terça-feira, agosto 02, 2005

"Every living creature dies alone"

Não são raras as vezes as quais eu discordo dos critérios de classificação atribuídos a filmes, livros, restaurantes ou detergentes. Isso é particularmente notório no que toca a "produtos culturais" que dependem, em larga escala, de critérios subjectivamente conformados e experiências de vida que podem estar em dessintonia completa com os meus. Donnie Darko - primeira versão ou Director's Cut - é uma saudável excepção.
Lembro-me de ter ouvido falar do filme num registo sci-fi. Um coelho-Maya aparece a um adolescente esquizóide anunciado o fim do mundo dentro de 24 horas. Dito isto, digamos que a minha recepção da coisa não foi propriamente a mais entusiástica. Imaginei uma versão B adulterada do "Ataque dos tomates assassinos" ou um rapaz amigo-de-alguém-na-indústria armado em Lynch. Qualquer das duas preconcepções atirava o Donnie Darko para longe das minhas prioridades cinematográficas - e de quaisquer outras, em geral.
A ideia de um coelho gigante vidente não deixava de se tornar uma ideia - como diremos - interessante, do ponto de vista narrativo. Sem saber nada de relevante acerca do argumento do filme, imaginava duas coisas em simultâneo: quem seria o doente que fantasia com coelhos anabolizados - exptuando a Moloko, claro - e como teria ele vendido "a ideia" à produtora que o acolheu? (tenho uma ideia para um filme: é sobre um puto doente, inserido numa família disfuncional - as maravilhas da linguagem pós-moderna politicamente correcta - que alucina com um coelho monstruoso que lhe diz que o mundo vai acabar. O que acha?)
Seduzido pela originalidade - exotismo? - do conceito, resolvi - com vista a sossegar as pulsões mínimas de interesse que nutria pelo filme - dar uma vista de olhos na capa e quando a vi percebi que que tinha, obrigatoriamente, de tirar a história a limpo.
Primeira surpresa. A banda sonora. O filme abre com "The Killing Moon" dos Echo & the Bunnymen (claro). Quem não viveu os eighties não sabe do que estou a falar e quem os viveu dispensa conjecturas adicionais. Não é frequente repescarem-se temas dos anos oitenta para bandas sonoras, até porque toda a gente - ou quase toda - quer esquecer-se que passou pelos oitentas. Isto inclui especialmente adolescentes, comunistas e designers de moda. Os eighties foram uma espécie de limbo depressivo para muitos dos que se lembra deles; a guerra fria terminara sem dar lugar a uma paz que se lhe equivalesse em peso existencial, a música - tirando o punk e o metal nas suas diversas metamorfoses - reflectia de forma cristalina o zeitgeist: a solidão urbana, a sida - poucos anos passados sobre o free love -, a paz doente instalada na Europa, o efeito-estufa e a descoberta de um planeta em progressica e constante decomposição ecológica e, sobretudo, a progressiva normalização das formas aceitáveis de vida - baseadas unicamente sobre o índice de produtividade individual - faziam dos anos oitenta uma espécie de ressaca existencial da euforia vivida nas duas décadas anteriores. Onde tudo era permitido, doravante tudo seria controlado.
Donnie Darko, não sendo um filme dos eighties, é escrito e realizado por alguém que, nesse período conturbado, estava a passar ele próprio por uma fase não menos problemática. Richard Kelly deslizou adolescência fora a ouvir Echo & the Bunnymen, The Cure, Joy Division, Bauhaus e restantes agrupamentos urbano-depressivos. O facto é mostrado de forma directa na escolha da banda sonora, mas as influências indirectas da geração da desesperança fazem-se sentir em - quase - todos os registos do argumento.
Lembro-me de ter lido algures - algum crítico o terá escrito - que "Donnie Darko navegava nas águas do teen movie mas com constantes mudanças de registo - de carácter surreal - que nunca o deixam fixar-se no género" e, não sendo uma citação exacta, deverá ser uma paráfrase adequada da frase original. Não deixando de dar algum crédito à afirmação, não me parece que Donnie Darko possa ser enquadrado em qualquer categoria, seja ela sci-fi - como me foi originalmente descrito -, drama, mistério ou teen movie. Donnie Darko é um filme de autor.
Richard Kelly, da geração de 70, soube captar, com inteligência e fínissimo sentido artístico, toda a trama disposicional da sua adolescência - e de toda uma geração de adolescentes - e verteu-a num filme no qual as personagens são - obrigatoriamente - adolescentes, mas de uma espécie particular (principalmente Donnie), com preocupações de ordem metafísica e com sonhos que divergem da óbvia realização monetária ou da não menos óbvia felicidade eterna.
Todo o filme concentra as suas energias na exploração da individualidade contemporânea e nas suas relações com a solidão. Enquanto que nenhum destes conceitos são novos, não é menos verdade que cada época sente-os com maior ou menor presença e atribui-lhes diferentes graus de peso existencial. A geração de 80 descobriu-se na desconfiança relativamente a tudo: utopias (nasci a tempo de assistir ao enterro do cadáver já pútrido do comunismo soviético), valores (familiares ou sociais, todos eles foram substiuídos na escala axiológica pelo valor da produtividade, ou competência, ou o que lhe queiram chamar), pessoas (a sida, por um lado, encarregou-se de minar o o tecido de relações que havia sido estruturado nas décadas anteriores; a crescente cobertura mediática de tudo quanto satisfaça uma curiosidade mórbida inexplicável encarregou-se de destruir a perfeição dos ídolos) e, não menos importante, os sonhos (estes levados para a cova pela estrura de normalização e formatação de objectivos e formas respeitáveis de vida). Donnie Darko - enquanto personagem central do filme homónimo - é isso tudo. O diálogo de abertura do filme, em que pai e filha confrontam duas perspectivas diferentes de sociedade e no qual Donnie participa na figura do "terrorista ontológico" é um exemplo perfeito para esta interpretação. Enquanto que o pai de Donnie dá voz à geração de 50, a filha, por sua vez, representa a de 70 e Donnie, obviamente, é a personificação dos 80.
A diferença de Donnie Darko para com os Joy Division - para além da diferença de forma - tem que ver com o resgatar da possibilidade do sonho, sem que se negue, para tal, a efectividade da derrocada. Se, como diz Donnie, em conversa com a sua psiquiatra, que "every living creature dies alone" - uma frase chave da contemporaneidade, o facto da sua morte poder ser revestida de um sentido - coisa absolutamente estranha aos olhos de um moderno - eleva o filme acima do mero registo factual - que já seria óptimo, se por aí tivesse ficado.
Uma obra-prima - e uma primeira obra - que merece ser vista no escuro e sem pipocas. Com boa companhia, de preferência, para que meia hora depois do filme ter terminado possamos dizer o quanto nos tocou. Eu tive isso tudo.