quinta-feira, novembro 24, 2005

criacionismo, evolucionismo ou "inteligent design"?

Nunca dei grande importância a qualquer uma das teorias apresentadas. A minha única posição pública sobre o assunto - apresentada numa conferência num barracão anexo à Faculdade de Enologia do Cartaxo - é a seguinte: Deus criou os dinossáurios mas, como eram grandes, estúpidos e estavam a demorar demasiado tempo a reconhê-Lo como criador, destruiu-os e começou com coisas mais pequenas, peludas e simpáticas. Como teoria, acho suficientemente plausível.
Como também considero que o problema da existência e do(s) seu(s) sentido(s) não é do foro antropológico (i.e., não corresponde, por essência, a uma pergunta de natureza regressiva e paleontológica, mas antes a um quesito que se formula num aqui e agora) as teorias supra-mencionadas são, para mim, assuntos puramente académicos se consequências absolutamente nenhumas na análise existencial propriamente dita (a qual, por mais dolorosa que seja, é a única que verdadeiramente interessa). Ainda assim, achei divertido - por diversos motivos, certamente inteligíveis para os meus dois ou três leitores - seguir o espacamento argumentativo a que o Desidério Murcho tem sido sujeito no seu site de propaganda analítica. Para aqueles que não conhecem o recanto panfletário do rapaz, aqui fica o link, directamente apontado para a secção dos comentários, onde a experiência masóquista de D. M. pode ser seguida (vide combate Jónatas-DesidérioeRestantesAcólitos).

sexta-feira, novembro 18, 2005

Como não ouvi rádio esta semana (o trabalho, estudo e obras não têm fim à vista), sugiro alguns singles que ouvi na Radar, nos últimos tempos, e que gostei.

  1. The Strokes, "Juicebox" (a figurar no novo álbum dos Strokes, por editar. Uma saudável viragem depois do Room on Fire, demasiado colado, na minha opinião, ao Is This It)
  2. The Fiery Furnaces, "Sing For Me", EP. (um dos melhores e mais viciantes singles do ano, a par do Hey Now Now, dos Cloud Room)
  3. The Kills, "The Good Ones", No Wow.
  4. Sufjian Stevens, "Chicago", Illinois. (Este rapaz tem como finalidade auto-imposta a gravação de um álbum por cada estado americano... Se todos forem tão bons como Illinois...)
  5. Anthony and the Johnsons, "Hope There's Someone", I Am a Bird Now.

Hope there's someone

Who'll take care of me
When I die, will I go
Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired
There's a ghost on the horizon
When I go to bed
How can I fall asleep at night
How will I rest my head
Oh I'm scared of the middle place
Between light and nowhere
I don't want to be the one
Left in there, left in there
There's a man on the horizon
Wish that I'd go to bed
If I fall to his feet tonight
Will allow rest my head
So here's hoping I will not drown
Or paralyze in light
And god send I don't want to go
To the seal's watershed
Hope there's someone
Who'll take care of me
When I die,
Will I go
Hope there's someone
Who'll set my heart free
Nice to hold when I'm tired

Contemporary Camons....

quinta-feira, novembro 17, 2005

Pobretes mas Alegretes!

Manuel Alegre. De todos os cantos surgem indefectíveis apoiantes à candidatura de Manuel Alegre à presidência disto. O Pacman dos Da Weasel, o Pedro Abrunhosa, o Jorge Costa e todo um séquito de mini-trampolins mediáticos dispostos a empurrar Alegre para Belém.
Confesso alguma curiosidade em perceber o fenómeno Alegre. Ao contrário de muitos ignaros que elogiam a sua escrita num desconhecimento absoluto da obra, já li o suficiente de Alegre para ter a certeza que a espuma dos dias não lhe granjeará a imortalidade provisória que qualquer artista almeja. Pelo contrário. É um versejador com algum engenho, mas absolutamente insuficiente para conseguir arrancar do fundo da vida algum elemento digno de ser partilhado. Numa metáfora piscatória, diria que pesca, sim senhor, mas só tainhas.
Quanto à sua actividade nos últimos trinta anos, perdi algum tempo no site do próprio a tentar perceber o que o senhor faz pela vida:
"Entra no Partido Socialista onde, ao lado de Mário Soares, promove as grandes mobilizações populares que permitem a consolidação da democracia e a aprovação da Constituição de 1976, de cujo preâmbulo é redactor. Deputado por Coimbra em todas as eleições desde 1975 até 2002 e por Lisboa a partir de 2002, participa esporadicamente no I Governo Constitucional de Mário Soares. Dirigente histórico do PS desde 1974, é Vice-Presidente da Assembleia da República desde 1995 e é membro do Conselho de Estado (de 1996 e 2002 e de novo em 2005). É candidato a Secretário-geral do PS em 2004, naquele que foi o mais participado Congresso partidário de sempre."
A minha curiosidade está satisfeita. O senhor Manuel Alegre é um dos inúmeros conquistadores de dívidas eternas de gratidão, à boa moda portuguesa. Explico-me. Nesta terreola insalubre e mal frequentada, a quantidade de sucesso que se obtém, a nível pontual, é directamente proporcional à quantidade de tempo que se pode passar de pernas em cima da secretária - qualquer uma delas - a coçar o perímetro do umbigo, ou outros órgãos fronteiriços, sem fazer nada que mereça a pena ser contado sem incorrer numa vergonha muda pela inanidade própria. É assim desde que me lembro. Com artistas, intelectuais, políticos, etc. Uma vez no pódio, mesmo que em terceiro lugar, nunca mais permitem à memória colectiva o saudável e merecido esquecimento. E continuam a lembrar o favor que prestaram e a cobrar altíssimos juros de mora. Tudo dentro da aceitação geral e óbvio consentimento colectivo.
Este senhor, que de 1976 até hoje publicou livritos de enternecer velhas e se sentou confortavelmente num assento da assembleia, pede o meu voto, o voto dos portugueses, para se poder mudar de São Bento para Belém e, num acesso de estética incontrolado, talvez mudar a cor das janelas ou a disposição da secretária - qualquer uma das duas.

segunda-feira, novembro 14, 2005

A irracionalidade política

Tenho, normalmente, um profundo desprezo pelos políticos. Quando sou obrigado a assistir a alguns momentos de um debate político tenho uma sensação próxima daquela que Oliver Sacks relata num dos textos do excelente livro "O homem que confundiu a mulher com um chapéu" e que versa sobre os afásicos; ao que parece, alguns afásicos têm uma surdez intelectiva no que concerne a linguagem - i.e., são incapazes de perceber o sentido de uma frase, mesmo que tenham adquirido competências linguísticas - mas, por outro lado, intuem a motivação do falante, mesmo que este tente dissimulá-la no discurso e na postura corporal. Isto é, são, para além de excelentes detectores de trampa, hábeis stripers do véu de Maya alheio. O Senhor não me agraciou com o bullshit detector dos afásicos, porque viu, em boa hora, que, no que toca à conversa dos nossos políticos, não era preciso ir tão longe na sofisticação do mentirómetro. Bastam alguns neurónios funcionais entre as orelhas.
Este pequeno intróito serve para introduzir o meu mais genuíno espanto quando soube das intenções eleitorais do meu sogro. O meu sogro, feroz defensor do PS e milante orgulhoso desde os 70 e qualquer coisa disse, aquando do anúncio da candidatura de Mário Soares à presidência, disse aquilo que toda a gente disse ou pensou: "mas o velhote passou-se? estará bom do juízo? não tem nada melhor para fazer? com a idade dele? etc." Vindo do meu sogro, esta afirmação tem um peso redobrado: não só achava estúpida e despropositada a candidatura de Soares como atestava, nas entrelinhas, uma espécie de tristeza pelo facto de o PS ser incapaz de produzir um candidato capaz e dento do prazo de validade. Para mim, Soares é uma questão simples: a sua não eleição, nas palavras de um amigo meu, "é uma questão de saneamento básico". Nada de mais pragmático e saudável.
Na Sexta-feira passada, entre uma garfada de bacalhau e um naco de broa, perguntei-lhe, numa curiosidade de entreter conversa, quem iria ele agraciar com o seu voto (estava convencido que a sua costela vermelha ia ditar Alegre). De olhos postos no prato, murmurou "Soares". Engasgado de estupefação e bacalhau, voltei a inquiri-lo. Soares? O mesmo Soares que apenas há duas semanas considerava ser a pior escolha do PS para candidato? O Velho Tonto, como o apelidara? Mas... mas porquê, se me é permitido saber? O meu sogro, que nunca perdeu de vista o prato ou o pão desde que começara a falar disse-me que era um voto útil, para Cavaco não ser eleito, mas que não queria que Soares ganhasse, ainda assim. Prontamente repliquei que voto útil por voto útil tinha o Alegre, o Jerónimo, o Louça, caramba, até o advogado do Bibi entra - ainda que na categoria de peso-mosca-varejeira - na corrida... A este comentário obtive uma resposta que silenciou qualquer possibilidade subsequente de conversa: "olha, passas-me o pão?" e os candidatos escusaram-se da mesa.
A política, "a mais nobre actividade do homem", sempre me pareceu ser permanentemente aquilo que para Guterres, em fim de reinado, caracterizava como sendo uma conjunctura desfavorável temporária: um pântano. Acreditava que os últimos cinco anos de vida política do país apenas tinham revelado parte - ainda assim, uma parte esclarecedora - do grande logro da boa-fé política e das intenções de recuperação de Portugal. Acreditava que as pessoas estavam enjoadas de tanto mau serviço colectivo prestado pelos azelhas que, rotativos em conteúdo e constantes na execução formal, tardavam em desaparecer de cena e em serem substituídos por azelhas menos ganaciosos. Acreditava que algumas decisões de voto - nomeadamente as presidenciais e as autárquicas - eram movidas por razões mais ou menos ponderadas e não por manifesta e inexplicável clubite, como é caso das legislativas. Pelos vistos, não devo desconfiar exclusiva e primeiramente dos políticos, mas sim dos eleitores. Esses sim, imbuídos de um hipnotismo imcompreensível, são capazes de qualquer disparate, por monocromia crónica.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Top 5 semanal - Radar 97.8 FM

Algumas permutas nesta semana (factor obras, tédio e orçamento):
  1. The Cloud Room, "Hey now now", The Cloud Room
  2. Juliet, "Avalon", Random Order.
  3. dEUS, "7 days, 7 weeks", Pocket Revolution.
  4. The Editors, "Bullets", The Back Room.
  5. Joy Division, "Love will tear us apart", Heart and Soul. (resquícios do visionamento do Donnie Darko - Director's cut)

Joy Division - Love will tear us apart.

When the routine bites hard
And ambitions are low
And the resentment rides high
But emotions won’t grow
And we’re changing our ways,
Taking different roads

Then love, love will tear us apart again

Why is the bedroom so cold
Turned away on your side?
Is my timing that flawed,
Our respect run so dry?
Yet there’s still this appeal
That we’ve kept through our lives

Love, love will tear us apart again

Do you cry out in your sleep
All my failings expose?
Get a taste in my mouth
As desperation takes hold
Is it something so good
Just can’t function no more?

When love, love will tear us apart again

quinta-feira, novembro 03, 2005

Entre um tijolo e o estuque - o fungo analítico...

O mal pode atacar qualquer casa. Desde os edifícios pombalinos da Baixa até às torres gémeas do Parque das Nações. A imunidade nunca está garantida, por mais rigorosa que seja a planificação, por melhor construída e acabada a obra.
De entre todos os preparos especiais, deve ter-se em conta a aplicação de dois componentes indispensáveis à preservação do corpus do edifício: 1. O repelente anti-óbvio, dado que a proteína polimórfica do óbvio e a sugestão forte que exerce é o primeiro estímulo à invasão e posterior contaminação dos alicerces (no fundo, o mesmo mecanismo de contágio do senso-comum, mas envolvido por uma lustrosa capa de aparente cientificidade) e 2. A aplicação de um primário com propriedades isolantes relativas ao discurso anti-exegético, anti-alemão, anti-francês, i.e., toda e qualquer retórica globalizante que pretenda reduzir a filosofia não analítica a um exercício de escavação de fosséis desinteressantes e sobejamente conhecidos (e aqui entra, naturalmente, e como adjuvante, a proteína do óbvio).
Não é difícil de antever que o fungo analítico seja passageiro. Tamanha ignorância não pode grassar durante muito tempo. Difícil será a previsão dos seus efeitos a curto/médio prazo. Para além de promover uma reverenciação acrítica dos resultados científicos e contribuir para o crescente endeusamento da ciência no que toca o conhecimento do homem em geral e do si-próprio em particular (campos naturalmente estanques, do ponto de vista estritamente filosófico, à ciência), fomenta de igual modo a facilitação contemporânea do conhecimento. Tudo deve ser simples, directo, linear, sem gradações ou subtilezas de compreensão. Não se perca tempo em análises de textos antigos ou em traduções de autores (excepto os de lingua inglesa, obviamente). Qualquer obscuridade ou pormenor interpretativo, num texto, é tratado como se a deficiência fosse do autor e não estivesse na limitação do exegeta. É esta a filosofia de bolso da contemporaneidade: opina sobre tudo, com profundidade rasa, com alcance limitado e ancora-se na autoridade científica, extrapolando resultados com a boa-fé e a esperteza de uma colegial mediana.
Protejam-se, acautelem-se, usem vestimentos apropriados ao manuseamento dos escolhos de edifícios contaminados. O perigo é geral. A qualquer momento, tudo pode cair.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Obras!!!!

Literalmente. Voltamos assim que largarmos a rebarbadora e tirarmos o estuque do cabelo. Esperamos ser breves.