Tenho, normalmente, um profundo desprezo pelos políticos. Quando sou obrigado a assistir a alguns momentos de um debate político tenho uma sensação próxima daquela que Oliver Sacks relata num dos textos do excelente livro "O homem que confundiu a mulher com um chapéu" e que versa sobre os afásicos; ao que parece, alguns afásicos têm uma surdez intelectiva no que concerne a linguagem - i.e., são incapazes de perceber o sentido de uma frase, mesmo que tenham adquirido competências linguísticas - mas, por outro lado, intuem a motivação do falante, mesmo que este tente dissimulá-la no discurso e na postura corporal. Isto é, são, para além de excelentes detectores de trampa, hábeis stripers do véu de Maya alheio. O Senhor não me agraciou com o bullshit detector dos afásicos, porque viu, em boa hora, que, no que toca à conversa dos nossos políticos, não era preciso ir tão longe na sofisticação do mentirómetro. Bastam alguns neurónios funcionais entre as orelhas.
Este pequeno intróito serve para introduzir o meu mais genuíno espanto quando soube das intenções eleitorais do meu sogro. O meu sogro, feroz defensor do PS e milante orgulhoso desde os 70 e qualquer coisa disse, aquando do anúncio da candidatura de Mário Soares à presidência, disse aquilo que toda a gente disse ou pensou: "mas o velhote passou-se? estará bom do juízo? não tem nada melhor para fazer? com a idade dele? etc." Vindo do meu sogro, esta afirmação tem um peso redobrado: não só achava estúpida e despropositada a candidatura de Soares como atestava, nas entrelinhas, uma espécie de tristeza pelo facto de o PS ser incapaz de produzir um candidato capaz e dento do prazo de validade. Para mim, Soares é uma questão simples: a sua não eleição, nas palavras de um amigo meu, "é uma questão de saneamento básico". Nada de mais pragmático e saudável.
Na Sexta-feira passada, entre uma garfada de bacalhau e um naco de broa, perguntei-lhe, numa curiosidade de entreter conversa, quem iria ele agraciar com o seu voto (estava convencido que a sua costela vermelha ia ditar Alegre). De olhos postos no prato, murmurou "Soares". Engasgado de estupefação e bacalhau, voltei a inquiri-lo. Soares? O mesmo Soares que apenas há duas semanas considerava ser a pior escolha do PS para candidato? O Velho Tonto, como o apelidara? Mas... mas porquê, se me é permitido saber? O meu sogro, que nunca perdeu de vista o prato ou o pão desde que começara a falar disse-me que era um voto útil, para Cavaco não ser eleito, mas que não queria que Soares ganhasse, ainda assim. Prontamente repliquei que voto útil por voto útil tinha o Alegre, o Jerónimo, o Louça, caramba, até o advogado do Bibi entra - ainda que na categoria de peso-mosca-varejeira - na corrida... A este comentário obtive uma resposta que silenciou qualquer possibilidade subsequente de conversa: "olha, passas-me o pão?" e os candidatos escusaram-se da mesa.
A política, "a mais nobre actividade do homem", sempre me pareceu ser permanentemente aquilo que para Guterres, em fim de reinado, caracterizava como sendo uma conjunctura desfavorável temporária: um pântano. Acreditava que os últimos cinco anos de vida política do país apenas tinham revelado parte - ainda assim, uma parte esclarecedora - do grande logro da boa-fé política e das intenções de recuperação de Portugal. Acreditava que as pessoas estavam enjoadas de tanto mau serviço colectivo prestado pelos azelhas que, rotativos em conteúdo e constantes na execução formal, tardavam em desaparecer de cena e em serem substituídos por azelhas menos ganaciosos. Acreditava que algumas decisões de voto - nomeadamente as presidenciais e as autárquicas - eram movidas por razões mais ou menos ponderadas e não por manifesta e inexplicável clubite, como é caso das legislativas. Pelos vistos, não devo desconfiar exclusiva e primeiramente dos políticos, mas sim dos eleitores. Esses sim, imbuídos de um hipnotismo imcompreensível, são capazes de qualquer disparate, por monocromia crónica.