A esquizofrenia também é filosofia!
A Associação de Professores de Filosofia e o GAVE acrescentam um novo capítulo à novela de Verão que versa sobre os exames de Filosofia previstos para o próximo ano lectivo. Há apenas uma semana, a associação em causa disponibilizou, no seu site, um parecer sobre as orientações de leccionação do programa de Filosofia, 10º/11º anos. O parecer em causa era francamente negativo relativamente às orientações propostas para o exame. Com a mesma mão, a AFP vem a público, pela voz do seu presidente, Mário Santiago de Carvalho, descartar-se do conteúdo do parecer suprareferido e, de igual forma, distanciar-se das posições particulares que os associados da AFP possam sustentar. Ora que se afastem daqueles discordam a viva voz das direcções enunciadas nas orientações, ainda posso compreender. A AFP, na figura do seu dirigente máximo, simplesmente cria uma clivagem dentro da própria associação com vista a não pisar os calos do Ministério da Educação, na figura do GAVE. Ainda que ache que a estrutura de posicionamento bicéfala que optaram por assumir seja de uma clara e escandalosa incompetência, não os posso condenar moralmente por isso. Quanto à história do parecer, essa sim assume contornos menos claros e, sobretudo, menos dignos de um ponto de vista moral.
O parecer em causa está assinado pela direcção da AFP - e, desde logo, pelo próprio Mário Santiago de Carvalho. E o parecer, como já tivemos oportunidade de referir, não é abonatório no que concerne o teor das orientações propostas para o leccionamento do próximo ano lectivo. Poder-me-ão dizer que uma coisa são as orientações que o GAVE propõe para o leccionamento e outra coisa bem diferente será o modelo de exame para o próximo ano. Neste caso a AFP estaria a analisar as duas componentes e teria chegado à conclusão que as orientações não são, de facto, viáveis, de um ponto de vista académico e pedagógico mas, não encontrando matéria para classificar negativamente a proposta de exame para o próximo ano lectivo, desmarcar-se-ia de qualquer acusação ao mesmo - inclusive aquela que diagnostica uma estreita colagem entre o exame e um manual específico (através da formatação do exame a revés do programa em vigor). Se os factos assim o fossem, sopas e descanso, não valia a pena continuar a dedilhar uma linha que fosse.
No entanto, os factos são outros, e de uma ordem inteiramente diversa àquela que a AFP quer fazer passar. A verdade é que não só a proposta de exame para 2006 escavaca por inteiro as orientações do programa em vigor como também legitima, de forma sub-reptícia, a implementação das orientações provisórias para 2006 (as tais que a AFP diz serem boas para dar aos cães e não mais que isso). Isto porque o exame proposto é, na verdade, um decalque do conteúdo da orientação prevista - e não é preciso mais do que dois dedos de testa para reconhecer isso, sem má-fé de qualquer espécie. Ora se a AFP discorda abertamente das orientações provisórias, como é que pode passar a mão pelo pêlo do exame que visa conferir-lhes legitimidade pedagógica? Afiguram-se-me duas hipóteses credíveis.
Ou a AFP, na figura do seu presidente, perdeu noção da realidade e deve ser encarada como qualquer imbecil de boa-fé e, desde logo, incapaz de servir os melhores interesses dos seus associados e, muito especialmente, daqueles que dependem, de forma directa, dos seus associados ou, por outro lado, existem sectores da AFP que pretendem branquear a forma como o processo tem vindo a decorrer - seja esta o resultado da estupidez clara ou da má-fé às claras - e o presidente ou pertence a esses sectores ou é directamente influenciável por eles.
Qualquer das duas hipóteses - que gosto de manter como tais até que surjam evidências sólidas do contrário - mostra não somente a incrível infidelidade à palavra primeira como carimba um selo branco no atestado de mediocridade intelectual e moral que se pode passar a quase qualquer instituição nacional.

10 Comments:
A verdade é que o programa em vigor é, obviamente, uma nulidade. Quando se critica as OLP não se estará fazer uma fuga para a frente, apostando tudo na manutenção do actual estado de coisas - ou seja, fazer da filosofia uma vulgar conversa de café?Só o facto de os licenciados em Filosofia serem quase todos analfabetos a matemática pode justificar tamanho horror à lógica proposicional...
De todo. Para além de achar o programa vigente tão tenebroso como aquele que me foi empurrado goela abaixo no 10º, 11º e 12º anos, acho ainda que o programa proposto peca por omissão. Proponho a seguinte estrutura, com a qual decerto se identifica:
1. Manipulação e compadrio - a pedra filosofal da transformação de esterco em dinheiro.
2. Dissimulação, fingimento e niilismo axiológico - as diferentes ferramentas de distorção óptica para da pequenez fazer parecer grandeza.
3. Superficialidade e repetição obsessiva - substituição da verdade por qualquer simulacro menor repetido à exaustão.
4. Associativismo e ódio - os meus são melhores que os outros porque são "os meus" (com filmografia de apoio de teen movies americanos)
5. Lógica formal e lógica proposicional - seis aulas de pixota em riste a tentar convencer-vos que de que esta é que é a vexata quaestio (kleenex obrigatórios a analíticos).
Diga-me qualquer coisa original e da próxima vez presto-lhe atenção. E comprometo-me a arrasar-lhe o ego em menos linhas.
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
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como você é um porco, só o posso mandar à merda. Conheço filhos da puta cuja mãe não optaria por fazer um aborto, coisa de que a sua não se pode gabar.
pensei que teríamos aqui um espaço de discussão. Pelos vstos não. Fique lá sozinho a brincar aos cronistas, então.
Aproveite, leve o caniche, feche a porta à saída e vá comentar outro comentário.
Até que enfim que há um homem português a falar de Filosofia com os tomates no sítio. Já pensava que tal conceito tinha sido nulificado.
Não te preocupes com esta gente. Já não basta para mim ver que há poucas mulheres portuguesas a dar trabalho ao neurónio (e as que há ou são lésbicas ou viciadas em Jack Daniels) como ainda por cima só vejo homens sem pingo de coragem, cópias mais que imperfeitas da corte emproada e aperucada de Luis XIV, que se passeiam pelos salões (perdão, "diários de referência") do nosso país a trocar artigos inócuos e insultuosos à inteligência. Nunca tantos escreveram tanto sobre tão pouco.
Continua, meu amigo. A filosofia só existe quando a língua é espicaçada, quando a forçamos a segregar ácido de baterias. Todos estes pacóvios transformaram a filosofia portuguesa num prado seco e moribundo onde ruminam alguns Analíticos Suburbanos que sugam subsídios à pala de relatórios semestrais que traduzidos apenas dizem "Muuu...."
Ao diabo com a lógica proposicional!! Se fosse assim tão boa, todos viveríamos no Eden. Vocês já mandam no mundo, mas o génio odeia companhia. No fim serão outros a fazer amor com a Eternidade.
Pessoalmente, a simples ideia de uma Associação de Professores de Filosofia é algo de risível (no bom sentido, claro está).
Talvez por defeito meu, nunca consigo deixar de pensar na figura do associativismo como "restrição organizada". Uma associação ´será sempre um conjunto de pessoas que acha que o cumprimento de determinado objectivo será facilitado debaixo do lema "a união faz a força". O que talvez faça sentido para determinados interesses e circumstâncias, mas na grande maioria dos casos acaba por se reduzir a - para o exterior, o lobbie; para o interior pancada, traição e tirania.
Ainda mais quando se trata de Filosofia, e de professores. A simples ideia de ser possível uma Associação já me leva a dizer que algo aqui cheira mal. Dá-me logo vontade de criar a Associação de Filófosos Não-Associados, ou a Associação de Pessoas Interessadas em Filosofia que Acham que Pessoas Interessadas em Filosofia não Devem Formar Associações.
A única forma mais ou menos racional de juntar Professores de Filosofia foi já descrita há 30 anos pelos Monty Python num famoso sketch onde creio que Sócrates marcava um golo de cabeça após passe de Arquimedes, tendo driblado o pobre Beckenbauer.
E assim veríamos no rodapé do Portugal no Coração "Grande convívio de neo-positivistas que estiveram em Viena em 64-67, na Marinha Grande. Contacto Asdrúbal"
Acho que é o próprio Arquimedes que marca, a passo de Sócrates (mas proponho um visionamento conjunto do sketch em causa, em data e hora a combinar).
PS. pena o Nietzsche ter sido expulso, sobretudo quando estava a exibir-se de forma tão categórica...
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