos infernos - e confesso admirador de Cristo, o que o põe em contacto directo com os Woven Hand (talvez tenham trocado de bíblias nos bastidores) - com uma energia sobrehumana e um espectáculo impecavelmente bem esgalhado, não conseguiu rentabilizar devidamente o concerto. Não quero induzir em erro. Eu gosto de Nick Cave. Tenho-o na minha discografia e ouço-o regularmente. Era, para mim, um dos concertos mais esperados, pois nunca o tinha visto em carne e osso. Para grande infortúnio meu e muito por culpa da iliteracia musical dos organizadores do Festival, Nick Cave carregou para o palco os pecados dos seus antecessores e, mesmo esgrimindo argumentos de sobra para ser expiado perante Deus e o Seu povo, não chegou para sarar as chagas. O mal já havia sido feito. Depois do massacre operado pelas vedetas de Hollywood, eu só queria a minha tendinha, o meu saco-cama e o desconforto de uma noite sem sonhos. Só queria sair dali. O mais rápido possível.


Não sei se para o ano há mais. Nem sei quando voltarei a aventurar-me num festival de música. Com a idade começo a ficar exigente e chato. Quero uma cama sem penicilina a crescer-lhe por baixo, um chuveiro que possa partilhar com quem gosto e macacos verdes no nariz.
Ps. Este texto nocivamente extenso é dedicado a A. e R..

terça-feira, agosto 16, 2005

Vou mas volto

A quem passar por aqui: 1. Bárbara, encontrei o teu Berbequim. Não precisas mais fugir do homem; 2. Paulo e Tânia, não conseguimos ir ter com vocês. Estamos em mudanças, sem tempo e muito cansaditos. 3. Vera e Rui, a mesma explicação aplica-se. 4. Natália, eu canto um refrão por ti. 5. Não mãe, não me esqueci de levar boxers. 6. @todos, I'll be back, guardem-me os recortes.

sexta-feira, agosto 12, 2005

A noção de publicidade enganosa. Formas razoáveis de confronto, despiste e não aderência ao engodo.


Verdades e mentiras acerca deste anúncio:
1. É verdade que o rapaz Brian tem uma capacidade limitada. A disfunção erectíl é, no entanto, uma situação clinica ou mecanicamente tratável e, mesmo que não o seja, não deve servir de pretexto velado para empobrecer o alheio ao ponto de lhe deixar unicamente a pixota para satisfação única de uma multiplicidade de tensões. Este princípio anti-ético, geralmente cultivado em analíticos e outros pingarelhos racionalmente imberbes, é conhecido por "só te deixo com aquilo que não tenho" (no caso em apreço, a razão).
2. É verdade que vão estar no "acontecimento" (à falta de melhor expressão) muitos corpos. Daí não se deduz, automaticamente e com prejuízo potencialmente insanável para a reputação dos convivas, que só esteja presente uma alma. Dezenas de anencéfalos não ofuscam necessariamente dois ou três cérebros que possam lá andar a pastar o ócio ou a ironia. Se fosse de graça, até eu ia, porque em encontros deste género há sempre mais tipas a mostrar as mamas do que em qualquer neo-Woodstock.
3. Não é verdade que haja uma cura para a estupidez. O máximo que temos por ora são paliativos com grau de sucesso variado. É verdade que um tratamento profiláctico - e aqui entram as vidas futuras - pode prevenir surtos massivos de comportamentos idiotas. Basta para isso que o atendente a esta comunhão preciosa de "muito pouco sobre nada" conte a história, ternamente (na noite de consoada, por exemplo), de como foi enrabado numa quantia considerável de massa para que os filhos, engasgados na sopa e na estupefação, prestem mais cuidados ao desenvolvimento das gerações vindouras (especialmente as suas). O princípio de prevenir a idiotice futura mediante o reconhecimento da estupidez que existe no presente pode ser aplicado a quase tudo e deve ser fortemente encorajado.

quinta-feira, agosto 11, 2005

"nada do que é humano me surpreende" - Platão. Então vê lá isto.


Amadora. Loja de decoração. Entre velas, caixinhas e outros pechisbeques, hastes de veado. O papel, ilegível no instantâneo, diz: vendem-se ástes de veado. Produto regional?

quarta-feira, agosto 10, 2005

Carrilho desmente Carrilho por causa de Carrilho.


Carrilho: De entre as acusações que lhe fazem, uma delas prende-se com a inconsistência política que revela nas suas decisões. Dizem que é capaz de renegar uma afirmação anterior se com isso conseguir obter um ganho político. É verdade?
Carrilho: Inteiramente falso. Eu sou absolutamente coerente em tudo o que faço e, muito especialmente na política. As opiniões menos positivas às quais associam o meu nome são fruto de invejas ou maldade.
Carrilho: Ainda assim, e sem querer dar demasiada importância a este ponto, não é verdade que disse que Mário Soares não era o candidato ideal para o PS e que teria preferido uma candidatura "de risco", como a de Manuel Alegre?
Carrilho: De todo. O problema dos articulistas e comentadores políticas é não estarem familiarizados com o conceito derridiano de Différance e com as implicações ônticas que daí advêm. Os opinadores da nossa praça não têm, de facto, a única propriedade que lhes seria útil para cumprir a sua função, que é a propriedade de estabelecer distinções e de apresentar os resultados com base nessa operação de destrinça. Preferem antes - por inépcia ou distração das suas funções - coligir tudo aquilo que eu disse e pôr em choque uma afirmação minha com outra afirmação minha. São simples registadores e não opinadores ou criadores de opinião.
Carrilho: Sob esse prisma, devemos então considerar que aquilo que se disse ou escreveu não deve ser interpretado de uma forma sintética - i.e., reunido de maneira a apresentar uma perspectiva única - mas antes como identidades cuja integridade e simplicidade impede uma colação simplista?
Carrilho: Derrida não o teria dito de forma mais clara.
Carrilho: Sinto-me lisonjeado, Professor, mas não sei se sou digno de uma comparação em que os termos a comparar mantêm um desnível acentuado, tanto em forma como em conteúdo.
Carrilho: Caro Carrilho - posso tratá-lo por Carrilho? - deixe-me dizê-lo que é o entrevistador mais competente com que alguma vez me deparei. Derrida - paz à sua alma - não sai denegrido na comparação. Acredite.
Carrilho: Não sendo naturalmente avesso a elogios, confesso-me vexado por este. Derrida - posso confessá-lo? - é para mim uma fonte de inspiração tão enorme e profícua que tenho algum receio em ser ombreado com ele. De qualquer forma, as suas palavras chegam aos meus ouvidos como a sirene distante de uma embarcação prometida.
Carrilho: Neste pais de pobretanas e mentecaptos é difícil manter uma conversação séria e intelectualmente estimulante. Eu, por vezes, com a Bárbara...
Carrilho: Não me diga que a Bárbara - um verdadeiro exemplo da reconversão corpo-cérebro - não o estimula?
Carrilho: Não seria honesto da minha parte dizer que a Bárbara preenche inteiramente os meus desideratos. O Carrilho, em cinco minutos de entrevista, fez mais pela minha líbido do que a Bárbara em meia hora de sexo oral.
Carrilho: Não diga isso, Professor. Sinto-me a corar...
Carrilho: Acho que temos qualquer coisa de muito profundo em comum. Como diria Deleuze, temos um "buraco sem fundo" comum, e conseguimos criar um "corpo sem órgãos" num "planalto mental".
Carrilho: O Professor é tão inteligente e diz coisas tão belas...
Carrilho: Só porque o meu receptor desperta o melhor que há em mim.
Carrilho: Acho que o amo, Professor.
Carrilho: Ainda que considere o amor um subproduto da linguagem e uma barbaridade valentemente enxotada pela pós-modernidade, à falta de melhor palavra, acho que também sinto o mesmo por si.

terça-feira, agosto 09, 2005

Platão revisitado - porque é que Carrilho vai, inevitavelmente, falhar o alvo.

Nada de novo consta desta notícia. Se pensarmos que Carrilho é uma espécie de lado B de Santana Lopes, percebemos imediatamente duas coisas: tanto um como o outro fazem da política uma espécie de extensão intensificadora do vedetismo social e tanto um como o outro têm mais jogo de cintura do que capacidade governativa.
O facto de Carrilho apoiar uma hipotética candidatura de Alegre em detrimento de uma menos hipotética candidatura de Soares tem uma explicação que não passa nem pelo amor comum às letras que, aparentemente, Carrilho e Alegre partilham, nem por uma espécie de reconhecimento político ao esforço de Alegre na defesa dos ideias democráticos e socialistas, pouco traduzida em cargos politicamente relevantes.
Carrilho apoia Alegre contra Soares porque sabe que, por um lado, a sua composição mediática enquanto figura de relevo depende inteiramente da comparação com outras figuras de relevo mediático (e Soares, mesmo velhinho, tem uma aura que ofusca quase todos os restantes políticos) e, desde logo, partilhar a câmara de Lisboa com Soares enquanto presidente ferir-lhe-ia a possibilidade de exposição e, por outra parte, apoiar Alegre representa, dentro dos círculos da velha guarda socialista, uma espécie de atestado da antiguidade como posto e um reconhecimento dos deveres para com aqueles que tanto serviram o partido, sem pouco ou nada - exceptuando uma vida financeiramente desafogada - receberem em retorno. A estratégia de "lapa conveniente" tem uma eficácia a toda à prova. Se Soares ganhar, Carrilho não perde nada, a não ser aquilo que tinha antecipado perder. Se Soares perder, ganha, ainda por cima, o valor inestimável da opinião certa.
O factor X na estratégia de Carrilho e que vai, inevitavelmente, pôr-lhe fim aos delírios umbilicais é relativamente simples: Carrilho não vai ganhar a câmara de Lisboa. Carrilho é um intelectual pós-moderno num país que não gosta de intelectuais e que não sabe o que é o pós-modernismo. Mesmo que se esforce de morte para ser simpático com a varina do bairro ou com o empregado da Carris, Carrilho não consegue descer do alto do nojo que tem da plebe. E isso é indisfarçável. Ainda que "a malta" consinta que ele fale, que ele se insurja contra isto ou aqueloutro ou que ele monte ou não monte a Bárbara, a verdade é que a mesma malta não quer vê-lo no poder; pelo contrário. A malta que Carrilho despreza no cume solitário da sua pós-modernidade moribunda é tão esperta que optou por aproximá-lo o mais possível do poder para rir o mais sonoramente quando dele Carrilho se afastar. Para infelicidade dos alunos de filosofia, será para junto deles. Não mais inteligente, não mais capaz, mas muito mais azedo.

segunda-feira, agosto 08, 2005

Uma gaja dá cabo de um gajo

No espírito da silly season, uma "notícia" a condizer. Cristiano Ronaldo, segundo consta do testemunho de uma jovem que com ele terá parilhado lençóis e fluidos, gosta de vestir-se de mulher e calçar saltos altos. Poderíamos supor tratar-se de uma patologia ao paladar de Freud, na qual Ronaldo só atingia o desejado ângulo de 45º - e consequente desempenho em progressão geométrica - mediante a assumpção de uma figura feminina putativa (mãe?, irmã?, avó?) em substituição da identidade quotidiana. A tese, porém, parece não ser sustentável, dado que a companheira de Ronaldo declara-se insatisfeita com a performance do jovem prodígio da bola. Então para que se veste Ronaldo de mulher?
Primeira hipótese: Ronaldo é um tipo curioso, mexe nas gavetas e experimenta tudo quanto apanha à mão e tem o azar de ser fotografado em trajes menos próprios para quem tem uma reputação de macho cobridor a defender.
Segunda hipótese: Ronaldo bebe uns copos e, de entre todas as coisas que faz - espatifar carros, insultar empregados de mesa e vomitar à beira do Tamisa - uma delas aparece-lhe como surpreendente e apelativa: vestir-se de gaja e, ainda assim, conseguir entreter bruta e selvaticamente a companheira de ocasião. Ela fotografa-o nos raros momentos em que ele se consegue suster mas aquilo que sucede a posteriori não condiz com o cartão de visita do rapaz.
Terceira hipótese: Ronaldo, farto de comer gajas boas e estúpidas, aposta com alguns amigos que consegue comer esta em particular e, ainda por cima, vestido de gaja. Após monumental exibição do boy-wonder lusitano, a tipa descobre a aposta e o seu teor e vinga-se usando para isso as fotos do prodígio de saias.
Quarta hipótese: Ronaldo é um tipo sensível e profundo mas ninguém quer crer nisso. Farto da superficialidade da fama e dos poucos proveitos intelectuais que daí retira, começa a namorar com uma galerista - feia, pobre e desconhecida, mas muito inteligente - e falam noites a fio da invulgar perspectiva pré-fenomenológica de Cézanne e da experiência do desespero nas naturezas mortas de Van Gogh. Ronaldo, numa tirada psicanalítica, sugere à namorada que troquem provisoriamente de identidade, mediante a troca de roupa, para aprofundar a experiência de comunhão que ambos sentem. A rapariga, muito inteligente e beata nas suas intenções, tem uma mãe doente que precisa de tratamento dispendioso. Trai a confiança do intelectual do esférico unica e exclusivamente por não ter outra alternativa para salvar a sua querida progenitora. (Nota: como epílogo podemos supor que, anos mais tarde, Ronaldo descobre a verdade e perdoa a galerista, entretanto gravemente enferma de remorsos e bulimia. Casam-se e dão ao mundo duas criaturas adoráveis: John De Stijl Dos Santos Aveiro e Margaret Freud Dos Santos Aveiro).
Quinta hipótese: Ronaldo gosta de se vestir de gaja mas, estranhamente, a apetência não tem cariz sexual. Experimenta os conjuntos Primavera-Verão da namorada na tentativa de expiar aquilo que ele acha ser um pecado: a riqueza e fama que possui. Chora ao olhar-se ao espelho e sente-se incrivelmente melhor depois. A cena repete-se diariamente porque cada vez tem mais dinheiro e está mais famoso. A gaja, de direita mas torta como um anzol, não admite na sua casa efabulações neo-marxistas e propõe-se acelerar o processo de cura transformando o espelho em tablóides famintos de escândalo. A coisa não funciona, evidentemente, e Ronaldo, assombrado com o acrescimo de fama, refugia-se no Marx Memorial Library na busca de um reforço de fé vermelha e de uma rápida amnesia pública.
Admito outras hipóteses e convido os leitores preocupados com o fenómeno do transformismo nos jogadores da bola a apresentá-las.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Nick Drake matou-se, em 1974, não sem antes deixar gravados três álbuns. O último deles já foi registado com enorme esforço e uma aparente apatia para com tudo o que o rodeava - excepto a música. O sonho de Drake resumia-se a isto: que a sua música tivesse um efeito terapêutico. Nem que fosse somente numa pessoa.
O melhor será nem ter em conta o que escrevi. O melhor será ouvir "Five leaves left" e/ou ver o excelente documentário sobre a vida de Nick Drake, "A skin too few", de 1999.


Nos próximos dois dias esta "coluna" estará sem som.

quinta-feira, agosto 04, 2005

eraumavezumarrastão = eraumavezumareportagem


Todos os assuntos delicados dão azo a apaixonados debates e controvérsias não menos acaloradas. Em Portugal - e julgo que o fenómeno não em exclusivamente português mas, neste caso, falo com conhecimento de causa - o momento que sucede a qualquer acontecimento mediático - ou mediatizado - é posto em discussão nos termos que se seguem: estabelecem-se duas posições, tão antagónicas quanto possível, para com isso iludir qualquer possibilidade de argumentação consequente e promover o apego emocional do espectador, que assiste ao debate como a qualquer luta de boxe. É assim na política - onde os dois partidos mais representativos da cena política nacional são acusados de X quando estão no poder e acusam o outro lado do mesmo X quando não estão em exercício -, é assim nos debates promovidos pela generalidade dos meios de comunicação social - os genéricos e improdutivos exercícios do género "pró-e-contra" aborto, segurança social, liberalização das drogas leves, poder autárquico, etc. Outra táctica comummente usada - quando as posições, mesmo que voluntariamente distorcidas, não chegam para ser francamente contrárias - é a de soerguer teses periféricas e menor importância, tendo em vista acicatar o orgulho dos interlocutores e obrigá-los a situar-se no território da "arenização", porque este último é que aumenta os índices de share. Normalmente as duas posições supra-afloradas andam de par em par. A verdade, essa, não chega a entrar nos bastidores para a maquilhagem.
O caso do "arrastão" é paradigmático. Por um lado, temos a extensa cobertura noticiosa de que foi alvo no dia do seu "acontecimento" e nos dias subsequentes; por outro lado, assistimos à veiculação de uma tese francamente contrária à primeira e que foi ganhando forma e visibilidade com o passar do tempo e o assentar da poeira mediática primeva. A primeira tese é aquela que veio a público nas horas seguintes ao acontecimento e dizia serem estes os factos em causa: um grupo de 400-500 jovens, maioritariamente ou quase exclusivamente pretos, teria organizado um mega-assalto na praia de Carcavelos, provocando o tumulto e o pânico dos banhistas e a indignação dos portugueses confortavelmente instalados no sofá. Ora não sendo uma novidade haver assaltos em praias - ou em outro sítio qualquer - a magnitude do fenómeno, por si, consagrava-lhe espaço de antena e opinação - muito especialmente de todos aqueles que queriam aproveitar o caso para criticar (o governo, a polícia, o SEF, etc.), aparecer publicamente numa pose doutoral ou muito simplesmente aparecer por aparecer.
A segunda tese, que encontra o seu apogeu no vídeo de Diana Andriga, desdobra-se em três posições fundamentais. 1. Não houve arrastão, porque não foram mais de trinta os que roubaram ou tentaram roubar e foi apresentada uma única queixa (para quatro ou cinco detenções) 2. A notícia avançada pela maioria dos órgãos de comunicação é, afinal, de teor propagandista e popularucho, fundada em preconceitos da sociedade portuguesa e 3. A notícia ou foi encomendada pela direita e extrema-direita, ou serve-lhe que nem uma luva, porque vem a lume no mesmo dia da tradicional manifestação fascista do 10 de Junho e relança a eterna discussão sobre a segurança, tão cara aos partidos de direita.
Em que se apoiam os partidários da primeira teoria? Nas imagens repetidas à exaustão nos quatro canais telecisivos e que, ao que dizem, atravessaram fronteiras, e no testemunho - a quente - de polícias e banhistas presentes. E qual o sustento da teoria contrária? Testemunhos - a frio - de banhistas e polícias. Ora dado que não temos mais do que isso - testemunhos circunstancias - que devemos pensar? E aqui acabam os factos. A história - como ela de facto aconteceu - morre e sobrevém-lhe uma coisa inteiramente diversa dos factos que corresponde à discussão acalorada sobre etnias e violência urbana. Aquilo que, de facto, pode apaixonar o público e que, garantidamente, cativa tanto a audiência como uma perspectiva próxima das mamas da Isabel Figueira. Convocou-se, do lado da direita portuguesa, os argumentos em prol do reforço da autoridade que lhe conhecemos e, do lado da esquerda, a imagem constante do mea culpa colectivo social que redime automaticamente qualquer violência, desde que oriunda de uma minoria (étnica, social, religiosa, etc.)
A verdade essa, fica nas entrelinhas de uma reportagem que nunca foi feita (porque não foi feita uma auscultação rigorosa dos testemunhos todos? porque não havia matéria objectiva para construir uma notícia séria? porque se preferiu - como sempre - extremar artificialmente as posições em prol de interesses dúbios?). A verdade que temos - e que por ora nos terá de servir - é que tanto a esquerda como a direita aproveitaram para tirar dividendos à custa de um acontecimento que, tenha existido ou não, entreteve alguns serões na antecâmara do Verão.

quarta-feira, agosto 03, 2005

A esquizofrenia também é filosofia!

A Associação de Professores de Filosofia e o GAVE acrescentam um novo capítulo à novela de Verão que versa sobre os exames de Filosofia previstos para o próximo ano lectivo. Há apenas uma semana, a associação em causa disponibilizou, no seu site, um parecer sobre as orientações de leccionação do programa de Filosofia, 10º/11º anos. O parecer em causa era francamente negativo relativamente às orientações propostas para o exame.
Com a mesma mão, a AFP vem a público, pela voz do seu presidente, Mário Santiago de Carvalho, descartar-se do conteúdo do parecer suprareferido e, de igual forma, distanciar-se das posições particulares que os associados da AFP possam sustentar. Ora que se afastem daqueles discordam a viva voz das direcções enunciadas nas orientações, ainda posso compreender. A AFP, na figura do seu dirigente máximo, simplesmente cria uma clivagem dentro da própria associação com vista a não pisar os calos do Ministério da Educação, na figura do GAVE. Ainda que ache que a estrutura de posicionamento bicéfala que optaram por assumir seja de uma clara e escandalosa incompetência, não os posso condenar moralmente por isso. Quanto à história do parecer, essa sim assume contornos menos claros e, sobretudo, menos dignos de um ponto de vista moral.
O parecer em causa está assinado pela direcção da AFP - e, desde logo, pelo próprio Mário Santiago de Carvalho. E o parecer, como já tivemos oportunidade de referir, não é abonatório no que concerne o teor das orientações propostas para o leccionamento do próximo ano lectivo. Poder-me-ão dizer que uma coisa são as orientações que o GAVE propõe para o leccionamento e outra coisa bem diferente será o modelo de exame para o próximo ano. Neste caso a AFP estaria a analisar as duas componentes e teria chegado à conclusão que as orientações não são, de facto, viáveis, de um ponto de vista académico e pedagógico mas, não encontrando matéria para classificar negativamente a proposta de exame para o próximo ano lectivo, desmarcar-se-ia de qualquer acusação ao mesmo - inclusive aquela que diagnostica uma estreita colagem entre o exame e um manual específico (através da formatação do exame a revés do programa em vigor). Se os factos assim o fossem, sopas e descanso, não valia a pena continuar a dedilhar uma linha que fosse.
No entanto, os factos são outros, e de uma ordem inteiramente diversa àquela que a AFP quer fazer passar. A verdade é que não só a proposta de exame para 2006 escavaca por inteiro as orientações do programa em vigor como também legitima, de forma sub-reptícia, a implementação das orientações provisórias para 2006 (as tais que a AFP diz serem boas para dar aos cães e não mais que isso). Isto porque o exame proposto é, na verdade, um decalque do conteúdo da orientação prevista - e não é preciso mais do que dois dedos de testa para reconhecer isso, sem má-fé de qualquer espécie. Ora se a AFP discorda abertamente das orientações provisórias, como é que pode passar a mão pelo pêlo do exame que visa conferir-lhes legitimidade pedagógica? Afiguram-se-me duas hipóteses credíveis.
Ou a AFP, na figura do seu presidente, perdeu noção da realidade e deve ser encarada como qualquer imbecil de boa-fé e, desde logo, incapaz de servir os melhores interesses dos seus associados e, muito especialmente, daqueles que dependem, de forma directa, dos seus associados ou, por outro lado, existem sectores da AFP que pretendem branquear a forma como o processo tem vindo a decorrer - seja esta o resultado da estupidez clara ou da má-fé às claras - e o presidente ou pertence a esses sectores ou é directamente influenciável por eles.
Qualquer das duas hipóteses - que gosto de manter como tais até que surjam evidências sólidas do contrário - mostra não somente a incrível infidelidade à palavra primeira como carimba um selo branco no atestado de mediocridade intelectual e moral que se pode passar a quase qualquer instituição nacional.

terça-feira, agosto 02, 2005

"Every living creature dies alone"

Não são raras as vezes as quais eu discordo dos critérios de classificação atribuídos a filmes, livros, restaurantes ou detergentes. Isso é particularmente notório no que toca a "produtos culturais" que dependem, em larga escala, de critérios subjectivamente conformados e experiências de vida que podem estar em dessintonia completa com os meus. Donnie Darko - primeira versão ou Director's Cut - é uma saudável excepção.
Lembro-me de ter ouvido falar do filme num registo sci-fi. Um coelho-Maya aparece a um adolescente esquizóide anunciado o fim do mundo dentro de 24 horas. Dito isto, digamos que a minha recepção da coisa não foi propriamente a mais entusiástica. Imaginei uma versão B adulterada do "Ataque dos tomates assassinos" ou um rapaz amigo-de-alguém-na-indústria armado em Lynch. Qualquer das duas preconcepções atirava o Donnie Darko para longe das minhas prioridades cinematográficas - e de quaisquer outras, em geral.
A ideia de um coelho gigante vidente não deixava de se tornar uma ideia - como diremos - interessante, do ponto de vista narrativo. Sem saber nada de relevante acerca do argumento do filme, imaginava duas coisas em simultâneo: quem seria o doente que fantasia com coelhos anabolizados - exptuando a Moloko, claro - e como teria ele vendido "a ideia" à produtora que o acolheu? (tenho uma ideia para um filme: é sobre um puto doente, inserido numa família disfuncional - as maravilhas da linguagem pós-moderna politicamente correcta - que alucina com um coelho monstruoso que lhe diz que o mundo vai acabar. O que acha?)
Seduzido pela originalidade - exotismo? - do conceito, resolvi - com vista a sossegar as pulsões mínimas de interesse que nutria pelo filme - dar uma vista de olhos na capa e quando a vi percebi que que tinha, obrigatoriamente, de tirar a história a limpo.
Primeira surpresa. A banda sonora. O filme abre com "The Killing Moon" dos Echo & the Bunnymen (claro). Quem não viveu os eighties não sabe do que estou a falar e quem os viveu dispensa conjecturas adicionais. Não é frequente repescarem-se temas dos anos oitenta para bandas sonoras, até porque toda a gente - ou quase toda - quer esquecer-se que passou pelos oitentas. Isto inclui especialmente adolescentes, comunistas e designers de moda. Os eighties foram uma espécie de limbo depressivo para muitos dos que se lembra deles; a guerra fria terminara sem dar lugar a uma paz que se lhe equivalesse em peso existencial, a música - tirando o punk e o metal nas suas diversas metamorfoses - reflectia de forma cristalina o zeitgeist: a solidão urbana, a sida - poucos anos passados sobre o free love -, a paz doente instalada na Europa, o efeito-estufa e a descoberta de um planeta em progressica e constante decomposição ecológica e, sobretudo, a progressiva normalização das formas aceitáveis de vida - baseadas unicamente sobre o índice de produtividade individual - faziam dos anos oitenta uma espécie de ressaca existencial da euforia vivida nas duas décadas anteriores. Onde tudo era permitido, doravante tudo seria controlado.
Donnie Darko, não sendo um filme dos eighties, é escrito e realizado por alguém que, nesse período conturbado, estava a passar ele próprio por uma fase não menos problemática. Richard Kelly deslizou adolescência fora a ouvir Echo & the Bunnymen, The Cure, Joy Division, Bauhaus e restantes agrupamentos urbano-depressivos. O facto é mostrado de forma directa na escolha da banda sonora, mas as influências indirectas da geração da desesperança fazem-se sentir em - quase - todos os registos do argumento.
Lembro-me de ter lido algures - algum crítico o terá escrito - que "Donnie Darko navegava nas águas do teen movie mas com constantes mudanças de registo - de carácter surreal - que nunca o deixam fixar-se no género" e, não sendo uma citação exacta, deverá ser uma paráfrase adequada da frase original. Não deixando de dar algum crédito à afirmação, não me parece que Donnie Darko possa ser enquadrado em qualquer categoria, seja ela sci-fi - como me foi originalmente descrito -, drama, mistério ou teen movie. Donnie Darko é um filme de autor.
Richard Kelly, da geração de 70, soube captar, com inteligência e fínissimo sentido artístico, toda a trama disposicional da sua adolescência - e de toda uma geração de adolescentes - e verteu-a num filme no qual as personagens são - obrigatoriamente - adolescentes, mas de uma espécie particular (principalmente Donnie), com preocupações de ordem metafísica e com sonhos que divergem da óbvia realização monetária ou da não menos óbvia felicidade eterna.
Todo o filme concentra as suas energias na exploração da individualidade contemporânea e nas suas relações com a solidão. Enquanto que nenhum destes conceitos são novos, não é menos verdade que cada época sente-os com maior ou menor presença e atribui-lhes diferentes graus de peso existencial. A geração de 80 descobriu-se na desconfiança relativamente a tudo: utopias (nasci a tempo de assistir ao enterro do cadáver já pútrido do comunismo soviético), valores (familiares ou sociais, todos eles foram substiuídos na escala axiológica pelo valor da produtividade, ou competência, ou o que lhe queiram chamar), pessoas (a sida, por um lado, encarregou-se de minar o o tecido de relações que havia sido estruturado nas décadas anteriores; a crescente cobertura mediática de tudo quanto satisfaça uma curiosidade mórbida inexplicável encarregou-se de destruir a perfeição dos ídolos) e, não menos importante, os sonhos (estes levados para a cova pela estrura de normalização e formatação de objectivos e formas respeitáveis de vida). Donnie Darko - enquanto personagem central do filme homónimo - é isso tudo. O diálogo de abertura do filme, em que pai e filha confrontam duas perspectivas diferentes de sociedade e no qual Donnie participa na figura do "terrorista ontológico" é um exemplo perfeito para esta interpretação. Enquanto que o pai de Donnie dá voz à geração de 50, a filha, por sua vez, representa a de 70 e Donnie, obviamente, é a personificação dos 80.
A diferença de Donnie Darko para com os Joy Division - para além da diferença de forma - tem que ver com o resgatar da possibilidade do sonho, sem que se negue, para tal, a efectividade da derrocada. Se, como diz Donnie, em conversa com a sua psiquiatra, que "every living creature dies alone" - uma frase chave da contemporaneidade, o facto da sua morte poder ser revestida de um sentido - coisa absolutamente estranha aos olhos de um moderno - eleva o filme acima do mero registo factual - que já seria óptimo, se por aí tivesse ficado.
Uma obra-prima - e uma primeira obra - que merece ser vista no escuro e sem pipocas. Com boa companhia, de preferência, para que meia hora depois do filme ter terminado possamos dizer o quanto nos tocou. Eu tive isso tudo.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Cronistas e outros confabuladores, essas pepitas do jornalismo contemporâneo...


Agosto, como se sabe, é o mês do nonsense jornalístico. Parece haver um entendimento sub-reptício entre editores,jornalistas e público no que concerne ao teor e qualidade das notícias: tudo tem de ser - e, sobretudo, parecer - tão estúpido quanto possível. Este fenómeno sazonal é o correlato de um ano em que as coisas são tratadas com uma seriedade litúrgica; em todos os restantes dias do "ano fiscal noticioso" avolumam-se manchetes sobre o défice - a nova Catarina Furtado dos portugueses -, o estado caótico do governo e/ou das finanças, os preciosos apontamentos pontuais na forma da biografia trágica lusitana (o menino da cadeira de rodas sem cadeira de rodas, o deficiente a cargo de imbecis ou os inúmeros estafermos que se atiram para piscinas vazias e bolsam, subsequentemente, relatos posmortem, etc.) a cargo da TVI, do Correio da Manhã ou do 24 horas. Portugal um Madrid editorial: onze meses de inverno e um mês de inferno, cumprindo em Agosto um inexplicável ramadão do cérebro.
Aberta a época de caça, destaca-se a "crónica" em anexo. O "cronista" - desconhecido (felizmente) da maioria dos portugueses - chama-se Reginaldo Rodrigues de Almeida - e a infeliz conjugação onomástica não é um pseudónimo, mas antes um subproduto da bílis parental. Este escrevinhador de Agosto é - ao que sabemos - doutorado pela Universidade Complutense, em Madrid, na área de Ciências da Comunicação (um dos ramos mais férteis da imbecilidade contemporânea) com uma tese que chamada "Sociedade Bit - da sociedade da informação à sociedade de conhecimento", publicada algures e disponível numa idoteca perto de si. É igualmente professor na Universidade Autónoma e secretário-geral de qualquer coisa, assim como membro - certamente na categoria de peso-pluma cerebral - de algumas associações (a autenticidade das afirmações anteriores carece de verificação - as mesmas foram coligidas da sua página pessoal). Não obstando a generosa dispensa de boa-fé nas capacidades deste cronista sazonal - que seriam rapidamente afastadas caso os critérios de apreciação fossem a cara ou o nome - vejamos o que resulta de uma rápida inspecção ao currículo do rapaz. Em primeiro lugar, temos conhecimento de como se dispensam os graus de doutoramento na Complutense de Madrid - no que toca à versão franchise portuguesa, via Autónoma. A lógica comercial dita que, caso o candidato cumpra os requisitos de ordenação doutoral - cheque com cobertura - não lhe será negado o título, a pompa e a circunstância. Exige-se um mínimo académico na forma do cumprimento da regra do peso e da medida - tese do doutoramento que se preze tem de ter mais de X páginas e um mínimo de Y gramas. Fora isso, é pagar e passar, numa espécie de portagem académica para iletrados com alguma disponibilidade financeira. O calhamaço de doutoramento do doutor Reginaldo assenta as suas bases numa exótica repescagem epsitemológica da ideia do Pai Natal. Diz Reginaldo, numa das suas muitas entrevistas a órgaõs de comunicação social brasileiros que "temos de incorporar esta teoria do Papai Noel para sobreviver no futuro" (sic). Para os poucos que lêem este blogue e, de entre eles, os poucos sãos - o que reduz a cifra a uma ou duas criaturas de maus hábitos -, esta coisa do "Papai Noel" aplicado às Ciêncas da Comunicação deve soar a franca e incontrolada manifestação de má vontade para com o professor Reginaldo. Vide então esta página, quarto artigo e livrai o escriba de serviço das acusações de invectivas infundadas. A página em questão apresenta a "teoria" com mais detalhe.
Em segundo lugar, e para poupar o leitor à modorra a que me submeti voluntariamente, o artigo anexo a esta entrada contém alguns sublinhados a amarelo que atestam a capacidade literária deste fenómeno das Ciências da Comunicação. O Reginaldo, para além de ser estúpido como um calhau - e não moderdamente, como outras criaturas já mencionadas neste espaço - escreve um híbrido de português que faria corar de embaraço um aprendiz de estivador. O artigo em questão - que não é mais do que um panegírico ao próprio encapsulado na tese geral de que "todos os outros são estúpidos", uma ideia indispensável para a construção de uma sólida carreira - tem como título qualquer coisa que me escapa na ligação(?) que mantém com o resto do texto: "Universidade, esse marfim". Não percebo a relação do marfim com a universidade - é a universidade as presas de um paquiderme morto, símbolo de uma instituição ou de um Estado? (demasiadas metáforas, mesmo que a tese se confirme) - ou do marfim com o resto do texto em geral. Devo dizer que, mesmo após uma releitura mais atenta e de um recorrente bocejar de nojo residual, continuo sem compreender o âmago conceptual que deve ser inteligível na desocultação das ligações entre os termos presa-elefante-universidade (hegeliano? marxista?). Aceito, como sempre, sugestões.
Em terceiro lugar, e já que o DN aproveitou a época estival para nos presentear com a aguda inteligência do doutor Reginaldo, façamos uma breve reflexão sobre o currículo do supracitado - e os que estão de férias podem dedicar ao caso mais cinco minutos que os outros sem sentirem que se sentirem culpados de não aproveitamento do ócio. Ora este autêntico mamute da cultura portuguesa - e figura de estilo mostra como a imagem do paquiderme pode ser bem aproveitada -, que compra uma tese para posteriormente a revender a uma qualquer editora absolutamente desprovida de critério, consegue, sabe-se lá com recurso a que atributos - e já vimos que não são os do merito ou da inteligência -, ir à Feira do Livro de Frankfurt promover o quilo de palha, dar aulas numa faculdade (sim, ainda que seja a autónoma, é uma faculdade) e escrevinhar umas linhas em jornais com algum renome. Ora não lhe podendo gabar a inteligência, louvo-lhe a esperteza e persistência, porque de uma enfiada consegue, através da repetição exaustiva de alguns trambolhões do intelecto a que ele chama teses, atingir um patamar de visibilidade - diferente, em forma e conteúdo, de notoriedade - que o permite aventar à boca cheia e na praça pública qualquer patacoada que lhe passe de um neurónio para o outro. O sucesso que granjeia no Brasil (de onde são oriundos os artigos de imprensa constantes da sua página) pode ser percebido à luz do fenómeno Paulo Coelho e outros equídeos do género. Não consigo porém descortinar como e porque esta criatura consegue ser professor numa universidade portuguesa e ainda opinador frequente e figura de referência - ainda que dentro de uma determinada "área". Só o compreendo se o indivíduo em causa for da mesma estirpe daquele que promovem a competência como eixo basilar na recuperação deste doente crónico chamado Portugal. Ou isto é verdade ou não há verdade.