segunda-feira, outubro 10, 2005

Características lusas, volume III.

Não tenho dúvidas de que somos um país de poetas. Os descrentes podem simplesmente dar um giro pela blogosfera tuga ou falar com qualquer editor nacional - estes últimos recebem diariamente dezenas, quando não mais, inéditos de poemários diversos. A poesia está-nos no sangue, assim como outros corpúsculos de benefício e proveniência duvidosa.
Acredito mesmo que deveríamos ser estudados de um ponto de vista científico-sociológico - contenha-se o riso por um parágrafo, por favor. Contrataríamos alguém com uma óptica privilegiada sobre o humano e pedir-lhe-iamos, em jeito de diagnóstico e case-study, uma opinião credível sobre este fenómeno profundamente enraizado da rima e do verso branco. Portugal, a par de ser o pais mais suspirante do mundo, é o bocado de terra onde brotam mais poetas por metro quadrado. Os factores enunciados - o suspiro e a poesia - mantêm decerto uma correlação ontológica cujo alcance e efeitos são de difícil medição. A meu ver, estão ligados. Faz-se muita poesia cá no burgo porque se suspira muito. E suspira-se muito porque se pensa poeticamente.
Deveria instituir-se uma espécie de "introdução à fenomenologia do suspiro" desde a Primária. Esqueça-se o inglês e as componentes técnicas propedeúticas. Qualquer fedelho com treze anos de Playstation no bucho fala correctamente a língua de sua majestade e mede saberes técnicos com o mais dotado dos engenheiros nipónicos. O que precisamos mesmo é de saber porque suspiramos tanto e como se converte a matéria do suspiro em poesia e nos seus múltiplos derivados.
Se pensarmos que há uma forte componente de melancolia no supiro e que esta se transfere subliminarmente na feitura de muitos poemas - a chamada poesia do "coitadinho de mim" - voltámos involuntariamente à noção já exposta aqui algures do português-desolado. Aparentemente somos criaturas de futuro epidérmico. Não nos é permitido antever com natural regozijo o amanhã de nós. Pelo contrário. Tudo quanto vivemos foi muito melhor - ainda que mau - do que aquilo que se avizinha. E assim se divide quase toda a nossa poesia: a épica-saudosista, que glorifica o passado do indivíduo ou do país e, por outro lado, toda a obituario-elegíaca, com que se pretende apresentar o futuro do próprio ou da sua comunidade. Entre elas e a acompanhá-las, o suspiro.