sexta-feira, outubro 28, 2005

Top 5 semanal - Radar 97.8 FM

A Radar, que eu me lembre, só tem dois defeitos, a saber, não passar relatos dos jogos do Benfica e passar repetidamente a publicidade dos "Móveis de Todo o Mundo" (mais uma genialidade onomástica do mundo do marketing) e do Pagapouco. Quanto ao resto, é perfeita: as rubricas são interessantes e complementam o espaço radiofónico musical propriamente dito; os locutores cumprem os seus papéis radialistas sem descurar o aspecto da intimidade, fundamental numa rádio "alternativa"; a música - o aspecto fundamental para mim - é excelente, salvo raras excepções que reforçam simplesmente a regra segundo a qual qualquer regra tem excepções.
Resolvi, deste modo, partilhar com os dois ou três leitores que por aqui vagabundeiam as suas presenças um Top 5 semanal, a começar hoje e a repetir todas as sextas-feiras, delineado com base nos singles que a Radar passa durante a semana e que são, para mim, os mais audíveis (tendo em conta a disposição, estado do tempo, extracto bancário, etc.) And the nominees are:
  1. The Cloud Room, "Hey now now", The Cloud Room
  2. Juliet, "Avalon", Random Order.
  3. Ladytron "Destroy everithing you touch", Witching Hour.
  4. Franz Ferdinand, "Do you want to", You could have it so much better with... Franz Ferdinand.
  5. The Arcade Fire, "Rebellion(Lies)", Funeral. (não é desta semana, mas alguns locutores abençoados continuam a insistir no tema.)

Letra de "Rebellion"

Sleeping is giving in,
no matter what the time is.
Sleeping is giving in,
so lift those heavy eyelids.

People say that you'll die
faster than without water.
But we know it's just a lie,
scare your son, scare your daughter.

People say that your dreams
are the only things that save ya.
Come on baby in our dreams,
we can live our misbehavior.

Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes
Every time you close your eyes
Every time you close your eyes
Every time you close your eyes

People try and hide the night
underneath the covers.
People try and hide the light
underneath the covers.

Come on hide your lovers
underneath the covers,
come on hide your lovers
underneath the covers.

Hidin' from your brothers
underneath the covers,
come on hide your lovers
underneath the covers.

People say that you'll die
faster than without water,
but we know it's just a lie,
scare your son, scare your daughter,
Scare your son, scare your daughter.
Scare your son, scare your daughter.

Now here's the sun, it's alright! (Lies, lies!)
Now here's the moon, it's alright!(Lies, lies!)
Now here's the sun, it's alright! (Lies, lies!)
Now here's the moon it's alright (Lies, lies!)
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes Lies, lies!
Every time you close your eyes


Every time you close your eyes (Lies, lies!)

quarta-feira, outubro 26, 2005

Tipos que dão luta | Vol I | Glenn Gould

(a única cadeira que Gould utilizou durante toda a sua carreira)


Glenn Gould morreu em 1982, aos 50 anos de idade. Pouco conhecido cá no burgo luso, foi um dos mais importantes pianistas do séc. XX e, de igual forma, um dos mais criativos e consistentes críticos musicais.
Não interessa dissecar em pormenor o pensamento e vida de Gould neste espaço (até porque isso seria matéria para tese de Doutoramento ou para um ensaio cuidado). Interessa sim salientar alguns aspectos da estética e da obra de Gould que podem suscitar no leitor curioso uma apetência para procurá-lo fora deste contexto.
Falar de Gould é falar de Bach. É nas Goldberg Variations que Gould se notabiliza como enorme pianista e, sobretudo, como marco incontornável do pensamento estético musical. As duas edições das Goldberg Variations distam cronologicamente 26 anos (a primeira é de 1955 e a segunda de 1981), mas o que as separa não é somente o tempo e a experiência técnica e/ou artística acumulada mas, outrossim, a engenharia de estúdio disponível em 55 e 81.
Gould nutria por Bach um interesse que ultrapassava largamente os contornos da pauta. Não se pense, porém, que era uma curiosidade mórbida ou reverencial que o movia. Pelo contrário. Gould pretendia devolver a experiência da audição de Bach na sua forma original, i.e., tendo em conta todos os elementos presentes num concerto de Bach nos séculos XVII e XVIII: a geometria sonora das salas, a inexistência de palcos, a reverberação dos materiais, etc. Esta reflexão sobre as condições de audição proporcionadas ao "espectador" - uma palavra que Gould repudiava, assim como artista - assentava numa compreensão da música e do contacto entre intérprete e público que nada tinha a ver com a contemporaneidade em que Gould estava inserido. As condições das modernas salas de concerto, ao invés de permitirem "uma feliz cópula estética" - à falta de melhor termo -, comprometiam, na opinião de Gould, a possibilidade de ouvir Bach, por um lado, e de, por outro, compreendê-lo.
A solução encontrada por Gould - onde outros não viam sequer um problema - teve tanto de arrojo como de génio. Em 1981, as condições técnicas disponíveis nos estúdios em nada se assemelhavam às de 55. Gould colocou em proveito próprio - e da sua concepção de Bach e da música em geral - todo o state of the art técnico-acustíco disponível na altura. Ao contrário dos restantes pianistas, que interpretavam e limitavam o seu trabalho à sala de gravação, Gould passou para o estúdio e sentou-se na cadeira do produtor. Aí, usando os inúmeros microfones dipsostos criteriosamente na sala de gravação, "cortou e colou" as Goldberg Variations de forma a recuperar Bach para a sala de estar do público. Nada foi deixado ao acaso. Os diversos aparelhos de captação disponíveis foram escolhidos por Gould, assim com a intensidade da reverberação e restantes efeitos em cada trecho. Gould queria colocar o ouvinte na primeira fila, no camarim, aos pés do pianista, dentro do piano, encostado à porta (uma espécie de concerto com cadeira movível, guiada pela mão do intérprete). O intento não era o de recuperar uma das muitas iterações do cádaver de Bach, por mais bela roupagem que apresentasse, mas o Bach em carne e osso, orgânico, que Gould tanto amava. O resultado é, sem sombra de dúvida, o opus magnum das gravações de Bach.
Até chegar a este ponto crucial, Gould manteve-se sempre coerente com o seu propósito, mesmo quando a sala de estúdio não lhe permitia concretizá-lo. Deixou de dar concertos aos trinta e dois anos (por acreditar que o futuro da música não passava pela sala de concerto, mas pela crescente disponibilidade da técnica em prol da música, e da primeira em prol do ouvinte). Deu inúmeras e brilhantes entrevistas - incluíndo a célebre "Glenn Gould interviews Glenn Gould about Glenn Gould", onde faz, como o nome indica, de entrevistador e de entrevistado - onde provcurava explicar as razões da sua desistência do palco onde muitos viam apenas excentricidade. Escreveu sobre música clássica, sobre os Beattles (pelos quais tinha um manifesta antipatia), sobre Barbara Streisand (que admirava tanto ou mais do que as contemporâneas cantoras liricas), sobre educação, sobre estética, sobre filosofia, sempre numa linguagem cristalina, iluminada e iluminante. Gould estava possuído pelo demónio do génio e pelo demónio da palavra simultaneamente. Para entrevistá-lo, era suficiente ligar o microfone e dizer qualquer coisa que lhe despertasse o interesse. E quase tudo lhe despertava o interesse.
Além da sua carreira musical propriamente dita, ainda fez rádio, entrevistas televisivas, apostou na bolsa (com imenso sucesso, ao que se sabe) e tinha o hábito invulgar de telefonar ao acaso às tantas da manhã, para amigos e desconhecidos, só para conversar.
Para completar o ramalhete introdutório, algumas referências a obras de e sobre Gould: "Thirty-two short movies about Glenn Gould", de François Girard, introduz em trinta e dois diaposítivos fílmicos uma visão sinóptica da vida e da obra de Gould. Sem ser completo, como nenhuma obra sobre Gould o pode ser, é fiel ao homem e génio. "Glenn Gould - The Alchemist", uma série de 4 curtas-metragens onde Gould é o protagonista principal e tenta responder às dúvidas que suscita perante a comunidade intelectual e artística, assim como perante o seu público. "The Glenn Gould Reader", a compilação dos seus escritos, por Tim Page; Gould escreve sobre quase tudo e sempre de forma clara e profundamente conhecedora do tema que abarca. E, claro, as Goldberg Variations e as mais de 110 horas de restante música interpretada por Gould.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Há gente para tudo II...

Um mail que me chegou vindo não sei de que mailing list.

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Tenho a certeza de que muitos de vocês assistiram a um programa da Oprah Winfrey Show em que o seu convidado era Tommy Hilfiger.
Tem? Porquê? Que mal fiz eu ao Senhor para ver essa merda?
No show ela (Oprah) perguntou a ele (Tommy)
Isto dá ares de telenovela
se as declarações sobre Race
Race? Outro conceito pós-moderno ininteligível de substituição socio-moral?
de que era acusado de ter proferido eram verdadeiras. Declarações como: «se eu soubesse que afro-americanos, hispánicos, judeus e asiáticos comprariam as minhas roupas não as teria produzido bem. Eu desejaria que essa gente não comprasse minhas roupas pois elas são feitas para gente branca de alta classe.»
Olha, olha, agora começo a perceber porque é que os anúncios Hilfiger mostram sempre arianos angélicos em poses de pré-trancada. (ainda não há conceito modernaço para substiuir judeu?)
A sua resposta (de Tommy) para a Oprah foi um simples SIM.
Quem diz a verdade não merece castigo...
Daí, a Oprah pediu-lhe para que abandonasse imediatamente o seu show.
A não ser que o interlocutor se sinta visado...
Minha sugestão?
Chuta. I'm ready.
Não compre a sua próxima camisa ou perfume do Tommy Hilfger.
Isso é fácil. Onde eu compro roupa, não sabem o que é isso.
Vamos dar-lhe o que pediu. Não vamos comprar as roupas dele, vamos colocá-lo numa situação financeira onde ele próprio não tenha capacidade de colocar os seus preços ridículos nas suas roupas.
Mas isto tem a ver com a economia ou com a "Race"? Espero que não ponham o coitado do homem a vender trapos na feira da ladra...
POR FAVOR MANDE ESTA MENSAGEM PARA TODOS QUE SABE QUE LUTAM CONTRA O RACISMO.>>
Ah, tem a ver com a última. Ok, mensagem divulgada.
Minha sugestão? Vegans, adolescentes de esquerda com pouco neurónio e muito tempo, justiceiros sociais e outros parias com muita lábia e pouca picha, pseudo-altruistas, freiritas de colégio e demais santinhas de pau-oco, defensores dos direitos da criança, dos animais em geral e dos golfinhos porque são giros, ide-vos foder. E apaguem o meu mail das vossas listas e a minha identidade de um dos vossos dois neurónios.

Há gente para tudo...

Estou há vinte minutos a pensar numa possibilidade textual para introduzir este tema. Desisto. Palavras para quê, quando se tem a coisa em próprio?

quinta-feira, outubro 20, 2005

Poesia em Portugal - uma miséria artesanal.

Este texto é uma espécie de adenda ao já publicado características lusas - volume III e incide muito especialmente sobre a questão da poesia em Portugal (e isto podia ser um abstract para um artigo de filosofia analítica - tão mau e curto se apresenta - não fosse a palavra poesia estar presente).
A poesia está nos genes dos portugueses. Ao contrário de muitos países civilizados, onde a poesia se manifesta como epifenómeno de uma técnica de engate ou de um desespero enraizado, os portugueses fazem poesia por dois motivos omniabrangentes: por tudo e por nada. É preciso sublinhar, para que se desfaçam juízos precipitados, que o autor destas linhas lê e aprecia poesia. Não é um detractor azedo que aproveita o que de mau se faz para encobrir o que de bom, muito esporadicamente, aparece. Pelo contrário.
Portugal, visto pela óptica da generalização ontológica rápida (ROR) aparece ao espectador menos atento como um país de poetas, românticos inverterados e fodilhões de primeira apanha. Não sabemos o equinócio das coisas. Vivemos sempre um solstício - de Inverno ou de Verão - mesmo que o nosso clima nos sugira outras disposições. Esta nossa ciclotimia etológica traduz-se me momentos de desespero patético e em crises de felicidade aparentemente nascidas do nada. Somos mais mediterrânicos do que todos os outros mediterrânicos e sofremos do síndrome do suspiro constante (SSC). E é neste contexto que nascem os nossos poetas de burgo, campeões de bairro em rima e verso e eternos candidatos a arrebatar nóbeis e derivados. Na melancolia das horas mortas - o que não deve ser confundido com a melancolia das horas tristes (estas sim podem produzir alguma coisa de jeito) - os nossos artífices em língua e manhas aproveitam-se de dois defeitos que frequentemente possuem: são normalmente criaturas com uma inabilidade social a roçar o autismo; têm uma consideração por si próprios a roçar a estupidez. Se juntarmos a este estranho quadro patológico próprio dos "poetas" portugueses a facilidade que têm em confundir plágio com influência, o prato está servido e próprio a ser consumido. E por quem? Quem encoraja e dá valor aos pingarelhos que a custo distinguem o bairro do xisto? Isto leva-nos à questão do público.
Ora não é difícil produzir, num par de horas, um pastiche de Daniel Filipe ou uma glosa de José Gomes Ferreira sem se ser imediatamente apanhado pelo rabo. Simplesmente porque os leitores ávidos do céu e da terra na forma da imagem escrita passam mais tempo ao telemóvel ou no messenger do que a ler poesia. Estes leitores são os cumplíces perfeitos do poeta marreco de língua e os correlatos indispensáveis da glória provisória. Não há palco sem público. Os muitos que por aí andam internet fora a postar as suas infantilidades diárias sabem-no bem. Jogando com a noção comummente generalizada pela qual basta ser-se português para se ser bom de caneta - e outras coisas com terminação mais macia - os nossos bloguistas de sensibilidade epidérmica fazem-se de flautistas de Hamelin - doces, melodiosos, hipnóticos e terrivelmente tristes -, mas com flauta emprestada. E os leitores "amantes da poesia" - coisa que, de facto, desconhecem de todo ou que ouviram falar no liceu - emprestam-lhes doses maciças de conforto e encómios dignos de arrebitar o ego ao mais desgraçado dos desgraçados.
Se temos tantos poetas e tão incapazes é, sem dúvida, porque temos tantos leitores que não lêem.

quarta-feira, outubro 19, 2005

Arte gráfica

Quando recebo um trabalho de photoshop tão bem executado, não hesito em divulgá-lo. Afinal, a arte é para todos.

segunda-feira, outubro 17, 2005

A PDI

Um gajo só se apercebe que vai envelhecendo quando tenta, estupida mas convictamente, fazer o que já não faz há cinco ou dez anos.
No meu caso concreto, acordo às 10h00 da manhã, como um pastel de nata, bebo um café - the breakfast of the champions - esparramo-me no sofá e folheio um diário desportivo ao acaso, à espera do almoço de Sábado. Dou graças redobradas ao Senhor por não trabalhar ao fim-de-semana e disfarço a blasfémia ocasional quando um ou outro menu - por sugestão alheia ou por inépcia própria - não satisfaz a petição gastrónomica do momento. Se conseguir evitar mover-me em demasia durante a jorna de merecido descanso, acendo uma velinha à noite dedicada a um qualquer santo pouco ocupado e durmo com um indisfarçável sorriso nos lábios. No Domingo, se tudo corre bem, a dose repete-se com o simpático acrescento de uma sestazinha a seguir ao repasto. Isto sou eu. Pequeno burguês, semi-operário e convicto desportista não-praticante. E estou certo que iguais a mim há muitos.
De vez em quando, muito de vez em quando, assalta-me um surto de mobilidade com o qual não consigo lidar apropriadamente - talvez a idade me faculte a sabedoria em falta - e desato a telefonar lista telefónica fora à procura de gente simpática para jogar à bola. Como estes achaques não despontam em sincronia, aqueles que chegam a atender o telemóvel devolvem ao meu entusiasmo alguns bocejos macilentos de compreensão e despedem-se com a certeza de que algo não está bem comigo. Tenho de recorrer, como habitual, aos mais novos, cultores inverterados da fibra muscular e habituados à peladinha semanalmente agendada. Com alguma insistência e promessas constantemente incumpridas de presenças mais regulares, aceitam-me. Calço uns ténis velhos, enfio umas calças arcaicas de um fato de treino esteticamente deslocado e lá vou eu. Gastar energias.
Chegado ao campo, imito um aquecimento ligeiro e finjo treinar uns remates ao ângulo que, invariavelmente, se perdem por rara inabilidade geométrica. A coisa do aquecimento corre tão mal que sou quase sempre preterido, na composição das equipas, a favor dos coxos, dos lesionados e dos amblíopes. Ainda assim, e porque estou cheio de ganas, aceito incorporar-me na defesa de um dos dream-teams, convicto de que o primeiro milho é para os pardais.
Após um humilhante recital de asneiras, os meus colegas resolvem colocar-me numa posição mais adiantada, com o intuito de "desgastar o adversário". Tento cumprir o papel a preceito para descobrir, sem qualquer tipo de supresa, que o único desgaste que consigo promover é ao meu corpo. Isto depois de, naturalmente, ter cuspido cerca de dois maços de tabaco e de ter suspirado por aquela garrafa de água que não trouxe por achar abichanado um tipo ir jogar à bola com meio litro de Luso na mochila.
Chegado ao fim do masoquismo e com marcas de contusões suficientes para me sentir novamente um macho pujante, despeço-me dos moçoilos enquanto arfo o cansaço e a dor de algumas mazelas aleatoriamente distribuídas. Sentido-me um perfeito imbecil por jogar tão mal à bola, resgato alguma auto-estima ao facto de estar enferrujado pela rotina laboral e penso que, da próxima vez, tudo correrá melhor.
Os dois dias seguintes são um purgatório do corpo. As mesmas pernas que normalmente respondem sem grande dificuldade a dois lances de escadas transformam-se de súbito em madeiros dolorosos e pesados, incapazes de serem erguidos do chão sem um esgar profundo do esforço titânico desenvolvido. Quanto mais fácil a tarefa a cumprir, mais rapidamente se notam os efeitos da loucura desportista episódica. Durante os longos dois dias que sucedem o jogo sinto-me rotudamente imbecil e repreendo com dureza a minha mulher por me deixar embarcar em tolices próprias de jovens. Ela, a custo, contem o riso e tenho quase a certeza que me abraça mais vezes e com mais força para que eu sinta numa precisão dolorosa a localização precisa de cada lombar e abdominal.
Enquanto me lembro da tortura retroactiva auto-infligida, não tenho pachorra sequer para ouvir falar em desporto, biorritmos, alinhamento de chakras, saúde pulmonar ou quaisquer outras enormidades que impliquem um deslocamento da minha concentração no descanso lascivo de todos os músculos excepto as pálpebras.
Nos meses que se seguem ao último contacto com uma bola cresce em mim, muito gradualmente, uma agitação silenciosa que se quer transformar em corrida, pontapé e saltos. Resisto a esse demónio como um alcóolico em regeneração resiste à bebida. Até que num Sábado qualquer dou por mim a telefonar aleatoriamente, sôfrego de bola e pancadaria, convicto que tenho idade e que tenho juízo.

quinta-feira, outubro 13, 2005

Google-me

Vide então os resultados que o Google apresenta para uma pesquisa com a palavra "Failure". Decerto ficarão surpreendidos. Ou talvez não...



Ps. Txs Polemusa por esta.

quarta-feira, outubro 12, 2005

My god's bigger than yours

De cada vez que uma catástrofe natural se abate algures sobre um país ocidental, uma larga maioria de muçulmanos, não conseguindo conter a emoção da derrocada alheia, solta gritos e pula como se as portas do inferno houvessem sido escancarados pelo sopro do próprio Alá, que varre de uma penada alguns milhares de infieis.
Mesmo as falanges mais moderadas do islamismo - e das manifestações públicas de júbilo - não evitam uma referência ocasional ao destino daqueles que não devotam a sua vida ao cumprimento do Corão e respectiva adoração da sumidade divina islâmica.
O Katrina foi - sobretudo para os primeiros - a manifestação meterológica-justiceira do divino. O bafo de Alá - e respectiva ranhoca diluviana - encheu os diques de Nova Orleães e os corações islâmicos um pouco por todo o lado.
Ao Sopro de Ála seguiu-se, com igual e desmesurada fúria, o Martelo de Deus, no Afeganistão. Rezam as mais recentes crónicas que debaixo de água e chão jazem milhares de mortos em ambos os lados. Os deuses - quer existam quer não - não sofrem da doença evolutiva do homens: continuam zangados, pouco diplomáticos e com tendências manifestamente partidárias em relação àqueles que escolhem. Os homens de hoje, esses, têm os deuses que merecem e que adoram.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Características lusas, volume III.

Não tenho dúvidas de que somos um país de poetas. Os descrentes podem simplesmente dar um giro pela blogosfera tuga ou falar com qualquer editor nacional - estes últimos recebem diariamente dezenas, quando não mais, inéditos de poemários diversos. A poesia está-nos no sangue, assim como outros corpúsculos de benefício e proveniência duvidosa.
Acredito mesmo que deveríamos ser estudados de um ponto de vista científico-sociológico - contenha-se o riso por um parágrafo, por favor. Contrataríamos alguém com uma óptica privilegiada sobre o humano e pedir-lhe-iamos, em jeito de diagnóstico e case-study, uma opinião credível sobre este fenómeno profundamente enraizado da rima e do verso branco. Portugal, a par de ser o pais mais suspirante do mundo, é o bocado de terra onde brotam mais poetas por metro quadrado. Os factores enunciados - o suspiro e a poesia - mantêm decerto uma correlação ontológica cujo alcance e efeitos são de difícil medição. A meu ver, estão ligados. Faz-se muita poesia cá no burgo porque se suspira muito. E suspira-se muito porque se pensa poeticamente.
Deveria instituir-se uma espécie de "introdução à fenomenologia do suspiro" desde a Primária. Esqueça-se o inglês e as componentes técnicas propedeúticas. Qualquer fedelho com treze anos de Playstation no bucho fala correctamente a língua de sua majestade e mede saberes técnicos com o mais dotado dos engenheiros nipónicos. O que precisamos mesmo é de saber porque suspiramos tanto e como se converte a matéria do suspiro em poesia e nos seus múltiplos derivados.
Se pensarmos que há uma forte componente de melancolia no supiro e que esta se transfere subliminarmente na feitura de muitos poemas - a chamada poesia do "coitadinho de mim" - voltámos involuntariamente à noção já exposta aqui algures do português-desolado. Aparentemente somos criaturas de futuro epidérmico. Não nos é permitido antever com natural regozijo o amanhã de nós. Pelo contrário. Tudo quanto vivemos foi muito melhor - ainda que mau - do que aquilo que se avizinha. E assim se divide quase toda a nossa poesia: a épica-saudosista, que glorifica o passado do indivíduo ou do país e, por outro lado, toda a obituario-elegíaca, com que se pretende apresentar o futuro do próprio ou da sua comunidade. Entre elas e a acompanhá-las, o suspiro.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Tudo a postos para a emigração

No Domingo decide-se o futuro a nível celular. A corja de bandidos que sorve diariamente os recursos e a paciência deste país e dos seus habitantes candidata-se, recandidata-se ou entra câmaras e juntas adentro pela porta das traseiras.
No recanto sanctificado do meu lar assistirei sem grande entusiasmo ou preocupação à marcha dos vampiros. Algumas caras conhecidas terão de abdicar do regime de abundância vivido até agora, outras inciar-se-ão no lauto repasto do pilim alheio. Eu quedo-me no sossego da indiferença. A saúde em primeiro lugar.

quinta-feira, outubro 06, 2005

A verdadeira dimensão política destas eleições...


Carregai então no pequeno "play" no canto inferior esquerdo do vídeo.
No further comments needed...

terça-feira, outubro 04, 2005

O humanismo é o capote do despotismo.

Há títulos que nos saem assim. Este não é muito feliz, confesso. Mas traduz ipsis uerbis uma certa mentalidade muito em voga desde o aparecimento das sufragistas e da esquerda moderna em geral: a de que se pode moldar a realidade social usando recursos linguísiticos.
Obviamente, isto não tem nada de novo. O logos sempre se configurou, com maior ou menor intenção, como uma ferramente de manipulação do real. A bruxaria mais não é do que o conhecimento da linguagem arcana do Criador, conhecimento esse que permite chamar as coisas pelos seus nomes originais e domesticá-las como cães de circo (e a inveja que recaía sobre esse saber é que deu origem à famosa Entremeada à Inquisição; basta lembrar que o Demo é condenado por querer saber tanto como Deus). Os próprios filósofos - muito mais estúpidos do que as bruxas, pois escolhem o caminho inverso e mais difícil - têm como objectivo cunhar o mais fielmente possível os conceitos que traduzem/implicam directamente a realidade, numa tentativa sempre gorada de a segurar pelas rédeas do abstracto. Os poetas são provavelmente os melhores transcritores do concreto. Mas sobre ele têm pouca ou nenhuma influência.
Os modernos humanistas, nas suas diversas gradações de vermelho, conseguem reunir, num só bolo confuso de doutrina, todas as lacunas que se prefiguravam nos filosófos, nas bruxas e nos poetas. Querem, como na feitiçaria, alterar a ordem das coisas, mas não lhe sabem as alcunhas, quanto mais os nomes. Desejam, como os filósofos, que as suas produções intelectuais sejam o espelho abstracto da realidade, mas desprezam o seu estudo. Intentam, como os poetas, afunilar o composto da vida num verso simples ou numa palavra singela, mas estão absolutamente desviados da iluminação artística. Sobra-lhes em intenção o que lhes falta em sabedoria, engenho e arte.
De acordo com estes modernos equídeos, a igualdade social - conceito ardentemente discutido em luxuosos gabinetes em Bruxelas ou em simpáticas tertúlias com gente da mesma estirpe - resultaria de uma colossal amnésia colectiva operada pela introdução de um eufemismo relativamente a qualquer termo que lhes pareça, à primeira vista, repugnante, do ponto de vista social. Assim, e seguindo a pista desta ontologia redentora, um cego, desde que passa a ser chamado invisual, começa a ser respeitado enquanto homem. Uma contínua, promovida linguisticamente a assistente de acção educativa, ganha um estatuto que não lhe era acessível no uso do termo primevo. Um fiscal de linha - anteriormente apelidado de bandeirinha -, agora chamado árbitro assistente, deixa de ser insultado pelos jogadores e público, porque a sua categoria sofreu uma drástica modificação. Quando as palavras forem insuficientes para remediar uma situação concreta, baralham-se os termos, legisla-se uma nova convenção onomástica e decreta-se um "portem-se bem" generalizado e de acordo com a moda corrente. O passado, esse, é para historiadores e legistas curiosos. A mudança pelas acções requer demasiado esforço. Parole é a panaceia para todos os males.

segunda-feira, outubro 03, 2005

A minha musa dá-me tusa.

Numa altura francamente negativa para a imagem do homem português, diariamente escavacado na sua fama duratemente contruída por séculos de horizontais elegias, resta-me confessar um segredo antipático - pelo menos nos dias que correm: sou heterossexual. Os dois leitores - ou o esquizofrénico indeciso - que frequentavam este blog ficam a sabê-lo já aqui, antes que a notícia chegue por boca alheia. No paroxismo desta doença com ares de incurabilidade, outro anúncio extremo: gosto particularmente de mamas - de vê-las, de tocá-las, de classificá-las conquanto ao formato, resistência, volumetria, textura. Gosto tanto de mamas que afixo, infra, as mamas mais entusiasmantes que tive oportunidade de ver nos últimos tempos. A moçoila que administra os bens em questão chama-se Hannah e é uma ex-promissora amateur porn starlet cujos vídeos e fotos circularam um pouco por aí.





As preciosidades supra-referidas, ainda espartilhadas na miopia do algodão.

E porque não há mamas sem caras...




E as divindades em próprio (perdoe-se a qualidade, mas é um vidcap...)



Um post para meditar. Um post para ajudar os indecisos nas autárquicas. Um post para recuperar o verão que se finda num estertor de fumo e fogo. Um post para tirar os agarrados do vício. Um post para esquecer a bola, a quadratura do círculo e todas as trapalhices geométricas deste país. Um post perfeito.


Ps. Para uma bibliografia da mama e derivados, ver Ramón Gómez de la Serna, Seios.