quinta-feira, outubro 20, 2005

Poesia em Portugal - uma miséria artesanal.

Este texto é uma espécie de adenda ao já publicado características lusas - volume III e incide muito especialmente sobre a questão da poesia em Portugal (e isto podia ser um abstract para um artigo de filosofia analítica - tão mau e curto se apresenta - não fosse a palavra poesia estar presente).
A poesia está nos genes dos portugueses. Ao contrário de muitos países civilizados, onde a poesia se manifesta como epifenómeno de uma técnica de engate ou de um desespero enraizado, os portugueses fazem poesia por dois motivos omniabrangentes: por tudo e por nada. É preciso sublinhar, para que se desfaçam juízos precipitados, que o autor destas linhas lê e aprecia poesia. Não é um detractor azedo que aproveita o que de mau se faz para encobrir o que de bom, muito esporadicamente, aparece. Pelo contrário.
Portugal, visto pela óptica da generalização ontológica rápida (ROR) aparece ao espectador menos atento como um país de poetas, românticos inverterados e fodilhões de primeira apanha. Não sabemos o equinócio das coisas. Vivemos sempre um solstício - de Inverno ou de Verão - mesmo que o nosso clima nos sugira outras disposições. Esta nossa ciclotimia etológica traduz-se me momentos de desespero patético e em crises de felicidade aparentemente nascidas do nada. Somos mais mediterrânicos do que todos os outros mediterrânicos e sofremos do síndrome do suspiro constante (SSC). E é neste contexto que nascem os nossos poetas de burgo, campeões de bairro em rima e verso e eternos candidatos a arrebatar nóbeis e derivados. Na melancolia das horas mortas - o que não deve ser confundido com a melancolia das horas tristes (estas sim podem produzir alguma coisa de jeito) - os nossos artífices em língua e manhas aproveitam-se de dois defeitos que frequentemente possuem: são normalmente criaturas com uma inabilidade social a roçar o autismo; têm uma consideração por si próprios a roçar a estupidez. Se juntarmos a este estranho quadro patológico próprio dos "poetas" portugueses a facilidade que têm em confundir plágio com influência, o prato está servido e próprio a ser consumido. E por quem? Quem encoraja e dá valor aos pingarelhos que a custo distinguem o bairro do xisto? Isto leva-nos à questão do público.
Ora não é difícil produzir, num par de horas, um pastiche de Daniel Filipe ou uma glosa de José Gomes Ferreira sem se ser imediatamente apanhado pelo rabo. Simplesmente porque os leitores ávidos do céu e da terra na forma da imagem escrita passam mais tempo ao telemóvel ou no messenger do que a ler poesia. Estes leitores são os cumplíces perfeitos do poeta marreco de língua e os correlatos indispensáveis da glória provisória. Não há palco sem público. Os muitos que por aí andam internet fora a postar as suas infantilidades diárias sabem-no bem. Jogando com a noção comummente generalizada pela qual basta ser-se português para se ser bom de caneta - e outras coisas com terminação mais macia - os nossos bloguistas de sensibilidade epidérmica fazem-se de flautistas de Hamelin - doces, melodiosos, hipnóticos e terrivelmente tristes -, mas com flauta emprestada. E os leitores "amantes da poesia" - coisa que, de facto, desconhecem de todo ou que ouviram falar no liceu - emprestam-lhes doses maciças de conforto e encómios dignos de arrebitar o ego ao mais desgraçado dos desgraçados.
Se temos tantos poetas e tão incapazes é, sem dúvida, porque temos tantos leitores que não lêem.

2 Comments:

At 18:08, Blogger Helder Mendes said...

Bravo! Quem fala assim não é gago!!! Nem, tão-pouco, poeta!!!!

 
At 01:16, Anonymous Anónimo said...

Belíssima auto-crítica.

 

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