A Filatelia, esse negócio (injustamente) esquecido.
Confesso que em miúdo nutria um fascínio filatélico cujo desmame - relativamente rápido, graças aos jogos informáticos e às raparigas de tenra idade - só contribuiu para desacelerar a minha tendência obsessiva relativamente ao coleccionismo. Nessa altura imaginava que o apogeu filatélico seria a descoberta de um selo do final do séc. XIX, inglês, de preferência (a singeleza do perfil de Sua Majestade em garridos tons pop seduzia-me muito mais do que as edições comemorativas limitadas, igualmente valiosas) e, para não deixar de fora da valise onírica nenhum pormenor, o selo teria de apresentar um pequeno defeito de impressão, filatelicamente reconhecido, que triplicasse o seu valor. Imaginava-me a calcorrear os sotãos dos velhotes da rua à procura de namoriscos por correspondência com virtuosas moçoilas britânicas desconhecedoras do valor dos selos e do futuro. Como todos os coleccionadores tímidos, finquei pé na fantasia da descoberta sem nunca ter tido coragem para bater à porta de ninguém.
A recente polémica instalada em redor do "caso dos selos" fez-me, ainda que por momentos, recordar os sonhos de riqueza fácil que os meninos nutrem. Além da conveniência da exequibilidade (porque os sonhos das crianças são realizáveis pela vontade), o facto de ter a certeza absoluta de que o selo estaria na minha rua, numa arca empoeirada repleta de memórias timbradas fazia do sonho filatélico de riqueza uma possibilidade tão válida como descobrir diamantes em bruto no quintal (de notar que sendo a terra vulcânica, as supeitas não eram de todo infundadas...) Não se percebe, no entanto, como é que a fantasia de riqueza instântanea sobrevive à turbulência adolescente da descoberta do subtexto do mundo, e menos se compreende como é que ela se instala viralmente à espera de espoletar uma "febre do ouro" em adultos aparentemente sãos. Só a total má-fé aliada à incompreensão dos mecanismos básicos da produção de riqueza podem explicar, ainda que de forma superficial, como é que alguém, nestes dias e nestas condições económicas, acredita em juros de 40% em quatro anos. Talvez daqui a uns anos, quando o tumulto da crise por ingerência do cérebro próprio passar, se possa editar uma série de selos comemorativa da crise filátelico-monetária de 2006. Talvez com um desenho de um asno, à guisa do expressionismo - para não ofender ninguém -, e a inscrição "2006 - Ano do Investidor Idiota". Talvez ainda venha a valer uns trocos...
A recente polémica instalada em redor do "caso dos selos" fez-me, ainda que por momentos, recordar os sonhos de riqueza fácil que os meninos nutrem. Além da conveniência da exequibilidade (porque os sonhos das crianças são realizáveis pela vontade), o facto de ter a certeza absoluta de que o selo estaria na minha rua, numa arca empoeirada repleta de memórias timbradas fazia do sonho filatélico de riqueza uma possibilidade tão válida como descobrir diamantes em bruto no quintal (de notar que sendo a terra vulcânica, as supeitas não eram de todo infundadas...) Não se percebe, no entanto, como é que a fantasia de riqueza instântanea sobrevive à turbulência adolescente da descoberta do subtexto do mundo, e menos se compreende como é que ela se instala viralmente à espera de espoletar uma "febre do ouro" em adultos aparentemente sãos. Só a total má-fé aliada à incompreensão dos mecanismos básicos da produção de riqueza podem explicar, ainda que de forma superficial, como é que alguém, nestes dias e nestas condições económicas, acredita em juros de 40% em quatro anos. Talvez daqui a uns anos, quando o tumulto da crise por ingerência do cérebro próprio passar, se possa editar uma série de selos comemorativa da crise filátelico-monetária de 2006. Talvez com um desenho de um asno, à guisa do expressionismo - para não ofender ninguém -, e a inscrição "2006 - Ano do Investidor Idiota". Talvez ainda venha a valer uns trocos...

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