terça-feira, agosto 23, 2005

"I think you misunderstimated me" - Bush. Aplica-se de igual modo à ciência médica contemporânea.


Eu gosto particularmente desta notícia. Permite desmontar (salvo seja, quem lá estiver, quede-se assim, não há razão para alarme) dois fenómenos em simultâneo. O primeiro tem que ver com o facto de se construirem ídolos com a mesma facilidade com que se enrolam cigarros (depois de conseguir o primeiro, o resto é de enfiada). O segundo fenómeno corresponde à enorme infelicidade que a "medicina do espírito" contemporânea (psiquiatria, psicologia e outros refúgios para astrológos descrentes) mostra quando tenta prover uma explicação racional - e, sobretudo, curativa - para qualquer acontecimento cuja expressão se encontre aquém ou além do catálogo sintomatológico definido - e, mesmo dentro deste último, a arquivação não é clara e há claramente um apelo sub-reptício ao "bom senso" do terapeuta para dirimir entre uma esquizofrenia paranóica e uma manifestação condicionada de mania.
Ora o rapaz da notícia supra deu à costa - literalmente - em Inglaterra e, quando foi achado, sem quaisquer documentos indentificativos, começou a gerar uma curiosidade local perfeitamente compreensível e da ordem do "Mas quem é este marmanjão mudo?", uma curiosidade mediatíca sofregamente sobrealimentada pela estrutra epidémica da curiosidade local e uma curiosidade clinico-arqueológica movida, em última análise, por três factores: o festim do reconhecimento público (o primeiro a desvendar o rapaz-mistério tem honras de arqueólogo-mor e garantia de publicação de, pelo menos, dois volumes mini-científicos e densamente autobiográficos), a crença imbecil e parasitária de toda a ciência antropológica segundo a qual a verdadeira natureza do humano se esconde algures numa mata tropical ou num recinto de freaks e nunca no próprio que investiga (a chamada objectividade científica, que termina de imediato quando se pergunta pelo sujeito da investigação) e o abismal sentimento de inutilidade que os terapeutas do espírito sentem no confronto com os seus pacientes (pois os primeiros não são mais do que prescritores de aspirinas - a maior parte delas absolutamente ineficazes - para os segundos que, por sua vez, não querem paliativos; querem uma cura, quando estão em condições de exprimir a vontade que os move).
Este rapaz, que despertou uma onda de empatia mundial porque desenhou um piano quando foi encontrado (gostava de aferir o teor da ligação empática se o jovem houvesse desenhado um cagalhão e meia dúzia de varejeiras...), foi tomado por checo ou francês - sabe-se lá que recurso técnico usaram os rapazes de bata branca para chegar a essa conclusão (ADN, frenologia, búzios?) -, por pianista - pois quem desenha pianos decerto tb os toca (uma perspicaz aplicação da regra da causalidade, no modo da transgressão modal para mongolóides) e por figura simpática e misteriosa com potencial de mediatização suficiente para encher tablóides no Verão.
Afinal, o rapaz é alemão (e não precisaram de amostras foliculares para chegar a essa conclusão), não toca piano (diz-se que repete mecanicamente alguns arpégios - mas não é isso tocar piano?) e está acabado enquanto potencial pop-star de carácter necrológico. Diz-se igualmente que o alemão - que vinha para Inglaterra para pôr fim à vida - já tinha tido contacto com psiquiatras e, por causa disso, percebe-se a facilidade com que os ludibriou... percebe-se?
Os média querem, naturalmente, esquecer o assunto. Os médicos querem processá-lo. Eu compreendo ambos. Não é fácil desenterrar bons sauvages nos tempos que correm e menos fácil é eles serem simpáticos o suficiente para serem capa de revista. Quanto aos média estamos conversados. Os psiquiatras e restante fauna do espírito estão igualmente furiosos com o rapaz porque este, não tendo feito nada de estrondoso, conseguiu em pouco tempo desmuni-los da carapaça de seriedade que o método científico angaria sem custo e colocá-los a todos no próprio sistema de catalogação antropológica que partilham, algures entre os mentecaptos e os severamente limitados.

1 Comments:

At 17:13, Blogger Helder Mendes said...

Mais depressa se apanha um mentiroso do que um pianista.

 

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