Entre um tijolo e o estuque - o fungo analítico...
O mal pode atacar qualquer casa. Desde os edifícios pombalinos da Baixa até às torres gémeas do Parque das Nações. A imunidade nunca está garantida, por mais rigorosa que seja a planificação, por melhor construída e acabada a obra.
De entre todos os preparos especiais, deve ter-se em conta a aplicação de dois componentes indispensáveis à preservação do corpus do edifício: 1. O repelente anti-óbvio, dado que a proteína polimórfica do óbvio e a sugestão forte que exerce é o primeiro estímulo à invasão e posterior contaminação dos alicerces (no fundo, o mesmo mecanismo de contágio do senso-comum, mas envolvido por uma lustrosa capa de aparente cientificidade) e 2. A aplicação de um primário com propriedades isolantes relativas ao discurso anti-exegético, anti-alemão, anti-francês, i.e., toda e qualquer retórica globalizante que pretenda reduzir a filosofia não analítica a um exercício de escavação de fosséis desinteressantes e sobejamente conhecidos (e aqui entra, naturalmente, e como adjuvante, a proteína do óbvio).
Não é difícil de antever que o fungo analítico seja passageiro. Tamanha ignorância não pode grassar durante muito tempo. Difícil será a previsão dos seus efeitos a curto/médio prazo. Para além de promover uma reverenciação acrítica dos resultados científicos e contribuir para o crescente endeusamento da ciência no que toca o conhecimento do homem em geral e do si-próprio em particular (campos naturalmente estanques, do ponto de vista estritamente filosófico, à ciência), fomenta de igual modo a facilitação contemporânea do conhecimento. Tudo deve ser simples, directo, linear, sem gradações ou subtilezas de compreensão. Não se perca tempo em análises de textos antigos ou em traduções de autores (excepto os de lingua inglesa, obviamente). Qualquer obscuridade ou pormenor interpretativo, num texto, é tratado como se a deficiência fosse do autor e não estivesse na limitação do exegeta. É esta a filosofia de bolso da contemporaneidade: opina sobre tudo, com profundidade rasa, com alcance limitado e ancora-se na autoridade científica, extrapolando resultados com a boa-fé e a esperteza de uma colegial mediana.
Protejam-se, acautelem-se, usem vestimentos apropriados ao manuseamento dos escolhos de edifícios contaminados. O perigo é geral. A qualquer momento, tudo pode cair.

1 Comments:
Filosofia Analítica ruleia, pá!
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