O que vos salva?
Dizia uma psiquiatra que tive o prazer de conhecer que no Outuno os tuberculosos e os deprimidos caem como tordos. Não sofrendo de doenças pulmonares - guardai-me disso, Senhor - não sou propriamente o modelo do optimismo desenfreado - ou do optimismo, de todo - e nesta entrada de estação - ainda existem estações do ano? - confesso-me ligeiramente desafinado. Há um não-sei-o-quê no ar - que não se confunde com a catinga ou a poluição - que não me deixa sossegar na costumeira acalmia de monge que antecede os dias chuvosos.
Talvez seja a Fátima Felgueiras, o Manuel Alegre, o Cavaco, o Soares, o Isaltino e restante trupe de candidatos à raspagem do fundo do tacho Portugal. Talvez seja só a magreza faquiriana da minha carteira e a correspondência que ela mantém com a conta à ordem, talvez seja o preço da gasolina ou dos transportes em geral, talvez seja simplesmente a verificação diária de que caminhamos - Portugal, entenda-se - desastrosamente para África (no sentido figurado, até que algum cientista tectónico confirme o sentido concreto) ou mesmo para lugar nenhum. Talvez Almada Negreiros, soerguido numa ciência de reversibilidade necrológica, optasse por reescrever o manifesto anti-Dantas e lhe anexasse tudo o que não consigo dizer aqui sob pena de não ser o Almada e de o Dantas se ter transformado numa criatura tentacular e que caminha nas sombras.
O que estanca tanto sangue derramado? Qual o torniquete que impede que este Outono me transforme num andarilho lívido de mau-feitio acentuado? O pouco que me resta deste mundo que me legaram. A família, os amigos, as banalidades com as quais, aparentemente, os tontos pessimistas fazem o ninho. E a vocês? O que vos salva?

3 Comments:
Muda de iced tea.
Só bebo coca-cola. But I get the point.
O que me salva? A mim? O Sporting! Não ganhamos nada, mas pelo menos consigo mandar umas boas risadas à custa de Peseiro, Dias da Cunha, Ricardo, etc.
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