segunda-feira, agosto 22, 2005

Aimebáque. Foto-reportagem de Paredes de Coura.



Já não tenho idade para esta merda. Ainda me lembro, há coisa de 12 anos, de gramar 8 horas de comboio (o chamado "correio", do Algarve para Lisboa, que pára em sítios que o próprio Deus desconhece) para montar tenda no Avante e ver Vitorino ou Xutos num extâse próprio de quem ainda não viu nada. Nessa altura, em que os neurónios e as costas se prestavam a tratamentos hoje severamente condenados pela Amnistia Internacional, conseguia produzir uma desculpa convicente para três dias de purgatório. A dúzia de anos que medeia o ontem e o hoje está carregada de torcicolos, ressacas e recordações turvas (guitarras, mamas e copos de plástico eternamente semi-cheios).
Este ano, tendo angariado companhia geracional adequada, resolvi meter-me ao caminho com duas convicções que cedo se revelaram tão sólidas como manteiga em focinho de cão. A primeira a de que seria capaz de suportar, sem excessiva auto-comiseração, o desconforto de uma tenda inadvertidamente montada em cima de um curso de água lamaçenta e constantemente exposta ao sol. A segunda fezada recuperava o ideal romântico segundo o qual um gajo com a minha idade não tem nada a invejar aos moçoilos com menos 10 anos de vadiagem em cima que aferem a qualidade de um concerto pelo número de ossos fracturados no moche.
Primeira noite. A malta já não vai a correr para os festivais. A malta sai cedo de lisboa, num Nissan Micra que gasta mais combustível do que o Discovery e pára ocasionalmente e sem pressas para beber cafés, fumar cigarros e comer francesinhas (não confundir com rapariguinhas de saiote a dizer "un éclair de chocolat, s'il vous plaît"; francesinhas são coisas robustas que se acamam no estômago por um período indeterminado).
Chegados a Paredes de Coura - com a ajuda de um GPS e muitas horas depois do previsto - monta-se a tenda, verificam-se as quantidades de tábaco disponíveis e segue-se para o recinto propriamente dito. Tudo isto sem as costumeiras correrias melómanas; a paciência é uma virtude própria da idade.
Perdemos Death From Above 1979 (um banda de guitarra e baixo, algures entre o Apocalipse e um frenesim epiléptico), !!! (ainda não sei como se pronuncia isto...) e Kaiser Chiefs (mais um agrupamento da moda, com dois ou três singles audíveis de rápido consumo e esquecimento). Dizem os cronistas especializados que os !!! portaram-se maravilhosamente (à altura do nome da banda?) e que os outros dois não fizeram mais do que cumprir as obrigações contratuais. Quem lá esteve poderá confirmar o teor das críticas.
O primeiro concerto que vimos foi o dos Bravery. O moçoilo do microfone sobe ao palco, dizendo-se muito contente por estar em Paredes de Coura, a tocar para nós, e descose uma revelação: em terras lusas descobriu o Vinho do Porto e a Super Bock. Segundo o próprio, "duas coisas eminentemente perigosas..." Mau. Eu pensava que uma banda de rock que se prezasse só bebesse Super Bock para enxaguar a coca da epiglote. Fiquei de pé atrás. O concerto - morninho, morninho - fazia lembrar uns Duran Duran desembalsamados de propósito para vender uns disquitos. Alimentados de uma base electrónica irritante e persistente, os rapazes desfilaram uma pop muito ligeira com laivos de dor de corno. A certa altura, chega a segunda confissão da noite. "Esta música", diz o vocalista, "é dedicada a uma ex-namorada minha, que também é minha vizinha. Ela acabou comigo e, nos meses que se seguiram, ouvia-a foder com outros tipos através da parede..." Péssimo. Não chega ser corno, é corno manso e toca a sarampitola ao som da tipa que avia meia equipa de futebol por noite. Será escusado dizer que passei o resto da noite a vociferar-lhe impropérios durante os intervalos e com um secreto desejo de que a lonjevidade da banda fosse proporcional às ereções do vocalista...
Segundos convidados, Foo Fighters. Sempre vi a banda de Dave Grohl como um sucedâneo mais ou menos bem amanhado de Nirvana, por um lado, e do grunge em geral, por outro. Não que estivesse especialmente apaixonado pelo débito avantajado de distorção e berraria, mas profissionais são profissionais e, depois dos Bravery, até os Foo Fighters soaram bem. Puxaram pelo moche, aumentaram, decerto, o volume de vendas de cerveja e o consumo de haxixe e fizeram o que tinham a fazer. Os rapazes amantes da mutilação óssea puderam dar azo à vontade caneleira e nós - os mais velhos, mais cansados e com osteoporose alérgica - recolhemos às tendas.
Acordámos no dia seguinte numa espécie reminescência genética do inferno. A tenda, ajuizadamente instalada no mais deserto dos descampados, colhia o sol de chapa e ameaçava fundir-nos os órgãos vitais num banho-maria de sudação e enxaqueca. Resolvemos dar um passeio por terras do Minho - as vantagens de ter carro e ócio - e esquecer que estavámos num festival.
Segunda noite. Decidimos unanimemente que uma banda chamada the FutureHeads tocava cedo demais para valer a pena e apresentámo-nos a tempo de ouvir os Hot Hot Heat (vide foto infra).
Os rapazes, que nem são nem bons nem maus nem nada, mascaram-se de Beattles e debitam uma pop afiambrada que não envergonha ninguém. Contrariamente aos Bravery, não confessam cornos mal sarados e limitam-se a tocar. Não divagam, não contam historias. Não içam o Marlon Brando mas permitem flutuações ocasionais nos joelhos que, de alguma forma, impedem a instalação progressiva do tédio. São bons moços e até davam um razoável agrupamento de baile e baptizados. O vocalista, que de todo em todo devia considerar uma cirurgia estomatológica (aquele maxilar de cima não se apresenta a ninguém), tem uma voz que não chateia por aí além e mantém-se afinado a maior parte do tempo. Não sendo exactamente Hot Hot Heat, como se auto-denominam, também não os posso rotular de "cold as death". Enfim, são sete da tarde e não esperava nem melhor nem pior.


Oito horas. Devo confessar que a minha ida a Paredes de Coura era - entre outros motivos, também eles mui nobres - fruto de um namorisco que mantenho desde há algum tempo com os Arcade Fire. Tinha curiosidade em verificar in media res, a genialidade de "Funeral", álbum de estreia da banda. Primeira supresa. Os Arcade Fire são mais que as mães (descontem um ou dois roadies e somem aqueles que ainda não tinham entrado em palco para terem uma noção do número de músicos).


Confortavelmente instalado nas imediações do palco e numa lucidez de batráquio em água de ribeira, deixei-me levar. Os rapazes - uma corja estranha de geeks informáticos dificlmente indentificáveis com a sonoridade rock, quanto mais com a possibilidade de se tornarem banda de culto - têm, definitivamente, um dom. Parecem saídos de outra era, de um tempo adolescente onde pululam folhas de carvalho, bagas silvestres, primeiros amores e primeiras mortes. E a música que fazem dá corpo ao anacronismo. Aproveitando de forma exemplar as vozes de todos os elementos do grupo e os intrumentos acustícos que têm tanto ou mais peso que a parafernália electrónica que também possuem, compõem os seus temas como se de marchas se tratassem: há sempre um crescendo de intensidade em cada canção, há sempre reviravoltas tonais acentuadas pela marcação rítmica que insiste em apressar a cadência, sem pressas despropositadas ou previsíveis, com o simples intuito de nos levar até lá. E "lá" é o sítio existencial dos Arcade Fire. É o brilho das armas antes do combate, o ressoar das caixas que antecede a queda dos mais valentes, a salva de tiros com que se brindam os mortos honrados, os sinos que saúdam o regresso dos vencedores. É também e de igual forma o colo daqueles que se ama, o recanto do primeiro beijo, o crucifixo na parede em jeito de crítico, a pulsão primaria de fome, sede e felicidade. Minutos depois do início do concerto estava esquecido do lumbago. No final, compreendi porque fui a Paredes de Coura e, durante largos minutos, impedi-me voluntariamente de falar, não fossem as palavras carrascos indesejados do coração.

Depois dos Arcade Fire e da catarse, a noite estava salva. Viesse o que viesse, não haveria lugar para remorsos. E vieram os Roots, uma espécie de hip-hop transgénico alicerçado num virtuosismo instrumental a toda à prova (que baterista, que baixista (foto infra), que guitarrista, que percussionista!). Devo confessar que, nos meus saudosos tempos de adesão ao fenómeno rap e outras manifestações musicais afins, tinha uma especial predilecção pelo rap ácido dos Public Enemy. Era impossível ficar indiferente à bílis de Chuck D e Flavor Flav, que se revezavam vocalmente na tarefa inacabada de dar tareia ao branco (entenda-se "branco" como a classe média iletrada que grassa na America - e não só - e que produz agrupamentos homossexuais como os KKK e outros adoradores do malho albino). Dado que a revolução hip-hop inicial foi rapidamente absorvida e transformada num produto de consumo rápido como outro qualquer (os vídeos actuais são o epitáfio perfeito para a morte das reivindicações sociais; não há um vídeo de hip-hop que não contenha três elementos fundamentais: gajas (podres de boas), guita e carros), a minha simpatia para com os protestantes convertidos rapidamente mudou de agulha e afinou diapasão noutro sentido. Ainda assim, e porque os Arcade Fire haviam redimido retroactivamente qualquer possibilidade de desilusão profunda, aceitei os Roots, uma espécie de solstício da mercatilização da palavra e, sobretudo, apreciei a base instrumental, que oscilava entre o funk e o jazz. Felizmente, a coisa passou relativamente depressa.


Finda a gastrite vocal dos Roots, a restante programação incluía os Queens of the Stone Age e os Pixies. Se, para mim, "Queens of the Stone Age" não quer dizer mais que "!!!" - é verdade, sou um iletrado do rock pesado contemporâneo-, já os Pixies é outra conversa. Eu cresci a ouvir Pixies, Bauhaus, Joy Division, Echo & The Bunnymen, entre outros ilustres que, por uma razão qualquer, nunca pude ver em palco.
Decidido a aferir a que soavam os QOTSA, mantive-me estoicamente perto do palco, o tempo suficiente para tirar duas fotos muito tremidas (uma delas reproduzida infra) - zoom e falta de luz não ajudam, o moche dificulta ainda mais - e perceber que aquilo não era para mim. Os QOTSA são uma espécie fórmula um à americana. Passo a explicar. Os americanos, adeptos confessos dos carros de grande cilindrada com mundanças automáticas - o que reflecte imediatamente a sua pobreza sexual, pois não há nada que dê tanto pau como meter uma terceira a 140 kms/h e fazer a curva em sobre-rotação - inventaram um desporto automóvel que dá pelo nome de Nascar e que consiste em aglomerar duas dúzias de carros numa pista oval, sem curvas (a inclinação dada às mesmas transforma-as em rectas disfarçadas), na esperança geralmente cumprida que um dos carros, em infidáveis rotações sobre si próprio, acabe por esmagar uma alegre família presente na assistência, numa sã convivência com o desporto.
Os QOTSA são assim. Tal e qual. Não existem mudanças de rotação ou velocidade. Desde que arrancam e até ao final do percurso, estão em quinta. Os seus fãs - os moçoilos da borbulha e da bota de biqueira de aço - fazem mais pó e hematomas do que uma manada de bisontes furiosos. Para mim, não dá. O conceito de moche, nascido como o "Should I Stay or Should I Go" dos Clash, teve o seu apogeu nos Nirvana. Nascar e QOTSA é para malta de outra estirpe, cujo volume tomatológico é directamente proporcional ao volume cerebral (quem não tem não dói). Fui comer, atrás de uma barraquinha, protegido do som e do pó, porque a seguir vinham os Pixies.

O desejo de ver Pixies em palco é um fenómeno comparável ao desejo de ver a Bo Derek (a do Bolero, cavalgando nua em cima de um feliz equídeo). Sabe-se que é irrealizável - porque o tempo não perdoou a Bo Derek nem o cavalo - mas, ainda assim, subsiste uma vontade mórbida de ver o passado plasmar-se no presente, venha como vier. Quem é da geração de 70 sabe do que falo, os outros sentirão a mesma coisa relativamente a outras manifestações presentes daqui a dez ou quinze anos. O tempo, não sendo intrinsecamente circular, não deixa de fazer bolinhas e definir padrões.
Já havia visto Pixies há um ano atrás, no SuperBock, e pensei que seria a primeira e última vez. Ressuscitados sabe-se lá por que motivação, decidiram encetar uma série de concertos e contemplaram Portugal. Não maravilharam - talvez por que, quando se fala de Pixies, a exigência é sempre grande - mas não desiludiram. O mesmo sucedeu em Paredes de Coura. Não têm vinte anos- o Frank Black tem a volumetria de um texugo inchado e a Kim Deal aparece em palco como se houvesse deixado a limpeza da casa a meio - e o rock, como sabia o saudoso Morrison, é pixota. Ora os Pixies, não estando propriamente murchos como japoneses, já não têm testosterona que chegue para levantá-lo a 45º graus. Ainda assim, e alinhando 26 músicas em pouco mais de uma hora, deram conta do recado, sem troféus mas sem vergonha.


Terminados os concertos do segundo dia, fomos retemperar forças no colchão (salvo seja), acompanhados de uma banda sonora mais própria a ajuntamentos de trance e freakalhadas afins. Acrescente-se isso às queixas osteo-musculares de três trintões (desculpa incluir-te R., mas a verdade é que para lá caminhas a passos largos) e podem ter uma noção de como a noite foi divertida.
O terceiro e derradeiro dia começa como o segundo. 40º à sombra, 17º debaixo da água dos chuveiros públicos. os 23º graus de diferença - para quem gosta de números certos - são inultrapassáveis no que toca a arrancar do corpo sons que juramos não serem produzidos pelo próprio. Vem a tona e de forma gutural uma espécie de lamentação primitiva que terá como raiz os primeiros humanos confrontados, numa qualquer passeata, com um bicho esfomeado. É verdade que o duche é revigorante, mas não se consegue aferir a que expensas (a pixota, por exemplo, desaparece rapidamente para dentro do corpo num mutismo de avestruz, só voltando a emergir após longa acalmia climatérica).
Mais uma vez, decidimos que uma banda que tocasse às 18h00 não merecia ser seguida de perto. Chegámos ao recinto - depois de uma excelente francesinha em Ponte de Lima - às 20h00, pensado que já teriam terminado os dois primeiros concertos. Os "National", de facto, já tinham aparecido e desaparecido, mas os Killing Joke, programados para as 19h00, foram substituídos pelos Woven Hand, porque ao vocalista, aparentemente, atacou-se-lhe uma gastroenterite (teremos comido o mesmo?) e cantar com cólicas e a salivar merda pelos tornozelos não deve ser a experiência mais gratificante do mundo.
Os Woven Hand - que só acompanhei com mais atenção nas últimas 3 músicas do concerto - foram uma agradável surpresa (foto infra). São uma banda... como diremos... neo-evangélica. Cantam o Senhor e os Seus mistérios com uma ironia a roçar o insulto (o vocalista, nos intervalos das músicas, era violentamente apupado, ao que respondia com um gesto que entendo como "dar a outra face"). Tendo em conta as letras do grupo e o facto de Paredes de Coura não ser propriamente o encontro Cristão mais reputado, há que reconhecer nos Woven Hand uma certa dose tomatal. Não é qualquer um que vai a um festival de Rock cantar as dores de Cristo. Ainda por cima a música não era má. De todo. Despediu-se com um God bless you mais sarcástico que sincero e foi certamente chibatar-se no camarim.


Segunda banda: Juliette and the Licks. Toda a gente conhece a Juliette Lewis (Kalifornia, Natural Born Killers, ou os quinze segundos mais pornográficos de todo o cinema não pornográfico, no Cape Fear). Eu não conhecia a sua "faceta musical". Tendo em conta que até acho a rapariga simpática como actriz, esperava um espectáculo que, ainda que não deslumbrasse do ponto de vista musical, cumprisse, pelo menos, a sua função de entretenimento simpático. Nada disso. Juliette em palco é como Juliette em filme, mas sem história. Não contém o ímpeto representativo e o concerto é uma espécie de expressão teatral do que ela gostava de ser ou ter sido: uma estrela do Rock'n'roll, do calibre de Madonna ou outra qualquer cadela do demónio. Infelizmente para a pobre da Juliette, ela não tem amigos. Se os tivesse - e não falo dos amigos da coca - estes certamente lhe diriam, após o primeiro concerto, para ela continuar a representar - porque aí desenrasca-se razoavelmente bem - e esquecer os ímpetos de pop-star. Para dar vazão às mágoas há sempre o chuveiro ou a companhia de ocasião, que acede à tortura por amor ou desejo. O "concerto" é tão meticulosamente planeado que já sabemos, pelos panfletos do Festival, que Juliette gosta de dar com o pipi no soalho do palco - o que acaba por, invariavalmente, se cumprir -, que Juliette cabriola como se tivesse o pipi a arder - o que acontece sempre que ela não está a cantar - e que Juliette vai, numa presciência leibniziana, atirar-se para o meio do público para ser copiosamente apalpada - no pipi, entre outras zonas - por duas dezenas de tugas bêbedos. A voz essa, esbate-se na terceira "canção" - a distinção entre elas é difícil porque soam todas ao mesmo - e Juliette limita-se a berrar o resto do alinhamento como se tivesse um furúnculo no cu. Devo confessar que a carga sexual que Juliette detinha depois de a ter visto no Cabo do Medo foi substituída por um sucedâneo bem menos erótico e que vou pensar duas - três vezes? - antes de ver outro filme e que a inclua no elenco.




As minhas companheiras de route asseveram-me duas coisas: Vincent Gallo, sendo um criador de bons filmes, não podia ser pior e a Juliette, afinal, era só uma carga karmíca negativa e necessária, uma espécie de contrapeso existencial para os Arcade Fire. Como São Tomé, quis ver para crer.
Vincent Gallo entra em palco para apoteose dos fãs (para apoteose dos pitos das fãs seria mais apropriado). Com um ar hiper cool, pega na Gibson Les Paul e começa a tocar. Foi, porventura, o início da experiência de tédio mais profunda com a qual já fui brindado e desconfio que Heidegger, se tivesse assistido a este concerto, teria redigido o volume 29/30 da Gesamtausgabe (conceitos fundamentais da metafísica - mundo, finitude, solidão) com uma noção mais precisa do tédio de terceira ordem. Dizer que Gallo é minimalista é um eufemismo. Ele é fundamentalista minimal e ortodoxo convicto da Grande Ordem da Repetição. Ele é a maior seca que podia advir num festival, à meia-noite. Ele é pior que a morte rastejando de socapa. Ele redefine conceptualmente as noções de modorra, desespero e tragédia. Ele tem um Zé Pequeno mais minúsculo do que o mais imberbe dos asiáticos. Ele é tão chato, tão chato, tão chato que, se lhe desse para escrever romances, faria dos realistas de produção enciclopédica leituras sãs e desejáveis. Ele é abominavelmente aborrecido. Ele é mais rápido a desentesar qualquer criatura do que a visão de um nu frontal da minha professora da primária. Ele é leeeeennnnntooooo.
Não sendo suficiente ser mais aborrecido que um protestante ao Domingo, ele gosta de contar histórias, sobre o quanto gostou de Portugal, sobre as mamas da Teresas Vilaverde - há quinze anos atrás - sobre o facto de nunca ter comido uma portuguesa - porque será, Vicente, adormeciam a meio da conversa ou lembravas-te de as punir com uma serenata? - e sobre a namorada grávida que toca bateria, guitarra e qualquer coisa mais. Meu Deus, ele devia constar, num bom dicionário ilustrado, como representação gráfica do tédio e dos seus derivados. Vincent, um conselho amigo - já que não os tens - deixa a guitarra - ou faz só bandas sonoras - e pega na puta da câmara. Filma a Juliette e resolvem-se dois problemas. Arre, que não há pachorra!


Findo o Opus Tedium em Ré menor, já não sobrava vontade ou energia para Nick Cave. O mundo é feito dessas terríveis injustiças. Nick Cave subiu ao palco, na ressaca de Juliette e do Vincent e, apesar de ser um autêntico cão dos infernos - e confesso admirador de Cristo, o que o põe em contacto directo com os Woven Hand (talvez tenham trocado de bíblias nos bastidores) - com uma energia sobrehumana e um espectáculo impecavelmente bem esgalhado, não conseguiu rentabilizar devidamente o concerto. Não quero induzir em erro. Eu gosto de Nick Cave. Tenho-o na minha discografia e ouço-o regularmente. Era, para mim, um dos concertos mais esperados, pois nunca o tinha visto em carne e osso. Para grande infortúnio meu e muito por culpa da iliteracia musical dos organizadores do Festival, Nick Cave carregou para o palco os pecados dos seus antecessores e, mesmo esgrimindo argumentos de sobra para ser expiado perante Deus e o Seu povo, não chegou para sarar as chagas. O mal já havia sido feito. Depois do massacre operado pelas vedetas de Hollywood, eu só queria a minha tendinha, o meu saco-cama e o desconforto de uma noite sem sonhos. Só queria sair dali. O mais rápido possível.


Não sei se para o ano há mais. Nem sei quando voltarei a aventurar-me num festival de música. Com a idade começo a ficar exigente e chato. Quero uma cama sem penicilina a crescer-lhe por baixo, um chuveiro que possa partilhar com quem gosto e macacos verdes no nariz.
Ps. Este texto nocivamente extenso é dedicado a A. e R..

4 Comments:

At 09:33, Anonymous Anónimo said...

Considero uma ofensa pessoal - por razões que conheces sobejamente - que caracterizes os Foo Fighters como um "(...) sucedâneo mais ou menos bem amanhado de Nirvana, por um lado, e do grunge em geral".

 
At 21:57, Blogger UniversitYliopisto said...

eu fiquei triste com tanta blasfémia ao meu gallozinho, mas enfim... para primeira investida no teu blog, pareceu-me bem, sobretudo a atitude cínico-ressabiada.

até já!

 
At 15:05, Blogger Helder Mendes said...

Boa reportagem! É impressão minha, ou o Franck Black está mais gordo e o Nick Cave mais magro?!?!

Ah, e QOTSA são uma boa banda!!! Há fórmulas pré-fabricadas que até funcionam bem!

 
At 17:49, Blogger radioapilhas said...

O Frank Black e o Nick Cave fizeram uma espécie de transferência que deu para o torto: o primeiro queria emagrecer e o segundo engordar. É o que dá ler só os resumos...

Os QOTSA até podem ser uma boa banda, assim como o Gallo até pode ser interessante - o mesmo não pode ser dito da Juliette - mas é preciso um determinado êtat d'âme para ambos, coisa que, manifestamente, eu não tinha.

 

Enviar um comentário

<< Home