Características lusas, volume III.
Não tenho dúvidas de que somos um país de poetas. Os descrentes podem simplesmente dar um giro pela blogosfera tuga ou falar com qualquer editor nacional - estes últimos recebem diariamente dezenas, quando não mais, inéditos de poemários diversos. A poesia está-nos no sangue, assim como outros corpúsculos de benefício e proveniência duvidosa.
Acredito mesmo que deveríamos ser estudados de um ponto de vista científico-sociológico - contenha-se o riso por um parágrafo, por favor. Contrataríamos alguém com uma óptica privilegiada sobre o humano e pedir-lhe-iamos, em jeito de diagnóstico e case-study, uma opinião credível sobre este fenómeno profundamente enraizado da rima e do verso branco. Portugal, a par de ser o pais mais suspirante do mundo, é o bocado de terra onde brotam mais poetas por metro quadrado. Os factores enunciados - o suspiro e a poesia - mantêm decerto uma correlação ontológica cujo alcance e efeitos são de difícil medição. A meu ver, estão ligados. Faz-se muita poesia cá no burgo porque se suspira muito. E suspira-se muito porque se pensa poeticamente.
Deveria instituir-se uma espécie de "introdução à fenomenologia do suspiro" desde a Primária. Esqueça-se o inglês e as componentes técnicas propedeúticas. Qualquer fedelho com treze anos de Playstation no bucho fala correctamente a língua de sua majestade e mede saberes técnicos com o mais dotado dos engenheiros nipónicos. O que precisamos mesmo é de saber porque suspiramos tanto e como se converte a matéria do suspiro em poesia e nos seus múltiplos derivados.
Se pensarmos que há uma forte componente de melancolia no supiro e que esta se transfere subliminarmente na feitura de muitos poemas - a chamada poesia do "coitadinho de mim" - voltámos involuntariamente à noção já exposta aqui algures do português-desolado. Aparentemente somos criaturas de futuro epidérmico. Não nos é permitido antever com natural regozijo o amanhã de nós. Pelo contrário. Tudo quanto vivemos foi muito melhor - ainda que mau - do que aquilo que se avizinha. E assim se divide quase toda a nossa poesia: a épica-saudosista, que glorifica o passado do indivíduo ou do país e, por outro lado, toda a obituario-elegíaca, com que se pretende apresentar o futuro do próprio ou da sua comunidade. Entre elas e a acompanhá-las, o suspiro.

0 Comments:
Enviar um comentário
<< Home