Características lusas, volume I.
O português, quando vai de férias, gosta de sentir que se mantém "actualizado" em relação ao que se passa no país e, se possui uma visão mais abrangente e filantrópica, também lhe apraz estar a par dos acontecimentos que afligem aqueles que residem extra-fronteiras. Assim, o dinheiro contadinho para café, cerveja, pão, queijo e fiambre também tem de dar - recorendo a um miraculoso contorcionismo financeiro - para o DN e a Bola, para o Público e para o Record, para o Expresso - quando a força de braços e a pachorra são inversamente proporcionais à elasticidade da moeda - ou para o Crime, Caras, Nova Gente, ou as inúmeras iterações impressas de uma mesma vocação mórbido-coscuvilheira.
Fora do seu habitat natural, o português sente a necessidade primária de "estar a par das coisas". Este fenómeno existencial, longe de ter raiz numa preocupação que exceda o costumeiro autismo do umbigo próprio - aquilo a que vulgarmente se chama "que tenho eu a ver com isso?" -, funda a sua razão de ser numa característica lusitana original: o português, deposto fora do seu roteiro habitual casa-trabalho-tasca-casa, sente-se inseguro e vulnerável. Aos mesmos homens maduros e de barba farpada que assumem as funções de herói de bairro ou de porta-estandarte da moralidade, quando depostos fora do lugarejo onde exercem um reinado a prazo, acode-se-lhes um nervoso miudinho cujo crescendo é amenizado, a espaços, pela descoberta ocasional de um conterrâneo na mesma condição ou de um simpatizante do mesmo clube. O enraizamento contextual do português é tão profundo - e por essa razão sente tão intensamente o efeito do "desterramento", ainda que provisório - que os seus efeitos podem ser obtidos alterando pequenos aspectos do quotidiano do sujeito. Deste modo, uma simples ida a um supermercado que não o habitual - no qual os produtos e as pessoas são diferentes ou estão em locais diversos do quotidiano - pode ganhar contornos de calvário, porque o português é desconfiado, não gosta de pedir informações e quando as pede é exibe uma relutância visível e incómoda; gosta de ir directamente às coisas e gabar-se de saber "os cantos à casa" e de conhecer as pechinchas mais apetecíveis do bairro. É também por isso que o luso embarca em verdadeiro tom lírico quando conta as suas experiências extramuros: a superação positiva de um encontro forçado com um obstáculo inesperado constitui motivo de prosa durante largas semanas. Não é raro ouvir, em conversa de café, o vizinho do lado a relatar a sua experiência de compra em território hostil - que está demarcado pelo trajecto casa-trabalho-tasca-casa referido anteriormente - como se de uma epopeia se tratasse. Nenhum detalhe é descurado, nenhum pormenor aviltado. Os restantes silenciam-se numa reverência de velhos atracados à espera de poderem, também eles, dizer onde encontraram aquela bica, muito mais barata, muitíssimo melhor, mas servida - infelizmente - fora do enclave de segurança.
À primeira vista, este traço existencial pode colidir com o que habitualmente chamamos "hospitalidade lusitana". Nada de mais falso. A verdadeira natureza da nossa aparente vocação anfitriã é demasiado complexa para ser dirimida aqui, sem que se perca na análise aspectos estruturais imprescindíveis. Mas podemos atacar o problema a partir de um ângulo restrito, sem prejuízo para a compreensão superficial do modelo que propomos.
A dita hospitalidade, aparentemente codificado no gene de cada português sorridente, não é mais do que um efeito vísivel e paradoxal da insegurança portuguesa. A motivação do sorriso não é uma qualquer empatia filantrópica subjancente ao luso, não é uma vocação benemérita sempre pronta a manifestar-se, não é sequer uma habilidade histriónica ao serviço da economia - a melhor das hipóteses aventadas até agora e uma característica tipicamente espanhola. No fundo do sorriso português - ou por detrás dele - opera em baixo-registo constante o medo de estar enganado, de estar fora de contexto, de ser menos do que se é. É por isso que o português, enquanto serve uma caneca a um camone, resgmunga entredentes o mais vasto registo de calão e não se coibe de partilhar com os colegas a opinião altamente depreciativa que nutre acerca de um tipo que usa, simultaneamente, meias com sandálias e que nem sequer se consegue bronzear devidamente. O problema é que o português, para além de operar em registo de frequência neurótica (como se estivesse permanentemente à espera de ser apanhado com as calças na mão) vê no acto de vender - canecas, bonecos, insufláveis - um acto serviçal e impróprio para quem se sente entronado desde que acorda. Ora a somar à "neurose do estranho" temos o efeito de óptica invertida que transforma comércio em moralidade ferida. A sua defesa - em tudo semelhante à defesa das crianças envergonhadas - é sorrir. E este sorriso amedontrado - que almeja muito mais evitar qualquer tipo de confronto de que exibir o prazer de receber - é o testa-de-ferro de uma insegurança ressabiada que quer, a todo o custo, passar por qualquer coisa de positivo. O mais perto que se pode encontrar, de facto, é a hospitalidade. Mas está muito longe de ser isso.

1 Comments:
Óptimo post, como sempre! Mas tenho uma pergunta: então agora andas armado em José Gil ou quê? :)
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