sexta-feira, setembro 30, 2005

Características lusas, volume II.

Diz-se comummente que o português é uma criatura soturna, desamparada e de uma auto-estima revestida a pigmento de casca de ovo. Os brasileiros são, inclusivamente, os primeiros a içar o indicador nessa direcção. Para os nossos descendentes transviados, somos um povo de tipos funéreos, silenciosos e pouco dados a grandes formulações cívicas de alegria. É quase como se o luso fosse constituído, ontologicamente, por uma carpideirice azeda que o faz deambular, aos tombos, vida fora, a lamentar-se da sua sorte e da dos outros - sempre incomparavelmente superior à sua. Respondemos normalmente aos brasileiros que a caracterização peca por excesso e que se somos realmente assim é porque temos razões para isso (onde o argumento económico entra quase sempre no discurso de justificação). Os brasileiros, habituados à anorexia financeira desde há muito, respondem-nos com samba, praia, sol, caipirinha, futebol e toda uma panóplia de tradições espirito-macumbeiras com que dizem afastar o infortúnio e a inveja. No fundo, a fórmula não diverge do que Eça promulga, algures, como "pobretes mas alegretes".
Ora o luso aprendeu, não sem episódicas recaídas, a cultivar uma espécie de cinismo desconfiado com que aborda a vida e os assuntos que dela emergem. A sua consciência histórica, ainda que fortemente diluída no património de saberes e informações inúteis que cultiva actualmente, constitui-se como uma espécie de memória genética etológica que o impede, por exemplo, de celebrar o primeiro golo como aparentemente devia, porque sabe, na forma de uma intencionalidade passiva, que até o lavar dos cestos é vindima - expressão que decerto não encontra paralelo na cultura brasileira. Por isso parecemos aos olhos dos brasileiros o mesmo que os teutónicos e demais nórdicos parecem aos nossos: uns pobres diabos desavindos com a vida e ingratos para com Deus e para com a sua criação.
Mas se a consciência do passado não é um impedimento à fruição do presente - não ao modo brasileiro-adolescente, mas ao modo europeu - o que é que nos atravanca o goto e confere, ainda que em parte reduzido, uma quota parte de razão aos brasileiros? Se atentarmos aos ingleses, por exemplo, é difícil não ficármos abismados com um povo que consegue produzir, em simultâneo, vitorianos e os Monty Python. Os ingleses são uma espécie de Jeckyll & Hyde disposicionais, oscilando entre uma fleuma quotidiana enervante até ao paroxismo e uma euforia descontrolada que se manifesta à noite - com umas pints no bucho - e/ou em férias e no fim-de-semana. Os ingleses, também eles, cultivam uma espécie de cinismo escrupuloso que se manifesta sob a forma da famosa ironia britânica. O que nos distingue deles - e da restante maioria dos povos europeus, em maior ou menor grau - é a nossa aparente incapacidade de produzir uma óptica de futuro que não revele uma pavarosa catástrofe. Porque se é legítimo, para a maior parte dos europeus, incorporar o futuro sob o prisma da esperança cautelosa, para nós, habituados que estamos aos inúmeros e incontáveis lados B e encores da mesma cantilena de misérias, torna-se mais complicado respirar profundamente sem deixar vazar um suspiro ansioso - e somos, provavelmente, o país da europa onde mais se suspira por metro cúbico de atmosfera. Os brasileiros, esses, confinados numa espécie de autismo de Peter Pan (sem qualquer tipo de referência maldizente a este blog, pelo contrário) desconhecem por inteiro a noção de perspectiva futura, porque embarcados na adolescência da vida, o que interessa é o aqui e o agora e o futuro - quem não sabe é como quem não vê - é apenas o reservatório imenso de possibilidades infinitas que vão pingando sobre o presente. O brasileiro habita, por assim dizer, um conto de fadas erótico, onde tudo pode acontecer mas que vai, decerto, acabar bem. O português, pelo contrário, acorda e come Lobo Antunes ao pequeno-almoço, petisca Proust entre as refeições e saliva de cada vez que vê poesia fresca na montra. No fundo, a culpa não é nossa. A culpa está lá ao fundo. Lá à frente. No futuro.

quinta-feira, setembro 29, 2005

O que vos salva?

Dizia uma psiquiatra que tive o prazer de conhecer que no Outuno os tuberculosos e os deprimidos caem como tordos. Não sofrendo de doenças pulmonares - guardai-me disso, Senhor - não sou propriamente o modelo do optimismo desenfreado - ou do optimismo, de todo - e nesta entrada de estação - ainda existem estações do ano? - confesso-me ligeiramente desafinado. Há um não-sei-o-quê no ar - que não se confunde com a catinga ou a poluição - que não me deixa sossegar na costumeira acalmia de monge que antecede os dias chuvosos.
Talvez seja a Fátima Felgueiras, o Manuel Alegre, o Cavaco, o Soares, o Isaltino e restante trupe de candidatos à raspagem do fundo do tacho Portugal. Talvez seja só a magreza faquiriana da minha carteira e a correspondência que ela mantém com a conta à ordem, talvez seja o preço da gasolina ou dos transportes em geral, talvez seja simplesmente a verificação diária de que caminhamos - Portugal, entenda-se - desastrosamente para África (no sentido figurado, até que algum cientista tectónico confirme o sentido concreto) ou mesmo para lugar nenhum. Talvez Almada Negreiros, soerguido numa ciência de reversibilidade necrológica, optasse por reescrever o manifesto anti-Dantas e lhe anexasse tudo o que não consigo dizer aqui sob pena de não ser o Almada e de o Dantas se ter transformado numa criatura tentacular e que caminha nas sombras.
O que estanca tanto sangue derramado? Qual o torniquete que impede que este Outono me transforme num andarilho lívido de mau-feitio acentuado? O pouco que me resta deste mundo que me legaram. A família, os amigos, as banalidades com as quais, aparentemente, os tontos pessimistas fazem o ninho. E a vocês? O que vos salva?

quarta-feira, setembro 28, 2005

A crise? Onde anda a puta da crise?

Dez minutos à beira da estrada e passagem de um passeio a outro chegou para verificar in loco o estado económico dos meus conterrâneos.


Do outro lado na estrada, à direita, na foto supra, o mesmo modelo, do mesmo ano.



Deste ângulo nota-se que os ocupantes do veículo estão evidentemente preocupados com a crise.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Características lusas, volume I.

O português, quando vai de férias, gosta de sentir que se mantém "actualizado" em relação ao que se passa no país e, se possui uma visão mais abrangente e filantrópica, também lhe apraz estar a par dos acontecimentos que afligem aqueles que residem extra-fronteiras. Assim, o dinheiro contadinho para café, cerveja, pão, queijo e fiambre também tem de dar - recorendo a um miraculoso contorcionismo financeiro - para o DN e a Bola, para o Público e para o Record, para o Expresso - quando a força de braços e a pachorra são inversamente proporcionais à elasticidade da moeda - ou para o Crime, Caras, Nova Gente, ou as inúmeras iterações impressas de uma mesma vocação mórbido-coscuvilheira.
Fora do seu habitat natural, o português sente a necessidade primária de "estar a par das coisas". Este fenómeno existencial, longe de ter raiz numa preocupação que exceda o costumeiro autismo do umbigo próprio - aquilo a que vulgarmente se chama "que tenho eu a ver com isso?" -, funda a sua razão de ser numa característica lusitana original: o português, deposto fora do seu roteiro habitual casa-trabalho-tasca-casa, sente-se inseguro e vulnerável. Aos mesmos homens maduros e de barba farpada que assumem as funções de herói de bairro ou de porta-estandarte da moralidade, quando depostos fora do lugarejo onde exercem um reinado a prazo, acode-se-lhes um nervoso miudinho cujo crescendo é amenizado, a espaços, pela descoberta ocasional de um conterrâneo na mesma condição ou de um simpatizante do mesmo clube. O enraizamento contextual do português é tão profundo - e por essa razão sente tão intensamente o efeito do "desterramento", ainda que provisório - que os seus efeitos podem ser obtidos alterando pequenos aspectos do quotidiano do sujeito. Deste modo, uma simples ida a um supermercado que não o habitual - no qual os produtos e as pessoas são diferentes ou estão em locais diversos do quotidiano - pode ganhar contornos de calvário, porque o português é desconfiado, não gosta de pedir informações e quando as pede é exibe uma relutância visível e incómoda; gosta de ir directamente às coisas e gabar-se de saber "os cantos à casa" e de conhecer as pechinchas mais apetecíveis do bairro. É também por isso que o luso embarca em verdadeiro tom lírico quando conta as suas experiências extramuros: a superação positiva de um encontro forçado com um obstáculo inesperado constitui motivo de prosa durante largas semanas. Não é raro ouvir, em conversa de café, o vizinho do lado a relatar a sua experiência de compra em território hostil - que está demarcado pelo trajecto casa-trabalho-tasca-casa referido anteriormente - como se de uma epopeia se tratasse. Nenhum detalhe é descurado, nenhum pormenor aviltado. Os restantes silenciam-se numa reverência de velhos atracados à espera de poderem, também eles, dizer onde encontraram aquela bica, muito mais barata, muitíssimo melhor, mas servida - infelizmente - fora do enclave de segurança.
À primeira vista, este traço existencial pode colidir com o que habitualmente chamamos "hospitalidade lusitana". Nada de mais falso. A verdadeira natureza da nossa aparente vocação anfitriã é demasiado complexa para ser dirimida aqui, sem que se perca na análise aspectos estruturais imprescindíveis. Mas podemos atacar o problema a partir de um ângulo restrito, sem prejuízo para a compreensão superficial do modelo que propomos.
A dita hospitalidade, aparentemente codificado no gene de cada português sorridente, não é mais do que um efeito vísivel e paradoxal da insegurança portuguesa. A motivação do sorriso não é uma qualquer empatia filantrópica subjancente ao luso, não é uma vocação benemérita sempre pronta a manifestar-se, não é sequer uma habilidade histriónica ao serviço da economia - a melhor das hipóteses aventadas até agora e uma característica tipicamente espanhola. No fundo do sorriso português - ou por detrás dele - opera em baixo-registo constante o medo de estar enganado, de estar fora de contexto, de ser menos do que se é. É por isso que o português, enquanto serve uma caneca a um camone, resgmunga entredentes o mais vasto registo de calão e não se coibe de partilhar com os colegas a opinião altamente depreciativa que nutre acerca de um tipo que usa, simultaneamente, meias com sandálias e que nem sequer se consegue bronzear devidamente. O problema é que o português, para além de operar em registo de frequência neurótica (como se estivesse permanentemente à espera de ser apanhado com as calças na mão) vê no acto de vender - canecas, bonecos, insufláveis - um acto serviçal e impróprio para quem se sente entronado desde que acorda. Ora a somar à "neurose do estranho" temos o efeito de óptica invertida que transforma comércio em moralidade ferida. A sua defesa - em tudo semelhante à defesa das crianças envergonhadas - é sorrir. E este sorriso amedontrado - que almeja muito mais evitar qualquer tipo de confronto de que exibir o prazer de receber - é o testa-de-ferro de uma insegurança ressabiada que quer, a todo o custo, passar por qualquer coisa de positivo. O mais perto que se pode encontrar, de facto, é a hospitalidade. Mas está muito longe de ser isso.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Fechado para balanço.

Vou mas volto - infelizmente. Pudesse eu estar tantos dias sem mim como vocês - dois ou três - estarão...

quarta-feira, setembro 14, 2005

Finalmente uma boa ideia

Como me foi sugerido em comentário ao post anterior e porque o saber não ocupa lugar, resolvi abrir a caixa de pandora. Os primeiros cinco - ou únicos cinco - respondentes a este post têm direito a receber - sem quaisquer tipo de compromisso nem juros de mora - um link onde as putéfias mais deliciosas deste burgo global desfilam nudez e interpretam as artes milenares da arquitectura do boudoir. O site em causa - cujo nome não posso aqui referir, sob pena de ser entupido de spam até ao dia do juízo final - requer nome de utlizador e palavra chave para ser devidamente contemplado. Estes últimos serão providenciados com o respectivo link. As felizes cinco primeiras criaturas com endereço de correio electrónico válido ganham um timeshare para o Éden.

terça-feira, setembro 13, 2005

sugestões onanísticas.

Não é o título do mais recente livro de Vasco Graça Moura, nem sequer o nome de um post do falecido Pipi (desemigra, precisamos de ti). Dá simplesmente o mote para uma verificação que levei a cabo: a Internet é - e se tudo correr bem, continuará a ser - o Santo Graal da pornografia e, no entanto, enraizaram-se hábitos perfeitamente incompreensíveis num manancial tão rico de possibilidades e qualidade. Com tantos lupanares virtuais de reconhecidíssimo mérito no que concerne o estabelecimento de boas erecções, por que insistem os iniciados na exploração do corpo próprio em frequentar sítios tão incipentes como o HI5 ou as mais de duas iterações do mesmo - obrigado António Costa - que por aí pululam? Só posso deduzir uma de duas conclusões: ou a gaiatada em vias de molhar o pincel é burra - e temos de repensar toda a educação informática e assumir uma quota parte neste demérito - ou basta-lhes um plano picado de uma moçoila que mais não mostra que um esgar de soutien para cumprir a benfazeja apoteose ejaculatória. Como não estamos propriamente na era vitoriana - em que um tipo esgalhava uma na reverência imagética de um pulso descoberto - devo concluir que a menoridade dos rapazes desta geração não se articula apenas com o aspecto cronológico...

quinta-feira, setembro 08, 2005

Autárquicas lisboetas. Intervalo.

O Júlio sai do estúdio a correr perseguido pelo Carmona que, por sua vez, é perseguido por alguns seguranças avolumados sem especial preparação para lidar com políticos aparentemente ensandecidos. Eu consigo intuir - imediatamente após as gargalhadas que me tiraram a concentração - os pensamentos dos restantes candidatos e da própria Judite de Sousa. Obviamente, o Carmona sai do raio de acção da minha capacidade protensiva - assim como o Júlio, os seguranças e o tipo que estica os cabos.
O Ruben de Carvalho - que cabeça, senhores! - está embrulhado em cogitações profundas sobre algumas passagens do capital em que a ortodoxia socialista é posta em causa pelo punho do próprio Barbudo. Enquanto expõe mentalmente os argumentos - à boa maneira espinosista - e os organiza de forma a salvaguardar o credo de qualquer heresia gnóstica ou imberbe é assolado por instantâneos em que consigo perceber a figura de Cristo e, ao mesmo tempo, ouço uma voz feminina - a mãe do pequeno Ruben, suponho - a perguntar, num tom pidesco de veludo "o que fazes aí na casa de banho tanto tempo Rubinho?". A construção geométrica desfaz-se num assombro de vergonha e só consigo intuir medidas. Sete centímetros contando com a penugem. Sete e meio descontando a penugem.
Carrilho tem as mãos nos bolsos e sorri (e uma coisa não leva necessariamente à outra). Na sequência do episódio Carmona-Fantasma-de-Santana pensa somente que já ganhou. Imagina o que poderia acontecer para que a vitória, subitamente caída no seu colo como uma ninfeta inocente, lhe fugisse agora. E Carrilho - um tipo mediamente racional mas possuidor de um contorcionismo imaginativo invejável - vê-se a insultar a Judite de Sousa, a chamar-lhe cabecinha de alfinete e pingalhete da sanita, os mesmos mimos que os amigos de infância lhe repetiam vezes sem conta quando ele afirmava, numa descontração tão própria aos génios como aos atoleimados, que um dia "iria mandar nesta merda toda". Carrilho, subitamente elevado aos píncaros da grandeza provisória, vê-se trajado do mais fino veludo púrpura, numa corte que lhe presta vassalagem em poses de respeito e profunda admiração. Com um sorriso enviesado a adornar-lhe metade da boca, levanta-se do trono e manda entrar as 10 virgens escolhidas. Entram nove réplicas perfeitas do próprio Carrilho e uma cópia mal amanhada do Eládio Clímaco que grita, entre outras coisas, que "é tão boa e tão puta como as outras!" Carrilho, erguendo o polegar como se Carrilho-LuisXIV fosse César, ordena a imediata decaptição de Eládio e, enquanto este se esvai num torpor de galinha - uma perfeita demonstração da regionalização do sistema nervoso central de Eládio, uma hipótese aventada já há muito tempo - Carrilho despe-se e intrui os nove restantes Carrilhos no mesmo sentido. E é neste momento, em que o quarto de círculo facial de Carrilho se transforma em meia-lua acabada, que saio daquela cabeça.
Sá Fernandes ajeita os óculos no estilo muito próprio dos indivíduos que pretendem estar preparados. Finge ser tudo normal - como os outros fingem - mas não o finge com convicção. Impacienta-se na cadeira subitamente incómoda, remói alguns impropérios em voz-off e recoloca o ponteiro da imaginação nas memórias de infância. Na praia, numa das inúmeras colónias de férias que abomina figadalmente, vê-se debaixo do chapéu de sol, cobrindo-lhe a cabeça - no bom sentido - um chapéu de palha em jeito de bandeja e com o corpo inteiramente lambuzado de um qualquer creme de protecção solar factor sessenta. Sá Fernandes, que nunca gostou de praia, que nunca gostou do sol que o transforma rapidamente num simulacro de crustáceo, olha para os restantes coleguinhas enquanto estes se entretêm a construir castelos de areia e outros mamarrachos arenosos. Com as entranhas reviradas pela raiva e a face toldada pela vergonha, levanta-se de súbito e empreende uma caminhada triunfal até à beira da água. Aí chegado e em pose de velocista, desata a correr por cima das edificações dos colegas enquanto repete, até à exaustão, "embargado! embargado! embargado!". Os petizes, colhidos pela estupefação, limitam-se a chorar o final prematuro da carreira de arquitectos enquanto os monitores - pouco dados a demonstrações de anarquia revoltosa - perseguem o pequeno e incansável Sá Fernandes praia fora. De volta ao estúdio, Sá Fernandes olha para Judite, encolhe os ombros e sorri, num sorriso enjeitado, a vontade escondida de tudo aplanar.
Do estúdio ouvem-se sirenes. Ninguém sabe o que elas anunciam. O intervalo está prestes a acabar.

terça-feira, setembro 06, 2005

Autárquicas lisboetas. Tomo I - A Pobreza

Tendo em conta que o scanner se findou num suspiro silencioso - paz à sua alma - e que o erário mensal não permite ao bloguista adquirir outro, resta uma única alternativa: a telepatia protensiva.
A telepatia protensiva é uma capacidade inata do humano que se manifesta, por exemplo, numa discussão de casal. Quando duas pessoas procuram passar sal grosso nas feridas uma da outra, estão normalmente num processo que envolve uma intuição protensiva daquilo que o outro pensará ou sentirá quando determinadas afirmações entrarem em jogo. Como é óbvio, isto não deve ser confundido com a moderna psicologia comportamental cujo axioma de exequibilidade funcional se funda numa relação causa-efeito que se revela, cedo e da pior forma, absolutamente insuficiente. Na telepatia protensiva há, pelo contrário, uma efectiva - ainda que momentânea - perscrutação do interior racional e afectivo do próximo e, desta forma, subsiste a possibilidade de se obterem leituras mais ou menos adequadas - nem todos possuem a referida capacidade de igual modo, e muitos menos sabem usá-la - dos pensamentos e disposições de outrem. Saber o que o outro pensa e sente - na forma de uma leitura do futuro - é ter a capacidade antecipada de provocar estragos consideráveis na sua auto-estima e na sua capacidade de resposta.
Mas as ramificações desta arte milenar não se quedam por aqui. O verdadeiro cultor da telepatia protensiva pode não somente ter acesso à cabecinha daquele ou daquela que o atura diariamente mas, com rigoroso treino e intensificação espiritual, penetrar - no bom sentido, obviamente - no espaço entre as orelhas de uma qualquer criatura à escolha ou, em casos de grande domínio técnico, num grupo de criaturas.
O meu currículo nesta área, não sendo extenso, inclui algumas façanhas consideráveis. Fui capaz, por exemplo, de saber com uma antecedência de 2 semanas as palavras exactas que a minha mãe iria proferir no instante decisivo em que se confrontasse com o meu novo corte de cabelo. Dirão os mais cépticos e inconfessos adeptos da psicologia de botequim que a série de experiências acumuladas tornam possível a leitura protensiva do outro e que, na verdade, não há nada de telepático ou protensivo nisto tudo. Ora esses fedelhos imberbes das ciências do espírito desconhecem por inteiro a capacidade de reinvenção verbal da minha mãe, assim como a sua complexa configuração disposicional. O que lhe agrada hoje pode aborrecê-la de morte amanhã e tem sempre uma forma inédita de o exprimir. Isso nota-se de forma vincada nas opiniões que nutre a meu respeito.
Os outros cépticos, que não acreditam nem na psicologia nem na telepatia, dirão que um feliz acaso fez-me acreditar que a minha intuição da conversa era real. Ora neste caso o ónus da prova não me cabe a mim. Eles têm de provar o acaso. E para provarem o acaso têm de estabelecer hipóteses e fundamentá-las com observações rigorosas e, posteriormente, testar a validade de todos os dados recolhidos. O que deixa, obviamente, pouca margem para a manifestação do acaso.
Ora serve este intróito para relatar uma intuição que tive durante o intervalo de uma conferência de soldadores a frio. A primeira parte da conferência - uma repetição monocórdica de técnicas por demais sabidas - serviu para me induzir num estado de tédio próprio para uma visão protensiva. No intervalo, quando um simpático colega me acordou com a já também habitual anedota do mercúrio para soldadores, vi, num instante de espaço e tempo anormalmente longo, uma parte do debate que os candidatos à presidência da câmara de Lisboa vão manter, num futuro muito próximo. Esta parte em questão incidia sobre a pobreza - ou exclusão social, na linguagem politicamente correcta de assistentes sociais e aspirantes a tachos - e reza da seguinte forma:
Judite de Sousa: Uma das grandes preocupações dos lisboetas é a pobreza e as consequências socias que daí derivam. Muitos associam a pobreza à exclusão social, à marginalidade, à droga e aos fenómenos da violência urbana. Como candidatos, quais as vossas ideias sobre este tema e como pretendem concretizá-las num mandato de quatro anos? Podemos começar pelo candidato independente apoiado pelo PSD, Prof. Carmona Rodrigues.
Carmona: Bem, gostaria de dizer, em primeiro lugar, que a pobreza resulta essencialmente da combinação de dois factores: o desemprego - originado, na sua maioria, pelas decisões do governo anterior -
Judite de Sousa: Refere-se ao PSD?
Carmona: Não, não, ao Santana.
Judite de Sousa: Mas o governo anterior, chefiado por Santana Lopes, era uma coligação PSD/CDS-PP...
Carmona: O Santana não chefia ninguém Judite! O PSD sobrevive à desorientação política do Santana e emerge desta idade média provisória banhado da luz redentória...
Judite de Sousa: Então culpa somente o Santana pela má governação que levou o Presidente a dissolver o parlamento e a convocar eleições antecipadas?
Carmona: Mas quem mais se poderá culpar? O Santana, Judite, é o anti-cristo da política. O Santana é uma assombração, um infinito provisório que nunca mais se dissolve na menoridade da sua essência. Lembra-se certamente de ele ter ido que "ia andar por aí", não se lembra? Lembra-se disso?
Judite de Sousa: Sim, claro. Mas não são as palavras de um homem derrotado?
Carmona: Isso é o que ele quer que vocês pensem! Nesse conforto fácil ele instala-se com resistência de germe! Às vezes, de noite, quando tenho sede e vou ao frigorífico para beber água fresca, sinto que ele me espreita por detrás do sofá, ouço-o através das tubagens da casa a perturbar-me a mijinha da três da manhã - uma bexiga com cinquenta anos já não se aguenta até à madrugada, Judite! - e sei que ele fala com o meu motorista - tenho provas, tenho provas gravadas! - e que combinam a data de um despiste em que eu me quine sem glória nem memória. O Santana nunca saiu dos Paços do Concelho! O Santana...
Judite de Sousa: Professor Carmona, não estará a exagerar e a cometer, inclusivamente, algumas inconfidências? Quer dizer, volto a lembrar-lhe que estamos em directo, para todo o país.
Carmona: Eu quero é que o país e o directo e o Santana se trompiquem! Se ele pensa que me vou deixar ir abaixo só por causa dos emails anónimos que me manda ou das fotografias que ele distribui à socapa pelos funcionários - olhe Judite, veja isto, eu e um macaco Judite, eu e um macaco! - ele está enganado Judite. Ouviste Santana? Eu não tenho medo. Eu já nunca mais tenho medo! Acabaram-se as caneladas debaixo da mesa durante as reuniões! Eu já nem tenho o mesmo número de telemóvel para onde ligavas à noite a chamar-me cara de choco e borbulhento! Eu estou pronto, Santana! Sai de trás da câmara e enfrenta-me de homem para homem, meu pulha!
Judite de Sousa: Professor Carmona, O Júlio trabalha connosco há anos... Largue o Júlio, Professor! Ponha essa cadeira no chão! O que vai fazer com a cadeira? Ponha-a no chão, Professor!!! Júlio, fuja Júlio!
Carmona: Arranco-te já o Santana do corpo meu badameco! Volta aqui se és homem! Eu já não tenho medo Judite! Eu já não tenho medo... Hahahahahahhahahaahaaa...
A Judite de Sousa, num dos seus raros momentos de lucidez televisiva, interrompe o programa. Amanhã segue o relato dos outros intervenientes. A intuição protensiva pode tornar-se uma experiência muito desagradável e difícil de suster em continuum.

segunda-feira, setembro 05, 2005

Consequências da punheta em paralaxe.


Post coitum omne animal triste est, sive gallus et mulier.