quarta-feira, agosto 10, 2005

Carrilho desmente Carrilho por causa de Carrilho.


Carrilho: De entre as acusações que lhe fazem, uma delas prende-se com a inconsistência política que revela nas suas decisões. Dizem que é capaz de renegar uma afirmação anterior se com isso conseguir obter um ganho político. É verdade?
Carrilho: Inteiramente falso. Eu sou absolutamente coerente em tudo o que faço e, muito especialmente na política. As opiniões menos positivas às quais associam o meu nome são fruto de invejas ou maldade.
Carrilho: Ainda assim, e sem querer dar demasiada importância a este ponto, não é verdade que disse que Mário Soares não era o candidato ideal para o PS e que teria preferido uma candidatura "de risco", como a de Manuel Alegre?
Carrilho: De todo. O problema dos articulistas e comentadores políticas é não estarem familiarizados com o conceito derridiano de Différance e com as implicações ônticas que daí advêm. Os opinadores da nossa praça não têm, de facto, a única propriedade que lhes seria útil para cumprir a sua função, que é a propriedade de estabelecer distinções e de apresentar os resultados com base nessa operação de destrinça. Preferem antes - por inépcia ou distração das suas funções - coligir tudo aquilo que eu disse e pôr em choque uma afirmação minha com outra afirmação minha. São simples registadores e não opinadores ou criadores de opinião.
Carrilho: Sob esse prisma, devemos então considerar que aquilo que se disse ou escreveu não deve ser interpretado de uma forma sintética - i.e., reunido de maneira a apresentar uma perspectiva única - mas antes como identidades cuja integridade e simplicidade impede uma colação simplista?
Carrilho: Derrida não o teria dito de forma mais clara.
Carrilho: Sinto-me lisonjeado, Professor, mas não sei se sou digno de uma comparação em que os termos a comparar mantêm um desnível acentuado, tanto em forma como em conteúdo.
Carrilho: Caro Carrilho - posso tratá-lo por Carrilho? - deixe-me dizê-lo que é o entrevistador mais competente com que alguma vez me deparei. Derrida - paz à sua alma - não sai denegrido na comparação. Acredite.
Carrilho: Não sendo naturalmente avesso a elogios, confesso-me vexado por este. Derrida - posso confessá-lo? - é para mim uma fonte de inspiração tão enorme e profícua que tenho algum receio em ser ombreado com ele. De qualquer forma, as suas palavras chegam aos meus ouvidos como a sirene distante de uma embarcação prometida.
Carrilho: Neste pais de pobretanas e mentecaptos é difícil manter uma conversação séria e intelectualmente estimulante. Eu, por vezes, com a Bárbara...
Carrilho: Não me diga que a Bárbara - um verdadeiro exemplo da reconversão corpo-cérebro - não o estimula?
Carrilho: Não seria honesto da minha parte dizer que a Bárbara preenche inteiramente os meus desideratos. O Carrilho, em cinco minutos de entrevista, fez mais pela minha líbido do que a Bárbara em meia hora de sexo oral.
Carrilho: Não diga isso, Professor. Sinto-me a corar...
Carrilho: Acho que temos qualquer coisa de muito profundo em comum. Como diria Deleuze, temos um "buraco sem fundo" comum, e conseguimos criar um "corpo sem órgãos" num "planalto mental".
Carrilho: O Professor é tão inteligente e diz coisas tão belas...
Carrilho: Só porque o meu receptor desperta o melhor que há em mim.
Carrilho: Acho que o amo, Professor.
Carrilho: Ainda que considere o amor um subproduto da linguagem e uma barbaridade valentemente enxotada pela pós-modernidade, à falta de melhor palavra, acho que também sinto o mesmo por si.

3 Comments:

At 14:44, Blogger Helder Mendes said...

AHAHAAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHA!!!!!!! (agora mais a sério: porque será que as únicas entrevistas de jeito ao Carrilho são as falsas? Ora aqui está um assunto para se meditar durante o restante Agosto...)

 
At 15:04, Blogger radioapilhas said...

Garanto-lhe que não é falsa. É em "off" e prometi sigilo à fonte. ;)

 
At 18:26, Anonymous Anónimo said...

A ideia de um Carrilho a depreciar o sexo oral em diálogo consigo mesmo - eis algo que me enche as medidas.

 

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