sexta-feira, setembro 30, 2005

Características lusas, volume II.

Diz-se comummente que o português é uma criatura soturna, desamparada e de uma auto-estima revestida a pigmento de casca de ovo. Os brasileiros são, inclusivamente, os primeiros a içar o indicador nessa direcção. Para os nossos descendentes transviados, somos um povo de tipos funéreos, silenciosos e pouco dados a grandes formulações cívicas de alegria. É quase como se o luso fosse constituído, ontologicamente, por uma carpideirice azeda que o faz deambular, aos tombos, vida fora, a lamentar-se da sua sorte e da dos outros - sempre incomparavelmente superior à sua. Respondemos normalmente aos brasileiros que a caracterização peca por excesso e que se somos realmente assim é porque temos razões para isso (onde o argumento económico entra quase sempre no discurso de justificação). Os brasileiros, habituados à anorexia financeira desde há muito, respondem-nos com samba, praia, sol, caipirinha, futebol e toda uma panóplia de tradições espirito-macumbeiras com que dizem afastar o infortúnio e a inveja. No fundo, a fórmula não diverge do que Eça promulga, algures, como "pobretes mas alegretes".
Ora o luso aprendeu, não sem episódicas recaídas, a cultivar uma espécie de cinismo desconfiado com que aborda a vida e os assuntos que dela emergem. A sua consciência histórica, ainda que fortemente diluída no património de saberes e informações inúteis que cultiva actualmente, constitui-se como uma espécie de memória genética etológica que o impede, por exemplo, de celebrar o primeiro golo como aparentemente devia, porque sabe, na forma de uma intencionalidade passiva, que até o lavar dos cestos é vindima - expressão que decerto não encontra paralelo na cultura brasileira. Por isso parecemos aos olhos dos brasileiros o mesmo que os teutónicos e demais nórdicos parecem aos nossos: uns pobres diabos desavindos com a vida e ingratos para com Deus e para com a sua criação.
Mas se a consciência do passado não é um impedimento à fruição do presente - não ao modo brasileiro-adolescente, mas ao modo europeu - o que é que nos atravanca o goto e confere, ainda que em parte reduzido, uma quota parte de razão aos brasileiros? Se atentarmos aos ingleses, por exemplo, é difícil não ficármos abismados com um povo que consegue produzir, em simultâneo, vitorianos e os Monty Python. Os ingleses são uma espécie de Jeckyll & Hyde disposicionais, oscilando entre uma fleuma quotidiana enervante até ao paroxismo e uma euforia descontrolada que se manifesta à noite - com umas pints no bucho - e/ou em férias e no fim-de-semana. Os ingleses, também eles, cultivam uma espécie de cinismo escrupuloso que se manifesta sob a forma da famosa ironia britânica. O que nos distingue deles - e da restante maioria dos povos europeus, em maior ou menor grau - é a nossa aparente incapacidade de produzir uma óptica de futuro que não revele uma pavarosa catástrofe. Porque se é legítimo, para a maior parte dos europeus, incorporar o futuro sob o prisma da esperança cautelosa, para nós, habituados que estamos aos inúmeros e incontáveis lados B e encores da mesma cantilena de misérias, torna-se mais complicado respirar profundamente sem deixar vazar um suspiro ansioso - e somos, provavelmente, o país da europa onde mais se suspira por metro cúbico de atmosfera. Os brasileiros, esses, confinados numa espécie de autismo de Peter Pan (sem qualquer tipo de referência maldizente a este blog, pelo contrário) desconhecem por inteiro a noção de perspectiva futura, porque embarcados na adolescência da vida, o que interessa é o aqui e o agora e o futuro - quem não sabe é como quem não vê - é apenas o reservatório imenso de possibilidades infinitas que vão pingando sobre o presente. O brasileiro habita, por assim dizer, um conto de fadas erótico, onde tudo pode acontecer mas que vai, decerto, acabar bem. O português, pelo contrário, acorda e come Lobo Antunes ao pequeno-almoço, petisca Proust entre as refeições e saliva de cada vez que vê poesia fresca na montra. No fundo, a culpa não é nossa. A culpa está lá ao fundo. Lá à frente. No futuro.