segunda-feira, novembro 14, 2005

A irracionalidade política

Tenho, normalmente, um profundo desprezo pelos políticos. Quando sou obrigado a assistir a alguns momentos de um debate político tenho uma sensação próxima daquela que Oliver Sacks relata num dos textos do excelente livro "O homem que confundiu a mulher com um chapéu" e que versa sobre os afásicos; ao que parece, alguns afásicos têm uma surdez intelectiva no que concerne a linguagem - i.e., são incapazes de perceber o sentido de uma frase, mesmo que tenham adquirido competências linguísticas - mas, por outro lado, intuem a motivação do falante, mesmo que este tente dissimulá-la no discurso e na postura corporal. Isto é, são, para além de excelentes detectores de trampa, hábeis stripers do véu de Maya alheio. O Senhor não me agraciou com o bullshit detector dos afásicos, porque viu, em boa hora, que, no que toca à conversa dos nossos políticos, não era preciso ir tão longe na sofisticação do mentirómetro. Bastam alguns neurónios funcionais entre as orelhas.
Este pequeno intróito serve para introduzir o meu mais genuíno espanto quando soube das intenções eleitorais do meu sogro. O meu sogro, feroz defensor do PS e milante orgulhoso desde os 70 e qualquer coisa disse, aquando do anúncio da candidatura de Mário Soares à presidência, disse aquilo que toda a gente disse ou pensou: "mas o velhote passou-se? estará bom do juízo? não tem nada melhor para fazer? com a idade dele? etc." Vindo do meu sogro, esta afirmação tem um peso redobrado: não só achava estúpida e despropositada a candidatura de Soares como atestava, nas entrelinhas, uma espécie de tristeza pelo facto de o PS ser incapaz de produzir um candidato capaz e dento do prazo de validade. Para mim, Soares é uma questão simples: a sua não eleição, nas palavras de um amigo meu, "é uma questão de saneamento básico". Nada de mais pragmático e saudável.
Na Sexta-feira passada, entre uma garfada de bacalhau e um naco de broa, perguntei-lhe, numa curiosidade de entreter conversa, quem iria ele agraciar com o seu voto (estava convencido que a sua costela vermelha ia ditar Alegre). De olhos postos no prato, murmurou "Soares". Engasgado de estupefação e bacalhau, voltei a inquiri-lo. Soares? O mesmo Soares que apenas há duas semanas considerava ser a pior escolha do PS para candidato? O Velho Tonto, como o apelidara? Mas... mas porquê, se me é permitido saber? O meu sogro, que nunca perdeu de vista o prato ou o pão desde que começara a falar disse-me que era um voto útil, para Cavaco não ser eleito, mas que não queria que Soares ganhasse, ainda assim. Prontamente repliquei que voto útil por voto útil tinha o Alegre, o Jerónimo, o Louça, caramba, até o advogado do Bibi entra - ainda que na categoria de peso-mosca-varejeira - na corrida... A este comentário obtive uma resposta que silenciou qualquer possibilidade subsequente de conversa: "olha, passas-me o pão?" e os candidatos escusaram-se da mesa.
A política, "a mais nobre actividade do homem", sempre me pareceu ser permanentemente aquilo que para Guterres, em fim de reinado, caracterizava como sendo uma conjunctura desfavorável temporária: um pântano. Acreditava que os últimos cinco anos de vida política do país apenas tinham revelado parte - ainda assim, uma parte esclarecedora - do grande logro da boa-fé política e das intenções de recuperação de Portugal. Acreditava que as pessoas estavam enjoadas de tanto mau serviço colectivo prestado pelos azelhas que, rotativos em conteúdo e constantes na execução formal, tardavam em desaparecer de cena e em serem substituídos por azelhas menos ganaciosos. Acreditava que algumas decisões de voto - nomeadamente as presidenciais e as autárquicas - eram movidas por razões mais ou menos ponderadas e não por manifesta e inexplicável clubite, como é caso das legislativas. Pelos vistos, não devo desconfiar exclusiva e primeiramente dos políticos, mas sim dos eleitores. Esses sim, imbuídos de um hipnotismo imcompreensível, são capazes de qualquer disparate, por monocromia crónica.

10 Comments:

At 18:46, Blogger Helder Mendes said...

Poisépoisépoisé... nestas eleições, só há um voto útil... o voto em branco.

 
At 13:21, Anonymous Anónimo said...

Lembro-me que alguém disse uma vez durante a primeira campanha do Bill Clinton (penso que o Michael Stipe) que tinha imensas saudades de votar em quem quisesse realmente votar, em vez de ser porque não queria que algum outro f.d.p. ganhasse. Virtude ou vício da democracia?

Por outro lado, um amigo meu com propensão para as matemáticas explicou-me uma vez que o sistema democrático baseado na simples contagem de votos é extremamente injusto. E que mesmo matematicamente é possível arranjar um sistema que ajuste os números à nossa intenção. É o que ele chama de "festival da canção", a atribuição de votos por classificação. Tipo "dou 10 votos a Cavaco, 5 a Soares, etc." ou então "Vinte votos a Louçã, 1 para Cavaco, 1 para Soares, etc." Estatisticamente, este sistema tenta ir de encontro ao nosso problema quando pesamos prós e contras, e acabamos a admitir votar em quem não queremos, enquanto deglutimos bacalhau.

Eu cá, sigo o sistema Jardim nas minhas campanhas. "Votem em mim senão..."

 
At 17:17, Anonymous Anónimo said...

O seu amigo tinha provavelmete lido o livro do Jorge Buescu "O mistério do B.I. e outras histórias"

 
At 00:21, Anonymous Anónimo said...

1º o método não é "do Buescu" - é uma evidência matemáatica; 2º não é uma imbecilidade.

 
At 08:50, Anonymous Anónimo said...

Claro que, admito que toda a gente sabe mais ou menos o que se está a passar. O meu querido líder andou outra vez a ler Maquiavel, e compreendeu que mil vezes ter um Cavaco do que um Soares como Presidente. E assim, apressou-se a anunciar publicamente o apoio do Partido a Soares, para comprometê-lo e para mostrar às pessoas que Soares e PS são um só - o que faria com que Soares levasse com todo o azedume que tem sido destilado com as medidas do governo. E lá está o Alegre, para ainda por cima humilhá-lo, ao mesmo tempo dividindo as fileiras do PS, tornando-o muito mais fácil de gerir.

Este homem tem de facto o dom maquiavélico, misturado com a ironia própria do nome. Basta ver que este foi o mesmo truque que ele aplicou a Carrilho e Soares Jr., dois eventuais opositores que foram postos fora de acção pelas autárquicas.

Ainda bem que ele não se virou para o meu lado, senão ia haver molho...

 
At 07:53, Anonymous Anónimo said...

Calma aí, Mr. Spiegelman:

a democracia concretiza-se na matemática, por muito que isso nos irrite. Um método de contagem simples continua a ser um método matemático. Toda a discussão política admite em si mesma que é apenas depois de uma contagem que se vê o que vai acontecer no país. Não há nada nisto que não seja matemático. E quem andou minimamente envolvido com organizações partidárias a nível local já deve ter assistido pelo menos uma vez ao escândalo de ver candidatos a inscrever 500 ou 1000 novos militantes que surgem do nada, uma semana antes das eleições.

Aliás, creio que em Oeiras, nas autárquicas, chegou-se a falar de carrinhas alugadas pelo actual Presidente para ir buscar idosos aos bairros periféricos para ir votar.

Tudo isto é na sua base matemático, não?

E de qualquer modo não há absolutamente nada presente em termos de convicções quando se entra numa assembleia de voto para votar num tipo que não queremos, a fim de que não ganhe outro tipo que não queremos.

Quanto ao método de Borda: dar um ponto ao partido que não queremos pode ser, ao mesmo tempo, admiti-lo como opção democrática. Não voto neles, mas eles estão integrados no sistema. De qualquer forma, da maneira que está, há sempre abusos e "traições". Ainda estou para ver se todos os candidatos da esquerda chegam ao fim, ou se se vão suceder as desistências para que Cavaco não ganhe.

 
At 10:12, Anonymous Anónimo said...

Hmmm... concordo em umas coisas e noutras não. Vou tentar ir por partes, e vamos ver se faz algum sentido.

1. Eu não defendo pessoalmente o método de Borda, visto que aceito as falhas óbvias, que Mr. Spiegelman apontou. É claro que nunca iria funcionar a não ser numa sociedade de pessoas que tivesse para já consciência das implicações do método e das consequências da abstenção. Quanto a isso, entendidos: todos os projectos utópicos, mais que serem fantasistas por postularem o governante perfeito, são-no por postularem um "cidadão perfeito", que em última análise podemos ficar aqui a discutir, porque a "grunhice" é própria do ser humano, e o cidadão perfeito não pode existir, blá,blá.

2. Assim vejo o Borda como um "gedanken experiment" que apenas serve para colocar o método do voto democrático numa outra luz.

3. Para dar um exemplo: no caso do concelho de Oeiras (onde não voto mas conheço gente que vota) houve a convicção, parece-me, de algum eleitorado de esquerda, que o candidato do PS parecia pela primeira vez capaz de sobressaír, graças talvez a uma certa imagem que deu nos debates televisivos. Contudo, a bipolarização entre a Teresinha (PSD) e o Isaltino (ex-PSD) extremou as coisas de tal modo que esse mesmo eleitorado viu-se obrigado, a custo de muita úlcera de estômago,a votar PSD para que não houvesse mais 4 anos Morais. Em que medida podemos falar das convicções nestes casos? É um dilema interessante porque as convicções pessoais acabam por ser presa de tipos de raciocínio de Teoria de Jogos (novamente a matemática). E neste caso em particular, seria interessante considerar possíveis resultados com o método de Borda.

4. Só para acrescentar: Teoria de Jogos funciona à base do desconhecimento mútuo, ou seja, uma acção é levada a cabo tendo em conta aquilo que admitimos (mas desconhecemos) que os outros jogadores vão fazer. Isto tem duas consequências: por um lado, tudo se torna estatístico, de facto; por outro, o fluxo de informação, sob a forma de sondagens ou boatos adquire uma importância que talvez não devesse ter.

5. Não sou um fanático da matemática, pelo contrário. Mas justamente por causa disso, fascina-me o modo como a matemática se insinua em coisas que em princípio ficariam fora do seu âmbito.

6. Paralelo a este problema (ou talvez seja o mesmo), há a questão do Racional vs. Emotivo. O caso de Oeiras é um caso puramente racional; mas as convicções de Mr. Spiegelman parecem presentes num campo afectivo (e nada mais natural, isto não é uma crítica). Mas pode-se pôr a questão ao eleitorado de esquerda, para as Presidenciais, sobre como decidir. Em particular estou curioso com a ala dura, dividida em três candidaturas. É provável que M.A. vá buscar votos ao BE, PCP, e PS. Votos de convicção, ou de raciocínio?

cheers

 
At 15:08, Anonymous Anónimo said...

Pois é, mas atenção, é que se começamos a falar do que o povo português deveria fazer, caímos novamente na discussão sobre o Borda. Da mesma maneira que o meu caro Mr. Spiegelamn não quer dar o seu voto a determinado candidato, pode-se argumentar que o povo português tem o direito de não ser chateado pelas instituições democráticas que lhe pedem para votar.

Discussões sobre o "que se deve fazer" em democracia são complicadas pela razão que apresentou para não aceitar o método Borda. Como é possível que algo seja simultaneamente um direito e um dever?

Democracia é querer que não nos chateiem...

 
At 17:24, Blogger radioapilhas said...

Blog obscuro... enfim... está bem.

 
At 10:04, Anonymous Anónimo said...

Sim, com comentadores como nós, em breve vais estar mais famoso que o Abrupto.

 

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