Os velhos são chatos - I
Um gajo vai à Caixa Geral de Depósitos - porque ainda não inventaram um sistema de homebanking que desse para depositar cheques, acendo uma velinha todos os dias a pensar nisso - tem dez minutos para ressuscitar uma conta à ordem que passou do estado comatoso para o clinicamente morto já há dias, o ajudante do secretário do sub-gerente já fez a amabilidade de telefonar - manso e meloso e, ainda assim, em tom de ultimato - a dizer que o banco admite uma falha ocasional a um bom cliente (quem? eu?) mas que o assunto em breve sairá das mãos dele - passará para o secretário do sub-gerente and so on até os telefonemas serem substituídos por ordens judiciais - e diz-me que eu não quero isso, eu que estou simplesmente no intervalo cíclico entre a pobreza e o saldo-anão, a pensar que não me posso atrasar, aqueles dez minutos estão no meio de três pataniscas mal digeridas e de uma tarde inteira a varrer o teclado com a ponta dos dedos e, quando chego finalmente à única máquina de todo o banco que permite depositar cheques - os balcões da Caixa têm uma regra provavelmente secreta que impede que mais de duas pessoas trabalhem ao mesmo tempo, para que as filas não diminuam e dêem a impressão de que o sítio é popular e que se passa lá um bom bocado... - estão lá duas velhotas, com três cadernetas cada uma (a pior invenção da história da banca!) à tentar perceber qual o botão para actualizá-las, quando há máquinas específicas para o efeito, onde não é preciso carregar em nada e em que quase se dispensa a capacidade de ler português (essas máquinas, obviamente, estão desertas, porque os velhos querem utilizar aquelas que os outros utilizam - um pouco como as crianças que querem sempre brincar com aquilo que o outro tem na mão - salvo seja). Passam-se os dez minutos, os vinte minutos que não tenho e quatro cadernetas. Perco a paciência, azeda-se-me a patanisca que não tem meio de seguir o curso normal do tracto digestivo e pergunto à velha - manso, meloso, mas determinado - porque é que ela não usa as máquinas especialmente destinadas ao efeito de actualizar a caderneta e a velha, entre o lambe-dedo-vira-a-pagina e o Parkinson de tremelicos à procura da ranhura certa, desmaia-se-me, lívida de um susto não premeditado e enquanto eu faço os possíveis para evitar que ela perca mais faculdades num embate craniano no chão ou na máquina, os outros velhos despertam da letargia da espera, acercam-se de mim num voluntarismo inédito e só consigo sair do banco depois de revistas as gravações do acontecimento na companhia de três polícias e de um surdo-mudo com destreza para ler os lábios. À saída, uma das velhas, num surto de energia imprevisto, escarra-me para cima e eu vou a correr para o trabalho, supipamente atrasado, a pensar se tenho a vacina da tuberculose em dia.

1 Comments:
Adorei adorei e adorei!!!já não me ria assim desde...já nem me lembro. Obrigada e estou desejosa por mais uma ida (tua) ao banco.
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