Tendo em conta que o scanner se findou num suspiro silencioso - paz à sua alma - e que o erário mensal não permite ao bloguista adquirir outro, resta uma única alternativa: a telepatia protensiva.
A telepatia protensiva é uma capacidade inata do humano que se manifesta, por exemplo, numa discussão de casal. Quando duas pessoas procuram passar sal grosso nas feridas uma da outra, estão normalmente num processo que envolve uma intuição protensiva daquilo que o outro pensará ou sentirá quando determinadas afirmações entrarem em jogo. Como é óbvio, isto não deve ser confundido com a moderna psicologia comportamental cujo axioma de exequibilidade funcional se funda numa relação causa-efeito que se revela, cedo e da pior forma, absolutamente insuficiente. Na telepatia protensiva há, pelo contrário, uma efectiva - ainda que momentânea - perscrutação do interior racional e afectivo do próximo e, desta forma, subsiste a possibilidade de se obterem leituras mais ou menos adequadas - nem todos possuem a referida capacidade de igual modo, e muitos menos sabem usá-la - dos pensamentos e disposições de outrem. Saber o que o outro pensa e sente - na forma de uma leitura do futuro - é ter a capacidade antecipada de provocar estragos consideráveis na sua auto-estima e na sua capacidade de resposta.
Mas as ramificações desta arte milenar não se quedam por aqui. O verdadeiro cultor da telepatia protensiva pode não somente ter acesso à cabecinha daquele ou daquela que o atura diariamente mas, com rigoroso treino e intensificação espiritual, penetrar - no bom sentido, obviamente - no espaço entre as orelhas de uma qualquer criatura à escolha ou, em casos de grande domínio técnico, num grupo de criaturas.
O meu currículo nesta área, não sendo extenso, inclui algumas façanhas consideráveis. Fui capaz, por exemplo, de saber com uma antecedência de 2 semanas as palavras exactas que a minha mãe iria proferir no instante decisivo em que se confrontasse com o meu novo corte de cabelo. Dirão os mais cépticos e inconfessos adeptos da psicologia de botequim que a série de experiências acumuladas tornam possível a leitura protensiva do outro e que, na verdade, não há nada de telepático ou protensivo nisto tudo. Ora esses fedelhos imberbes das ciências do espírito desconhecem por inteiro a capacidade de reinvenção verbal da minha mãe, assim como a sua complexa configuração disposicional. O que lhe agrada hoje pode aborrecê-la de morte amanhã e tem sempre uma forma inédita de o exprimir. Isso nota-se de forma vincada nas opiniões que nutre a meu respeito.
Os outros cépticos, que não acreditam nem na psicologia nem na telepatia, dirão que um feliz acaso fez-me acreditar que a minha intuição da conversa era real. Ora neste caso o ónus da prova não me cabe a mim. Eles têm de provar o acaso. E para provarem o acaso têm de estabelecer hipóteses e fundamentá-las com observações rigorosas e, posteriormente, testar a validade de todos os dados recolhidos. O que deixa, obviamente, pouca margem para a manifestação do acaso.
Ora serve este intróito para relatar uma intuição que tive durante o intervalo de uma conferência de soldadores a frio. A primeira parte da conferência - uma repetição monocórdica de técnicas por demais sabidas - serviu para me induzir num estado de tédio próprio para uma visão protensiva. No intervalo, quando um simpático colega me acordou com a já também habitual anedota do mercúrio para soldadores, vi, num instante de espaço e tempo anormalmente longo, uma parte do debate que os candidatos à presidência da câmara de Lisboa vão manter, num futuro muito próximo. Esta parte em questão incidia sobre a pobreza - ou exclusão social, na linguagem politicamente correcta de assistentes sociais e aspirantes a tachos - e reza da seguinte forma:
Judite de Sousa: Uma das grandes preocupações dos lisboetas é a pobreza e as consequências socias que daí derivam. Muitos associam a pobreza à exclusão social, à marginalidade, à droga e aos fenómenos da violência urbana. Como candidatos, quais as vossas ideias sobre este tema e como pretendem concretizá-las num mandato de quatro anos? Podemos começar pelo candidato independente apoiado pelo PSD, Prof. Carmona Rodrigues.
Carmona: Bem, gostaria de dizer, em primeiro lugar, que a pobreza resulta essencialmente da combinação de dois factores: o desemprego - originado, na sua maioria, pelas decisões do governo anterior -
Judite de Sousa: Refere-se ao PSD?
Carmona: Não, não, ao Santana.
Judite de Sousa: Mas o governo anterior, chefiado por Santana Lopes, era uma coligação PSD/CDS-PP...
Carmona: O Santana não chefia ninguém Judite! O PSD sobrevive à desorientação política do Santana e emerge desta idade média provisória banhado da luz redentória...
Judite de Sousa: Então culpa somente o Santana pela má governação que levou o Presidente a dissolver o parlamento e a convocar eleições antecipadas?
Carmona: Mas quem mais se poderá culpar? O Santana, Judite, é o anti-cristo da política. O Santana é uma assombração, um infinito provisório que nunca mais se dissolve na menoridade da sua essência. Lembra-se certamente de ele ter ido que "ia andar por aí", não se lembra? Lembra-se disso?
Judite de Sousa: Sim, claro. Mas não são as palavras de um homem derrotado?
Carmona: Isso é o que ele quer que vocês pensem! Nesse conforto fácil ele instala-se com resistência de germe! Às vezes, de noite, quando tenho sede e vou ao frigorífico para beber água fresca, sinto que ele me espreita por detrás do sofá, ouço-o através das tubagens da casa a perturbar-me a mijinha da três da manhã - uma bexiga com cinquenta anos já não se aguenta até à madrugada, Judite! - e sei que ele fala com o meu motorista - tenho provas, tenho provas gravadas! - e que combinam a data de um despiste em que eu me quine sem glória nem memória. O Santana nunca saiu dos Paços do Concelho! O Santana...
Judite de Sousa: Professor Carmona, não estará a exagerar e a cometer, inclusivamente, algumas inconfidências? Quer dizer, volto a lembrar-lhe que estamos em directo, para todo o país.
Carmona: Eu quero é que o país e o directo e o Santana se trompiquem! Se ele pensa que me vou deixar ir abaixo só por causa dos emails anónimos que me manda ou das fotografias que ele distribui à socapa pelos funcionários - olhe Judite, veja isto, eu e um macaco Judite, eu e um macaco! - ele está enganado Judite. Ouviste Santana? Eu não tenho medo. Eu já nunca mais tenho medo! Acabaram-se as caneladas debaixo da mesa durante as reuniões! Eu já nem tenho o mesmo número de telemóvel para onde ligavas à noite a chamar-me cara de choco e borbulhento! Eu estou pronto, Santana! Sai de trás da câmara e enfrenta-me de homem para homem, meu pulha!
Judite de Sousa: Professor Carmona, O Júlio trabalha connosco há anos... Largue o Júlio, Professor! Ponha essa cadeira no chão! O que vai fazer com a cadeira? Ponha-a no chão, Professor!!! Júlio, fuja Júlio!
Carmona: Arranco-te já o Santana do corpo meu badameco! Volta aqui se és homem! Eu já não tenho medo Judite! Eu já não tenho medo... Hahahahahahhahahaahaaa...
A Judite de Sousa, num dos seus raros momentos de lucidez televisiva, interrompe o programa. Amanhã segue o relato dos outros intervenientes. A intuição protensiva pode tornar-se uma experiência muito desagradável e difícil de suster em continuum.