quinta-feira, agosto 04, 2005

eraumavezumarrastão = eraumavezumareportagem


Todos os assuntos delicados dão azo a apaixonados debates e controvérsias não menos acaloradas. Em Portugal - e julgo que o fenómeno não em exclusivamente português mas, neste caso, falo com conhecimento de causa - o momento que sucede a qualquer acontecimento mediático - ou mediatizado - é posto em discussão nos termos que se seguem: estabelecem-se duas posições, tão antagónicas quanto possível, para com isso iludir qualquer possibilidade de argumentação consequente e promover o apego emocional do espectador, que assiste ao debate como a qualquer luta de boxe. É assim na política - onde os dois partidos mais representativos da cena política nacional são acusados de X quando estão no poder e acusam o outro lado do mesmo X quando não estão em exercício -, é assim nos debates promovidos pela generalidade dos meios de comunicação social - os genéricos e improdutivos exercícios do género "pró-e-contra" aborto, segurança social, liberalização das drogas leves, poder autárquico, etc. Outra táctica comummente usada - quando as posições, mesmo que voluntariamente distorcidas, não chegam para ser francamente contrárias - é a de soerguer teses periféricas e menor importância, tendo em vista acicatar o orgulho dos interlocutores e obrigá-los a situar-se no território da "arenização", porque este último é que aumenta os índices de share. Normalmente as duas posições supra-afloradas andam de par em par. A verdade, essa, não chega a entrar nos bastidores para a maquilhagem.
O caso do "arrastão" é paradigmático. Por um lado, temos a extensa cobertura noticiosa de que foi alvo no dia do seu "acontecimento" e nos dias subsequentes; por outro lado, assistimos à veiculação de uma tese francamente contrária à primeira e que foi ganhando forma e visibilidade com o passar do tempo e o assentar da poeira mediática primeva. A primeira tese é aquela que veio a público nas horas seguintes ao acontecimento e dizia serem estes os factos em causa: um grupo de 400-500 jovens, maioritariamente ou quase exclusivamente pretos, teria organizado um mega-assalto na praia de Carcavelos, provocando o tumulto e o pânico dos banhistas e a indignação dos portugueses confortavelmente instalados no sofá. Ora não sendo uma novidade haver assaltos em praias - ou em outro sítio qualquer - a magnitude do fenómeno, por si, consagrava-lhe espaço de antena e opinação - muito especialmente de todos aqueles que queriam aproveitar o caso para criticar (o governo, a polícia, o SEF, etc.), aparecer publicamente numa pose doutoral ou muito simplesmente aparecer por aparecer.
A segunda tese, que encontra o seu apogeu no vídeo de Diana Andriga, desdobra-se em três posições fundamentais. 1. Não houve arrastão, porque não foram mais de trinta os que roubaram ou tentaram roubar e foi apresentada uma única queixa (para quatro ou cinco detenções) 2. A notícia avançada pela maioria dos órgãos de comunicação é, afinal, de teor propagandista e popularucho, fundada em preconceitos da sociedade portuguesa e 3. A notícia ou foi encomendada pela direita e extrema-direita, ou serve-lhe que nem uma luva, porque vem a lume no mesmo dia da tradicional manifestação fascista do 10 de Junho e relança a eterna discussão sobre a segurança, tão cara aos partidos de direita.
Em que se apoiam os partidários da primeira teoria? Nas imagens repetidas à exaustão nos quatro canais telecisivos e que, ao que dizem, atravessaram fronteiras, e no testemunho - a quente - de polícias e banhistas presentes. E qual o sustento da teoria contrária? Testemunhos - a frio - de banhistas e polícias. Ora dado que não temos mais do que isso - testemunhos circunstancias - que devemos pensar? E aqui acabam os factos. A história - como ela de facto aconteceu - morre e sobrevém-lhe uma coisa inteiramente diversa dos factos que corresponde à discussão acalorada sobre etnias e violência urbana. Aquilo que, de facto, pode apaixonar o público e que, garantidamente, cativa tanto a audiência como uma perspectiva próxima das mamas da Isabel Figueira. Convocou-se, do lado da direita portuguesa, os argumentos em prol do reforço da autoridade que lhe conhecemos e, do lado da esquerda, a imagem constante do mea culpa colectivo social que redime automaticamente qualquer violência, desde que oriunda de uma minoria (étnica, social, religiosa, etc.)
A verdade essa, fica nas entrelinhas de uma reportagem que nunca foi feita (porque não foi feita uma auscultação rigorosa dos testemunhos todos? porque não havia matéria objectiva para construir uma notícia séria? porque se preferiu - como sempre - extremar artificialmente as posições em prol de interesses dúbios?). A verdade que temos - e que por ora nos terá de servir - é que tanto a esquerda como a direita aproveitaram para tirar dividendos à custa de um acontecimento que, tenha existido ou não, entreteve alguns serões na antecâmara do Verão.

3 Comments:

At 22:16, Anonymous Anónimo said...

Fachista? Captiva?

 
At 23:13, Blogger radioapilhas said...

Se puder faça uma revisão aos restantes. Estou certo de que encontrará mais perolas para a colecção. Obrigado desde já.

 
At 20:07, Anonymous Anónimo said...

Conheço este/esta "fã" de outros blogs, onde a implacável revisão ortográfica (tão exótica e rara nestas andanças como a Amália a cantar no Olympia) é elevada ao estado de arte ;)

 

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