sábado, julho 23, 2005

O filósofo-propagandista



Vimos por este meio repudiar veementemente as acusações de que são alvo, no texto supracitado, os autores do manual escolar “A arte de pensar” (Aires Almeida, António Paulo Costa, Célia Teixeira, Desidério Murcho e Paula Mateus – Didáctica Editora) assim como a Ministra da Educação, Maria de Lourdes Rodrigues, a directora do GAVE (Gabinete de Avaliação Educacional), Glória Ramalho, e os desconhecidos – e igualmente inocentes, decerto – autores do texto “Orientações para a leccionação do programa de Filosofia – 10.º e 11.º ano”, em fase de recolha de pareceres.
Querem fazer crer ao leitor, um jornalista macio e algumas criaturas desonestas que o aliciariam com a cenoura da novidade, que os redactores do manual em causa, ponto 1. têm uma relação de tal forma privilegiada com o GAVE e com o Ministério da Educação que influenciaram a redacção ou redigiram um modelo indicativo de exame de filosofia para 2005/06 que 1.a. está de tal forma afastado da realidade do programa lectivo em vigor que só por mero acaso ou manifesta má-fé se poderia constituir uma relação estrutural entre ambos e que 1.b. graças a essa disparidade programática, apenas um manual escolar – também ele arreigado do programa vigente – mantém uma efectiva ligação, ponto por ponto, com os quesitos e critérios de resolução propostos pelo modelo informativo de exame. Parece-me precipitado inferir que “A arte de pensar” tenha sido escrita visando corresponder ao modelo indicativo de exame para o futuro ano lectivo ou que este último funde a sua redacção na necessidade de colagem aos conteúdos do manual, como algumas vozes – bem intencionadas mas irreflectidas – apregoam por aí. Vejamos. Acaso os redactores da prova-modelo para 2006 a tivessem redigido a revés do programa em vigor e a aproximassem de um manual didáctico em exclusivo – também ele nado na contra-corrente do actualmente estabelecido – isso levar-nos ia a pensar que tais procedimentos só poderiam ter sido executados com a anuência da directora do GAVE – Glória Ramalho, uma figura, ao que sabemos, absolutamente impoluta e com poderes executivos que implicam responsabilidades acrescidas na orgânica do Ministério – e com o bem-haja da Ministra ou – não queremos acreditar que a Ministra não tenha preocupações de ordem maior do que os manuais escolares – de um subsubsecretário-adjunto do seu gabinete. Seríamos igualmente forçados a admitir a existência de interesses financeiros por detrás da composição do modelo informativo de exame e respectivo manual, assim como desta simbiose resultaria necessariamente uma clara transgressão das regras mais elementares da concorrência – dado que os outros manuais deixaram de se constituir como alternativas viáveis para a realização do exame vindouro – e a própria moral, boa-fé e valores pedagógicos dos intervenientes deste processo podiam legitimamente ser postos em causa.
Não é difícil atestar que uma operação desta escala – a ser verdade o supradescrito, o que nos recusamos por ora e sem provas definitivas, a acreditar –pressupõe, em primeira instância, a cumplicidade entre os autores do manual em causa e/ou das orientações para o exame e o Ministério da Educação, na figura do GAVE; esta tese, também ela de carácter hipotético e não vinculativo à realidade, infirma naturalmente a existência de relações de compadrio e favorecimento mútuo que, à luz da justiça portuguesa – outra entidade aparentemente não vinculada à realidade – constituiriam matéria para acusações formais e aberturas de processos judiciais. Em segunda instância – e porque o discurso, ainda que hipotético, permite estabelecer modelos de conduta e relações de causa e efeito – os autores do manual e/ou das orientações de exame teriam naturalmente de possuir alguma inteligência, jogo de cintura e, sobretudo, uma extensa rede de contactos que permitisse influenciar um organismo ministerial a comprometer as suas posições de rigor, correcção e transparência nos procedimentos que administra e aos quais está vinculado a troco de não sabemos o quê.
Ora o que sabemos dos visados pela notícia não nos permite chegar a nenhuma das conclusões hipotéticas propostas. Por um lado, os visados não são académicos que brilhem pela inteligência ou pelo currículo – alguns deles não são académicos de todo ou possuem um currículo medíocre. Moderadamente estúpidos – o que, sendo uma falta, não é um defeito nem se lhe pode imputar uma carga moral – dificilmente os concebemos a engendrar um esquema de tal modo complexo que permitisse verter para a realidade as hipóteses acima alinhavadas. O pouco e espaçado contacto que mantive com alguns deles – num grupo de pretensa discussão filosófica online – sempre me fez crer que, pela suas competências ao nível do entendimento do objecto, método e finalidade da filosofia, nunca poderiam imprimir algum tipo de influência na linhas gerais do pensamento filosófico português, porque, por um lado, exibiam manifestas e incontestáveis lacunas ao nível da interpretação dos textos filosóficos e dos problemas que lhes inerem, tinham uma óptica voluntariamente amputada da abordagem filosófica e da história da filosofia em geral e concentravam os seus esforços na imposição de um modelo lógico-argumentativo que, para além de produzir insanáveis distorções na compreensão do fundo e da forma dos problemas, reduziam a actividade filosófica a uma espécie de positivismo lógico de tabacaria, com as consequências inevitáveis que daí decorrem (argumentos objectivos a favor e contra a existência de Deus, panegíricos em prol da manutenção da vida com base na apresentação da mesma como objectivamente boa, etc.).
Ora a persistência numa tese a despeito de todas as evidências contrárias – uma característica típica dos ignaros e dos génios – era provavelmente a única virtude que se exibia de forma constante – e sendo a única visível podemos quase certamente exclui-los do segundo grupo. E essa persistência era tal e tão profundamente enraizada que apresentavam, de boa-fé, queremos crer, a história da filosofia dividindo-a em dois grandes grupos – os “analíticos”, como eles, e os “continentais”, todos os restantes. Ora sendo a filosofia analítica uma corrente nascida no Séc. XX, não é difícil adivinhar o carácter obtuso e megalómano da tese em causa (Aristóteles e Platão analíticos, Heraclito continental, Leibniz e Kant analíticos, Nietzsche e Kierkegaard continentais e por aí fora, numa reformulação histórica retroactiva tão inventiva como academicamente risível). A megalomania andava de mãos dadas com uma certa paranóia que se pode encontrar em determinados doentes mentais, mas de todo inesperada em estudantes de filosofia. Eles acreditavam estar a ser perseguidos – qual “caça às bruxas” – pelos “inomináveis continentais” e acreditavam que somente destruindo todos os modelos filosóficos pelos quais estes últimos se pautam podiam salvar, não somente às suas próprias convicções, mas a filosofia em geral. Tudo isto combinado com a ideia, manifestamente expressa por diversas vezes, de que os estudantes com pendor “analítico” eram mais inteligentes do que os restantes dificilmente os aliviava de algum humor e compaixão alheios.
Ainda assim, e imediatamente detectáveis pela balofice e inconsistência da argumentação, alguns membros deste grupo lograram aparecer de forma pirilampar em alguns meios de comunicação social. Tendo em conta que a tabela de share reflecte quase imediatamente a razão proporcional entre estupidez tacanha e popularidade, não é difícil compreender como alguns deles ocuparam breve espaço televisivo e algum espaço escrito.
Ora parece-nos imediatamente óbvio que os visados pela peça já citada não podem manter os vínculos de promiscuidade que enumerámos a título de hipótese académica e que os factos enunciados na reportagem são fruto de um acaso que rapidamente conhecerá um desenlace positivo. A possibilidade efectiva de o acaso não ser o motor da discórdia levar-nos-ia a crer que o Ministério da Educação – ou pelo menos, algumas dos seus integrantes com poder decisório – se teria deixado lograr por meia dúzia de iletrados apetrechados de gorduchas bibliografias, algumas máximas de bolso repetidas à exaustão e uns poucos minutos de exposição mediática - já o editor que publicou "A arte de pensar" gabo-lhe tanto a coragem como lhe condeno a miopia gananciosa. Não quero acreditar que este Portugal, cuja prática democrática e competência governativa devem estar acima de qualquer suspeita favorecesse um grupo minoritário cujos interesses – mascarados de valores – não logram ultrapassar o desejo de deixar o estatuto de minoria em prol da imposição de um bem maior que ninguém consegue descortinar – nem como bem, nem como maior.

1 Comments:

At 20:54, Anonymous Anónimo said...

aleluia

 

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