quinta-feira, setembro 08, 2005

Autárquicas lisboetas. Intervalo.

O Júlio sai do estúdio a correr perseguido pelo Carmona que, por sua vez, é perseguido por alguns seguranças avolumados sem especial preparação para lidar com políticos aparentemente ensandecidos. Eu consigo intuir - imediatamente após as gargalhadas que me tiraram a concentração - os pensamentos dos restantes candidatos e da própria Judite de Sousa. Obviamente, o Carmona sai do raio de acção da minha capacidade protensiva - assim como o Júlio, os seguranças e o tipo que estica os cabos.
O Ruben de Carvalho - que cabeça, senhores! - está embrulhado em cogitações profundas sobre algumas passagens do capital em que a ortodoxia socialista é posta em causa pelo punho do próprio Barbudo. Enquanto expõe mentalmente os argumentos - à boa maneira espinosista - e os organiza de forma a salvaguardar o credo de qualquer heresia gnóstica ou imberbe é assolado por instantâneos em que consigo perceber a figura de Cristo e, ao mesmo tempo, ouço uma voz feminina - a mãe do pequeno Ruben, suponho - a perguntar, num tom pidesco de veludo "o que fazes aí na casa de banho tanto tempo Rubinho?". A construção geométrica desfaz-se num assombro de vergonha e só consigo intuir medidas. Sete centímetros contando com a penugem. Sete e meio descontando a penugem.
Carrilho tem as mãos nos bolsos e sorri (e uma coisa não leva necessariamente à outra). Na sequência do episódio Carmona-Fantasma-de-Santana pensa somente que já ganhou. Imagina o que poderia acontecer para que a vitória, subitamente caída no seu colo como uma ninfeta inocente, lhe fugisse agora. E Carrilho - um tipo mediamente racional mas possuidor de um contorcionismo imaginativo invejável - vê-se a insultar a Judite de Sousa, a chamar-lhe cabecinha de alfinete e pingalhete da sanita, os mesmos mimos que os amigos de infância lhe repetiam vezes sem conta quando ele afirmava, numa descontração tão própria aos génios como aos atoleimados, que um dia "iria mandar nesta merda toda". Carrilho, subitamente elevado aos píncaros da grandeza provisória, vê-se trajado do mais fino veludo púrpura, numa corte que lhe presta vassalagem em poses de respeito e profunda admiração. Com um sorriso enviesado a adornar-lhe metade da boca, levanta-se do trono e manda entrar as 10 virgens escolhidas. Entram nove réplicas perfeitas do próprio Carrilho e uma cópia mal amanhada do Eládio Clímaco que grita, entre outras coisas, que "é tão boa e tão puta como as outras!" Carrilho, erguendo o polegar como se Carrilho-LuisXIV fosse César, ordena a imediata decaptição de Eládio e, enquanto este se esvai num torpor de galinha - uma perfeita demonstração da regionalização do sistema nervoso central de Eládio, uma hipótese aventada já há muito tempo - Carrilho despe-se e intrui os nove restantes Carrilhos no mesmo sentido. E é neste momento, em que o quarto de círculo facial de Carrilho se transforma em meia-lua acabada, que saio daquela cabeça.
Sá Fernandes ajeita os óculos no estilo muito próprio dos indivíduos que pretendem estar preparados. Finge ser tudo normal - como os outros fingem - mas não o finge com convicção. Impacienta-se na cadeira subitamente incómoda, remói alguns impropérios em voz-off e recoloca o ponteiro da imaginação nas memórias de infância. Na praia, numa das inúmeras colónias de férias que abomina figadalmente, vê-se debaixo do chapéu de sol, cobrindo-lhe a cabeça - no bom sentido - um chapéu de palha em jeito de bandeja e com o corpo inteiramente lambuzado de um qualquer creme de protecção solar factor sessenta. Sá Fernandes, que nunca gostou de praia, que nunca gostou do sol que o transforma rapidamente num simulacro de crustáceo, olha para os restantes coleguinhas enquanto estes se entretêm a construir castelos de areia e outros mamarrachos arenosos. Com as entranhas reviradas pela raiva e a face toldada pela vergonha, levanta-se de súbito e empreende uma caminhada triunfal até à beira da água. Aí chegado e em pose de velocista, desata a correr por cima das edificações dos colegas enquanto repete, até à exaustão, "embargado! embargado! embargado!". Os petizes, colhidos pela estupefação, limitam-se a chorar o final prematuro da carreira de arquitectos enquanto os monitores - pouco dados a demonstrações de anarquia revoltosa - perseguem o pequeno e incansável Sá Fernandes praia fora. De volta ao estúdio, Sá Fernandes olha para Judite, encolhe os ombros e sorri, num sorriso enjeitado, a vontade escondida de tudo aplanar.
Do estúdio ouvem-se sirenes. Ninguém sabe o que elas anunciam. O intervalo está prestes a acabar.