OS velhos são chatos - II
Um gajo vais aos correios, apretrechado da mais fina fé de encontrar a coisa mais ou menos num estado desértico, porque o Mundial anda nos pés, na cabeça e nas bocas de toda a gente, sorvendo avidamente tempo de ócio e a réstia de espaço neuronal que alguns compatriotas ainda possuem e depara-se com uma estação absolutamente apinhada de gente a mandar cartas, a receber registos, a telefonar sabe Deus para que país de idioma incompreensível, um autêntico rebuliço de envelopes, caixotes e pseudo-sânscrito nas cabines telefónicas e assalta-me imediatamente a vontade de exibir, em tom contido mas revoltado, a pontinha mais rosada e macia que Deus me deu e imediatamente depois puxar o cordelinho artesenal que detona um corpete de explosivo plástico capaz de estilhaçar meia aldeia alentejana para que esta merda toda se quilhe à moda americana e não consigo, nunca consigo dar vazão a esta fúria da espera, a esta obrigatória modorra que se instala em jeito de lapa de cada vez que tenho de comprar um selo ou pagar uma contribuição qualquer e lá me quedo no meu canto, número 206 na mão, olhos postos ora no mostrador electrónico ora nas maminhas enjeitadas da tipa menos feia presente na estação e quase que durmo num fingido conforto de alumínio e enquanto os números rodam no visor os velhos aproximam-se dos balcões numa ligeireza de linces, envelopes gordos de contas de água luz e telefone nas mãos, postura de imbecilidade treinada e perguntam ao empregado indefeso, numa manha cigana mista de distração e atrevimento, se podem pagar só umas continhas, que lhes doem as costas, dizem, que o reumático não perdoa, que não eprcebem nada de filas números esperas e guichês, que tudo era diferente no tempo de Salazar ou de outro ovni histórico qualquer, que só querem pagar e ir para casa e eu assisto a tudo, qual mexicano em letargia de sol, consciente da aritmética falaciosa do mostrador electrónico, que roda os números de duas em duas ou de três em três pessoas e a espera dá lugar à tremedeira nervosa, porque os velhos multiplicam-se como coelhos + primavera e nunca mais vou sair dali, eu que só quero comprar dois selos, duas míseras estampas com 3 centímetros quadrados cada, eu que pago as minhas contas todas por transferência bancária para evitar sujeitar-me à espera infinita e eles chegam, tortos de uma artrose que comodamente se sume assim que são atendidos e eu instalo-me no espanto de se poder pagar contas da luz nos correios, eu que não me imagino a comprar pilhas na farmácia ou a declarar o esquelético rendimento no padeiro e esta gente agultina-se em volta dos guichês como glóbulos vermelhos até que eu decido, num surto inesperado de brio e amor-próprio, que nem mais um velho se esquivará à civilizada arte da espera e encosto-me ao balcão, pronto a travar um sextagenário atrevidote com um maço de envelopes da EDP e resoluta mas pacientemente pergunto-lhe pela senha enquanto o velho se contorce em maneirismos de cobra, palpando todos os bolsos num ar progressivamente mais tristonho eu sorrio, confiante de que terei alguma coisa de interessante para contar ao jantar e o velho, num absoluto inesperado, ajoelha-se à minha frente, soluçando que não tem dinheiro, que a reforma é pouca e nem chega para o tabaco, que me dava, diz ele, que me dava se tivesse, enquanto soluça um histerismo barítono que atrai a atenção de todos e de repente sou um gatuno, um gatuno da pior espécie, daqueles que tanto roubam os chupas às criançinhas como as reformas aos velhos, um drogadito com lata e aspecto mediano, na melhor das hipóteses e antes que dê por mim estou cercado, os velhos acorrem num socorro grupal ao sextagenário chorão e provavelmente meio surdo ou meio parvo e eu tenho rebolar dali para fora, por debaixo das pernas dos velhos e das velhas e assim que que saio porta fora e consigo retomar o fôlego decubro-me repleto de arranhões semi-cirúrgicos, provavelmente conseguidos na fuga pelo matagal de pernas que nunca viram cera ou estecista e começo a pensar na história que vou contar ao jantar, ou se vou mesmo jantar a casa.

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