segunda-feira, agosto 01, 2005

Cronistas e outros confabuladores, essas pepitas do jornalismo contemporâneo...


Agosto, como se sabe, é o mês do nonsense jornalístico. Parece haver um entendimento sub-reptício entre editores,jornalistas e público no que concerne ao teor e qualidade das notícias: tudo tem de ser - e, sobretudo, parecer - tão estúpido quanto possível. Este fenómeno sazonal é o correlato de um ano em que as coisas são tratadas com uma seriedade litúrgica; em todos os restantes dias do "ano fiscal noticioso" avolumam-se manchetes sobre o défice - a nova Catarina Furtado dos portugueses -, o estado caótico do governo e/ou das finanças, os preciosos apontamentos pontuais na forma da biografia trágica lusitana (o menino da cadeira de rodas sem cadeira de rodas, o deficiente a cargo de imbecis ou os inúmeros estafermos que se atiram para piscinas vazias e bolsam, subsequentemente, relatos posmortem, etc.) a cargo da TVI, do Correio da Manhã ou do 24 horas. Portugal um Madrid editorial: onze meses de inverno e um mês de inferno, cumprindo em Agosto um inexplicável ramadão do cérebro.
Aberta a época de caça, destaca-se a "crónica" em anexo. O "cronista" - desconhecido (felizmente) da maioria dos portugueses - chama-se Reginaldo Rodrigues de Almeida - e a infeliz conjugação onomástica não é um pseudónimo, mas antes um subproduto da bílis parental. Este escrevinhador de Agosto é - ao que sabemos - doutorado pela Universidade Complutense, em Madrid, na área de Ciências da Comunicação (um dos ramos mais férteis da imbecilidade contemporânea) com uma tese que chamada "Sociedade Bit - da sociedade da informação à sociedade de conhecimento", publicada algures e disponível numa idoteca perto de si. É igualmente professor na Universidade Autónoma e secretário-geral de qualquer coisa, assim como membro - certamente na categoria de peso-pluma cerebral - de algumas associações (a autenticidade das afirmações anteriores carece de verificação - as mesmas foram coligidas da sua página pessoal). Não obstando a generosa dispensa de boa-fé nas capacidades deste cronista sazonal - que seriam rapidamente afastadas caso os critérios de apreciação fossem a cara ou o nome - vejamos o que resulta de uma rápida inspecção ao currículo do rapaz. Em primeiro lugar, temos conhecimento de como se dispensam os graus de doutoramento na Complutense de Madrid - no que toca à versão franchise portuguesa, via Autónoma. A lógica comercial dita que, caso o candidato cumpra os requisitos de ordenação doutoral - cheque com cobertura - não lhe será negado o título, a pompa e a circunstância. Exige-se um mínimo académico na forma do cumprimento da regra do peso e da medida - tese do doutoramento que se preze tem de ter mais de X páginas e um mínimo de Y gramas. Fora isso, é pagar e passar, numa espécie de portagem académica para iletrados com alguma disponibilidade financeira. O calhamaço de doutoramento do doutor Reginaldo assenta as suas bases numa exótica repescagem epsitemológica da ideia do Pai Natal. Diz Reginaldo, numa das suas muitas entrevistas a órgaõs de comunicação social brasileiros que "temos de incorporar esta teoria do Papai Noel para sobreviver no futuro" (sic). Para os poucos que lêem este blogue e, de entre eles, os poucos sãos - o que reduz a cifra a uma ou duas criaturas de maus hábitos -, esta coisa do "Papai Noel" aplicado às Ciêncas da Comunicação deve soar a franca e incontrolada manifestação de má vontade para com o professor Reginaldo. Vide então esta página, quarto artigo e livrai o escriba de serviço das acusações de invectivas infundadas. A página em questão apresenta a "teoria" com mais detalhe.
Em segundo lugar, e para poupar o leitor à modorra a que me submeti voluntariamente, o artigo anexo a esta entrada contém alguns sublinhados a amarelo que atestam a capacidade literária deste fenómeno das Ciências da Comunicação. O Reginaldo, para além de ser estúpido como um calhau - e não moderdamente, como outras criaturas já mencionadas neste espaço - escreve um híbrido de português que faria corar de embaraço um aprendiz de estivador. O artigo em questão - que não é mais do que um panegírico ao próprio encapsulado na tese geral de que "todos os outros são estúpidos", uma ideia indispensável para a construção de uma sólida carreira - tem como título qualquer coisa que me escapa na ligação(?) que mantém com o resto do texto: "Universidade, esse marfim". Não percebo a relação do marfim com a universidade - é a universidade as presas de um paquiderme morto, símbolo de uma instituição ou de um Estado? (demasiadas metáforas, mesmo que a tese se confirme) - ou do marfim com o resto do texto em geral. Devo dizer que, mesmo após uma releitura mais atenta e de um recorrente bocejar de nojo residual, continuo sem compreender o âmago conceptual que deve ser inteligível na desocultação das ligações entre os termos presa-elefante-universidade (hegeliano? marxista?). Aceito, como sempre, sugestões.
Em terceiro lugar, e já que o DN aproveitou a época estival para nos presentear com a aguda inteligência do doutor Reginaldo, façamos uma breve reflexão sobre o currículo do supracitado - e os que estão de férias podem dedicar ao caso mais cinco minutos que os outros sem sentirem que se sentirem culpados de não aproveitamento do ócio. Ora este autêntico mamute da cultura portuguesa - e figura de estilo mostra como a imagem do paquiderme pode ser bem aproveitada -, que compra uma tese para posteriormente a revender a uma qualquer editora absolutamente desprovida de critério, consegue, sabe-se lá com recurso a que atributos - e já vimos que não são os do merito ou da inteligência -, ir à Feira do Livro de Frankfurt promover o quilo de palha, dar aulas numa faculdade (sim, ainda que seja a autónoma, é uma faculdade) e escrevinhar umas linhas em jornais com algum renome. Ora não lhe podendo gabar a inteligência, louvo-lhe a esperteza e persistência, porque de uma enfiada consegue, através da repetição exaustiva de alguns trambolhões do intelecto a que ele chama teses, atingir um patamar de visibilidade - diferente, em forma e conteúdo, de notoriedade - que o permite aventar à boca cheia e na praça pública qualquer patacoada que lhe passe de um neurónio para o outro. O sucesso que granjeia no Brasil (de onde são oriundos os artigos de imprensa constantes da sua página) pode ser percebido à luz do fenómeno Paulo Coelho e outros equídeos do género. Não consigo porém descortinar como e porque esta criatura consegue ser professor numa universidade portuguesa e ainda opinador frequente e figura de referência - ainda que dentro de uma determinada "área". Só o compreendo se o indivíduo em causa for da mesma estirpe daquele que promovem a competência como eixo basilar na recuperação deste doente crónico chamado Portugal. Ou isto é verdade ou não há verdade.

1 Comments:

At 03:09, Anonymous Anónimo said...

O artista Reginaldo de Almeida é mais um que se vangloria daquilo que não sabe, o que é fácil quando se fala de sistemas de informação e de coisas fáceis ao ouvido.

Era interessante perguntar-lhe se neste esforço de modernizar Portugal também se incluem os custos que a UAL teve com a criação de um ginásio+sauna+etc só para acesso da direcção no edifício à frente da Universidade (St. Marta) enquanto os alunos tinham que pagar a impressão dos trabalhos (cada folha 5$00 em 1998) e pagavam 10 cts por cada certificado de equivalência (por cadeira).

 

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