A PDI
Um gajo só se apercebe que vai envelhecendo quando tenta, estupida mas convictamente, fazer o que já não faz há cinco ou dez anos.
No meu caso concreto, acordo às 10h00 da manhã, como um pastel de nata, bebo um café - the breakfast of the champions - esparramo-me no sofá e folheio um diário desportivo ao acaso, à espera do almoço de Sábado. Dou graças redobradas ao Senhor por não trabalhar ao fim-de-semana e disfarço a blasfémia ocasional quando um ou outro menu - por sugestão alheia ou por inépcia própria - não satisfaz a petição gastrónomica do momento. Se conseguir evitar mover-me em demasia durante a jorna de merecido descanso, acendo uma velinha à noite dedicada a um qualquer santo pouco ocupado e durmo com um indisfarçável sorriso nos lábios. No Domingo, se tudo corre bem, a dose repete-se com o simpático acrescento de uma sestazinha a seguir ao repasto. Isto sou eu. Pequeno burguês, semi-operário e convicto desportista não-praticante. E estou certo que iguais a mim há muitos.
De vez em quando, muito de vez em quando, assalta-me um surto de mobilidade com o qual não consigo lidar apropriadamente - talvez a idade me faculte a sabedoria em falta - e desato a telefonar lista telefónica fora à procura de gente simpática para jogar à bola. Como estes achaques não despontam em sincronia, aqueles que chegam a atender o telemóvel devolvem ao meu entusiasmo alguns bocejos macilentos de compreensão e despedem-se com a certeza de que algo não está bem comigo. Tenho de recorrer, como habitual, aos mais novos, cultores inverterados da fibra muscular e habituados à peladinha semanalmente agendada. Com alguma insistência e promessas constantemente incumpridas de presenças mais regulares, aceitam-me. Calço uns ténis velhos, enfio umas calças arcaicas de um fato de treino esteticamente deslocado e lá vou eu. Gastar energias.
Chegado ao campo, imito um aquecimento ligeiro e finjo treinar uns remates ao ângulo que, invariavelmente, se perdem por rara inabilidade geométrica. A coisa do aquecimento corre tão mal que sou quase sempre preterido, na composição das equipas, a favor dos coxos, dos lesionados e dos amblíopes. Ainda assim, e porque estou cheio de ganas, aceito incorporar-me na defesa de um dos dream-teams, convicto de que o primeiro milho é para os pardais.
Após um humilhante recital de asneiras, os meus colegas resolvem colocar-me numa posição mais adiantada, com o intuito de "desgastar o adversário". Tento cumprir o papel a preceito para descobrir, sem qualquer tipo de supresa, que o único desgaste que consigo promover é ao meu corpo. Isto depois de, naturalmente, ter cuspido cerca de dois maços de tabaco e de ter suspirado por aquela garrafa de água que não trouxe por achar abichanado um tipo ir jogar à bola com meio litro de Luso na mochila.
Chegado ao fim do masoquismo e com marcas de contusões suficientes para me sentir novamente um macho pujante, despeço-me dos moçoilos enquanto arfo o cansaço e a dor de algumas mazelas aleatoriamente distribuídas. Sentido-me um perfeito imbecil por jogar tão mal à bola, resgato alguma auto-estima ao facto de estar enferrujado pela rotina laboral e penso que, da próxima vez, tudo correrá melhor.
Os dois dias seguintes são um purgatório do corpo. As mesmas pernas que normalmente respondem sem grande dificuldade a dois lances de escadas transformam-se de súbito em madeiros dolorosos e pesados, incapazes de serem erguidos do chão sem um esgar profundo do esforço titânico desenvolvido. Quanto mais fácil a tarefa a cumprir, mais rapidamente se notam os efeitos da loucura desportista episódica. Durante os longos dois dias que sucedem o jogo sinto-me rotudamente imbecil e repreendo com dureza a minha mulher por me deixar embarcar em tolices próprias de jovens. Ela, a custo, contem o riso e tenho quase a certeza que me abraça mais vezes e com mais força para que eu sinta numa precisão dolorosa a localização precisa de cada lombar e abdominal.
Enquanto me lembro da tortura retroactiva auto-infligida, não tenho pachorra sequer para ouvir falar em desporto, biorritmos, alinhamento de chakras, saúde pulmonar ou quaisquer outras enormidades que impliquem um deslocamento da minha concentração no descanso lascivo de todos os músculos excepto as pálpebras.
Nos meses que se seguem ao último contacto com uma bola cresce em mim, muito gradualmente, uma agitação silenciosa que se quer transformar em corrida, pontapé e saltos. Resisto a esse demónio como um alcóolico em regeneração resiste à bebida. Até que num Sábado qualquer dou por mim a telefonar aleatoriamente, sôfrego de bola e pancadaria, convicto que tenho idade e que tenho juízo.

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