sábado, junho 03, 2006

Expressões a serem extintas num futuro (que se quer) breve - Vol. I (A Bola)

É sabido que o futebol é uma fonte inesgotável de pérolas sintático-gramaticais, para gáudio de todos aqueles afectados pela doença de ser português (cujo primeiro sintoma visível é repetir, de cada vez que se faz merda, "toda a gente faz assim!") que vêem assim justificados os coices sintáticos e as corruptelas de quarta-classante.
Ainda assim, e porque até as asneiras estão sujeitas ao modismo dos tempos, há uma - que ultimamente grassa como lepra na Índia - repetidamente repetida (vêem como é irritante?!) a deixar-me perplexo de cada vez que a ouço (uma sensação semelhante à de ouvir uma anedota de adulto quando se é criança, com a infeliz agravante de se saber que o sentido não se vai tornar claro por efeito diacrónico).
Quando uma das equipas em campo, timidamente lançada na luta pelo empate (a expressão correcta e contemporânea é "estacionaram o autocarro à frente da baliza", inventada e difundida por Mister Mourinho e correntemente a sofrer mais mutações que o influenza - já há quem diga "este autocarro tem dois andares!" ou "estes trouxeram dois autocarros" ou ainda uma versão mais arrojada "Estes senhores vieram de comboio e pararam à frente da baliza". A imaginação é, infelizmente, um dispositivo ilimitado). Onde estavámos? Sim. Num jogo em que duas equipas estão empatadas, no esforço titânico da fuga à despromoção (Portugal é o único país onde se joga para não se perder) e uma delas marca e obriga o treinador da equipa adversária, investido de uma coragem desesperada e demoníaca, a tirar dois dos sete defesas e a meter dois atacantes, diz-se dele (do treinador), na gíria futebolística: "Meteu a carne toda no assador".
É este o nosso país de poetas, de artífices e conjuradores de metáforas. É com isto que um gajo tem que se haver se quiser ver - e ouvir - um jogo de bola, uma coisa aparentemente descomplexada, masculina e relaxante, normalmente acompanhada de tremoços e cerveja. Não há português que não tenha em si um poeta cretino e um revolucionário sem causa.