Tipos que dão luta | Vol I | Glenn Gould
Glenn Gould morreu em 1982, aos 50 anos de idade. Pouco conhecido cá no burgo luso, foi um dos mais importantes pianistas do séc. XX e, de igual forma, um dos mais criativos e consistentes críticos musicais.
Não interessa dissecar em pormenor o pensamento e vida de Gould neste espaço (até porque isso seria matéria para tese de Doutoramento ou para um ensaio cuidado). Interessa sim salientar alguns aspectos da estética e da obra de Gould que podem suscitar no leitor curioso uma apetência para procurá-lo fora deste contexto.
Falar de Gould é falar de Bach. É nas Goldberg Variations que Gould se notabiliza como enorme pianista e, sobretudo, como marco incontornável do pensamento estético musical. As duas edições das Goldberg Variations distam cronologicamente 26 anos (a primeira é de 1955 e a segunda de 1981), mas o que as separa não é somente o tempo e a experiência técnica e/ou artística acumulada mas, outrossim, a engenharia de estúdio disponível em 55 e 81.
Gould nutria por Bach um interesse que ultrapassava largamente os contornos da pauta. Não se pense, porém, que era uma curiosidade mórbida ou reverencial que o movia. Pelo contrário. Gould pretendia devolver a experiência da audição de Bach na sua forma original, i.e., tendo em conta todos os elementos presentes num concerto de Bach nos séculos XVII e XVIII: a geometria sonora das salas, a inexistência de palcos, a reverberação dos materiais, etc. Esta reflexão sobre as condições de audição proporcionadas ao "espectador" - uma palavra que Gould repudiava, assim como artista - assentava numa compreensão da música e do contacto entre intérprete e público que nada tinha a ver com a contemporaneidade em que Gould estava inserido. As condições das modernas salas de concerto, ao invés de permitirem "uma feliz cópula estética" - à falta de melhor termo -, comprometiam, na opinião de Gould, a possibilidade de ouvir Bach, por um lado, e de, por outro, compreendê-lo.
A solução encontrada por Gould - onde outros não viam sequer um problema - teve tanto de arrojo como de génio. Em 1981, as condições técnicas disponíveis nos estúdios em nada se assemelhavam às de 55. Gould colocou em proveito próprio - e da sua concepção de Bach e da música em geral - todo o state of the art técnico-acustíco disponível na altura. Ao contrário dos restantes pianistas, que interpretavam e limitavam o seu trabalho à sala de gravação, Gould passou para o estúdio e sentou-se na cadeira do produtor. Aí, usando os inúmeros microfones dipsostos criteriosamente na sala de gravação, "cortou e colou" as Goldberg Variations de forma a recuperar Bach para a sala de estar do público. Nada foi deixado ao acaso. Os diversos aparelhos de captação disponíveis foram escolhidos por Gould, assim com a intensidade da reverberação e restantes efeitos em cada trecho. Gould queria colocar o ouvinte na primeira fila, no camarim, aos pés do pianista, dentro do piano, encostado à porta (uma espécie de concerto com cadeira movível, guiada pela mão do intérprete). O intento não era o de recuperar uma das muitas iterações do cádaver de Bach, por mais bela roupagem que apresentasse, mas o Bach em carne e osso, orgânico, que Gould tanto amava. O resultado é, sem sombra de dúvida, o opus magnum das gravações de Bach.
Até chegar a este ponto crucial, Gould manteve-se sempre coerente com o seu propósito, mesmo quando a sala de estúdio não lhe permitia concretizá-lo. Deixou de dar concertos aos trinta e dois anos (por acreditar que o futuro da música não passava pela sala de concerto, mas pela crescente disponibilidade da técnica em prol da música, e da primeira em prol do ouvinte). Deu inúmeras e brilhantes entrevistas - incluíndo a célebre "Glenn Gould interviews Glenn Gould about Glenn Gould", onde faz, como o nome indica, de entrevistador e de entrevistado - onde provcurava explicar as razões da sua desistência do palco onde muitos viam apenas excentricidade. Escreveu sobre música clássica, sobre os Beattles (pelos quais tinha um manifesta antipatia), sobre Barbara Streisand (que admirava tanto ou mais do que as contemporâneas cantoras liricas), sobre educação, sobre estética, sobre filosofia, sempre numa linguagem cristalina, iluminada e iluminante. Gould estava possuído pelo demónio do génio e pelo demónio da palavra simultaneamente. Para entrevistá-lo, era suficiente ligar o microfone e dizer qualquer coisa que lhe despertasse o interesse. E quase tudo lhe despertava o interesse.
Além da sua carreira musical propriamente dita, ainda fez rádio, entrevistas televisivas, apostou na bolsa (com imenso sucesso, ao que se sabe) e tinha o hábito invulgar de telefonar ao acaso às tantas da manhã, para amigos e desconhecidos, só para conversar.
Para completar o ramalhete introdutório, algumas referências a obras de e sobre Gould: "Thirty-two short movies about Glenn Gould", de François Girard, introduz em trinta e dois diaposítivos fílmicos uma visão sinóptica da vida e da obra de Gould. Sem ser completo, como nenhuma obra sobre Gould o pode ser, é fiel ao homem e génio. "Glenn Gould - The Alchemist", uma série de 4 curtas-metragens onde Gould é o protagonista principal e tenta responder às dúvidas que suscita perante a comunidade intelectual e artística, assim como perante o seu público. "The Glenn Gould Reader", a compilação dos seus escritos, por Tim Page; Gould escreve sobre quase tudo e sempre de forma clara e profundamente conhecedora do tema que abarca. E, claro, as Goldberg Variations e as mais de 110 horas de restante música interpretada por Gould.


6 Comments:
Agradeço com sinceridade. Há demasiada gente demasiado importante que me é demasiado desconhecida. Referências e dicas são sempre bem vindas, sobre qualquer campo.
O problema do Gould era apenas um: falta de sexo...
Ainda por cima, colocas posts roubados de outros blogs: http://afixe.weblog.com.pt/arquivo/2005/10/incontroversias
Para quem tinha dúvidas, cá fica a prova: se não és da Maçonaria ou dos movimentos integristas, pelo menos és fascista.
Passem bem, que este blog deixou de interessar.
Já vou...
... e já volto, quanto mais não seja para ver o que é que o fascista/integralista lusitano/ franco-maçon disfarçado de radioapilas tem para dizer ao mundo. Faz-me bem à tripa: leio-o e os meus intestinos ressentem-se. Acabo a cagar e a pensar nele, o que não deixa de ter um certo romantismo.
Voltei!!! Oh radio desculpa lá estes comentários todos mas... desde que a CML me tirou do turno da noite (recolha do lixo no Bairro Alto), que ando um bocado á deriva e sem saber muito bem o que fazer. Tenho de me entreter com qualquer coisa não achas? A SIC comédia a estas horas não passa nada de jeito... o "American Chopper" é só ás quartas...
A ver se me telefonam do Burger King do Colombo, já fiz a inscrição em Junho e até agora nada...
Bom... eu já volto!
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