sexta-feira, maio 12, 2006

A Filatelia, esse negócio (injustamente) esquecido.

Confesso que em miúdo nutria um fascínio filatélico cujo desmame - relativamente rápido, graças aos jogos informáticos e às raparigas de tenra idade - só contribuiu para desacelerar a minha tendência obsessiva relativamente ao coleccionismo. Nessa altura imaginava que o apogeu filatélico seria a descoberta de um selo do final do séc. XIX, inglês, de preferência (a singeleza do perfil de Sua Majestade em garridos tons pop seduzia-me muito mais do que as edições comemorativas limitadas, igualmente valiosas) e, para não deixar de fora da valise onírica nenhum pormenor, o selo teria de apresentar um pequeno defeito de impressão, filatelicamente reconhecido, que triplicasse o seu valor. Imaginava-me a calcorrear os sotãos dos velhotes da rua à procura de namoriscos por correspondência com virtuosas moçoilas britânicas desconhecedoras do valor dos selos e do futuro. Como todos os coleccionadores tímidos, finquei pé na fantasia da descoberta sem nunca ter tido coragem para bater à porta de ninguém.
A recente polémica instalada em redor do "caso dos selos" fez-me, ainda que por momentos, recordar os sonhos de riqueza fácil que os meninos nutrem. Além da conveniência da exequibilidade (porque os sonhos das crianças são realizáveis pela vontade), o facto de ter a certeza absoluta de que o selo estaria na minha rua, numa arca empoeirada repleta de memórias timbradas fazia do sonho filatélico de riqueza uma possibilidade tão válida como descobrir diamantes em bruto no quintal (de notar que sendo a terra vulcânica, as supeitas não eram de todo infundadas...) Não se percebe, no entanto, como é que a fantasia de riqueza instântanea sobrevive à turbulência adolescente da descoberta do subtexto do mundo, e menos se compreende como é que ela se instala viralmente à espera de espoletar uma "febre do ouro" em adultos aparentemente sãos. Só a total má-fé aliada à incompreensão dos mecanismos básicos da produção de riqueza podem explicar, ainda que de forma superficial, como é que alguém, nestes dias e nestas condições económicas, acredita em juros de 40% em quatro anos. Talvez daqui a uns anos, quando o tumulto da crise por ingerência do cérebro próprio passar, se possa editar uma série de selos comemorativa da crise filátelico-monetária de 2006. Talvez com um desenho de um asno, à guisa do expressionismo - para não ofender ninguém -, e a inscrição "2006 - Ano do Investidor Idiota". Talvez ainda venha a valer uns trocos...

terça-feira, maio 09, 2006

A beleza do Kinder pós-moderno...

Normalmente só recebo lixo electrónico. O meu email funciona ao modo de um buraco negro à volta do qual gravitam as piadunchas mais rascas do universo. De vez em quando, de entre os forwards indescriminados que recebo, aparece qualquer coisa de jeito. Uma piada. Um autêntico momento zen que entrecorta a modorra do quotidiano. Este é um deles.



quinta-feira, maio 04, 2006

Tipos e tipas...

De quem tenho saudades:

  • O Eminentíssimo Reverentíssimo Professor Alexandrino, sumidade na área da parapsicologia e comédia mundialmente reconhecido (excepto, talvez, no Baixo Alentejo(tansos)). Onde encafuaram esse personagem que tanto coloria de saber e gargalhadas a vida alheia? Certamente "firme e hirto como uma barra de ferro" por aí...
  • A Margarida do Bar da Tv e respectivos familiares (o pai que trazia uma gravata preta em sinal de luto pela inocência da moçoila e que só havia comido uma "sande" pelo caminho e a mãe que fazia questão de referir que os "22 anos de amor" pela sua primógenita acabavam ali e naquele momento). Um dos mais incríveis momentos da televisão portuguesa e, arrisco-me a dizer, de qualquer televisão do mundo (aquele sotaque, em directo, é impagável).
  • O Pedro Santana Lopes, que disse que ia andar por aí. Tenho saudades de como ele aparecia na televisão sempre como se houvesse acabado de sair da piscina (a sua aerodinâmica capilar era única no mundo).
  • O "Homem das Banheiras". Um erudito da bola que apareceu no programa "a Liga dos Últimos". Além da complexa conceptualização do fenómeno do futebol tornada simples, o homem tinha qualquer coisa de trágico-poético que não deixava ninguém indiferente. Mais um diamante em bruto desperdiçado...
  • A Pomba-qualquer-coisa (frutuosa? milagrosa? - é especilmente difícil esquecer um nome quando se gosta de alguém). Esta tipa apresentava-se como uma versão melhorada e desmunida de projector de vómito da rapariguinha do exorcista. Nela entravam - salvo seja - os mais diversos espíritos (desde que mediáticos, que o espírito não é a barraca da Joana) e através dela soavam os ecos do além-mundo (e, pelo que ouvi, gostei). Ninguém tem o email o ou contacto espiritual directo da senhora?
  • O Almeida Santos. Alguns podem franzir o sobrolho ou torcer o nariz a esta escolha. Dêem-me o benefício da demonstração. O Almeida Santos é um homem excepcional. É um político que diz o que pensa e não que pensa no que diz (se o fizesse provavelmente não o diria). Num país em que o sistema de progressão vertical de carreira está fundado na mentira e no disfarce como ferramentas fundamentais, o Almeida Santos é um epifenómeno que deve ser louvado e cujo exemplo de "honestidade até às últimas consequências" deve ser seguido por todos os políticos. O homem consegue dizer, sem uma nesga de pudor ou comédia que "se Jesus nascesse agora, seria socialista e maçon." Se este homem não merece a Cruz do Infante D. Henrique ( e a cruz ficar-lhe-ia tão bem), não sei quem a pode merecer. Outra pérola dita pouco antes da sua deposição como presidente da Assembleia da República: "ser deputado é um óptimo emprego (no kidding...). Para além de se ser bem pago, quem é de fora da capital ainda tem a facilidade de manter relações extra-conjugais sem demasiado alarido..." Quem é honesto assim vai para o Céu, certamente, ter com o Grande Camarada e senta-se ao seu lado direito (...ou esquerdo?).

quarta-feira, maio 03, 2006

Depois das cinzas... outro cigarro

Não sei, sinceramente, o que me leva a escrever um blogue. Talvez subsista em mim um secreto desejo de admiração que se manifesta à revelia do cinismo misantropo. Talvez isto que para aqui vai seja o subproduto episódico e fragmentado de um tédio incurável. Em todo o caso, deve haver uma razão, porque razões as há para tudo e até para aquilo que as dispensa.
E ainda que consiga admitir que sim a tudo isto, ainda que assuma de peito elevado a minha dependência intersubjectiva e grite
baixinho
um silvo de grito minúsculo arrancado como um tumor imberbe
que sim, que sou isto, pequeno, insatisfeito, permanentemente a ciganar a minha presença na vista alheia, à procura de uma estaca, de uma âncora, de um resto de carinho que sirva de lastro, ainda que eu seja isso tudo e menos que isso é, porquê revelá-lo? Porquê atirar a areia da existência de mim a qualquer pupila internaútica que por aqui paste ocasionalmente, por distração ou por tédio?
Aqui reside a dificuldade: ser-se o funcionário permanente de si-próprio sem se despedir.