O humanismo é o capote do despotismo.
Há títulos que nos saem assim. Este não é muito feliz, confesso. Mas traduz ipsis uerbis uma certa mentalidade muito em voga desde o aparecimento das sufragistas e da esquerda moderna em geral: a de que se pode moldar a realidade social usando recursos linguísiticos.
Obviamente, isto não tem nada de novo. O logos sempre se configurou, com maior ou menor intenção, como uma ferramente de manipulação do real. A bruxaria mais não é do que o conhecimento da linguagem arcana do Criador, conhecimento esse que permite chamar as coisas pelos seus nomes originais e domesticá-las como cães de circo (e a inveja que recaía sobre esse saber é que deu origem à famosa Entremeada à Inquisição; basta lembrar que o Demo é condenado por querer saber tanto como Deus). Os próprios filósofos - muito mais estúpidos do que as bruxas, pois escolhem o caminho inverso e mais difícil - têm como objectivo cunhar o mais fielmente possível os conceitos que traduzem/implicam directamente a realidade, numa tentativa sempre gorada de a segurar pelas rédeas do abstracto. Os poetas são provavelmente os melhores transcritores do concreto. Mas sobre ele têm pouca ou nenhuma influência.
Os modernos humanistas, nas suas diversas gradações de vermelho, conseguem reunir, num só bolo confuso de doutrina, todas as lacunas que se prefiguravam nos filosófos, nas bruxas e nos poetas. Querem, como na feitiçaria, alterar a ordem das coisas, mas não lhe sabem as alcunhas, quanto mais os nomes. Desejam, como os filósofos, que as suas produções intelectuais sejam o espelho abstracto da realidade, mas desprezam o seu estudo. Intentam, como os poetas, afunilar o composto da vida num verso simples ou numa palavra singela, mas estão absolutamente desviados da iluminação artística. Sobra-lhes em intenção o que lhes falta em sabedoria, engenho e arte.
De acordo com estes modernos equídeos, a igualdade social - conceito ardentemente discutido em luxuosos gabinetes em Bruxelas ou em simpáticas tertúlias com gente da mesma estirpe - resultaria de uma colossal amnésia colectiva operada pela introdução de um eufemismo relativamente a qualquer termo que lhes pareça, à primeira vista, repugnante, do ponto de vista social. Assim, e seguindo a pista desta ontologia redentora, um cego, desde que passa a ser chamado invisual, começa a ser respeitado enquanto homem. Uma contínua, promovida linguisticamente a assistente de acção educativa, ganha um estatuto que não lhe era acessível no uso do termo primevo. Um fiscal de linha - anteriormente apelidado de bandeirinha -, agora chamado árbitro assistente, deixa de ser insultado pelos jogadores e público, porque a sua categoria sofreu uma drástica modificação. Quando as palavras forem insuficientes para remediar uma situação concreta, baralham-se os termos, legisla-se uma nova convenção onomástica e decreta-se um "portem-se bem" generalizado e de acordo com a moda corrente. O passado, esse, é para historiadores e legistas curiosos. A mudança pelas acções requer demasiado esforço. Parole é a panaceia para todos os males.

6 Comments:
Something fishy.
O meu antigo barbeiro, perto do local onde debitas a tua poesia laboral pós-realista, tinha uma placa que dizia "técnico cirurgião capilar".
Nomes são importantes nesta sociedade. Ninguém gosta de ir à televisão a um concurso para dizer que é "Caixa", mas sim "operadora comercial". Mas não é de agora, ou não fosse o "Soutor" garantia de estatuto.
Pra mim o problema está no que está por trás das designações em particular, e no que isso diz sobre a tecnicalização - se assim se pode dizer - da sociedade. Numa sociedade mais mística ou Europeia Central da Idade Média, o barbeiro poderia ser o "mestre das artes do cabelo" e o cego talvez um "iluminado de Deus".
- Oh porra, o iluminado de Deus pisou outra vez bosta de vaca! às vezes pergunto-me...
Só não percebi a "poesia laboral pós-realista". Do u care to explain?
Poesia pois simultaneamente lembra a divina poiesis e por vezes a poia também tão necessária;
"Laboral" porque é esse o teu trabalho de parto enquanto finges ser o Grande Orientador dessa fantasia fascio-voyeurista aí na caverna;
"pós-realista" porque qualquer blog está por definição a seguir à realidade, um pouco mais á direita.
Obrigado, senhor Raposo, pela análise minuciosa dos termos em equação. É um prazer tê-lo de volta neste recanto. Afinal, o melhor dos Blogues é sempre as pessoas.
Eu mandava-o em linha recta para o caralho.
Eu também, é uma boa ideia. Sobretudo porque parece que o teu cão de guarda sem açaime não tem os ditos para o fazer ele mesmo.
Enfim, cada guru tem os fanáticos que merece... Eu sei disso porque também estou farto dos meus, e assim que finalizar a tomada de posse, vou efectuar algumas pequenas correcções ao assunto.
Um abraço e bom trabalho
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