
Para quem não sabe, Bill Hicks foi um comediante. Um stand-up comediant, para ser mais preciso, usando da fina terminologia anglo-saxónica cuja equivalência em português está ainda para ser grafada.
Ora o que tem o Bill Hicks que eu não tenho, perguntará o Marco Horácio e outras criaturas de igual ascensão mediática e inversa proporcionalidade de talento humorístico? Consigo mencionar algumas dissemelhanças de monta: Bill Hicks morreu em 1994 - cedo demais - e a corja de farsantes do riso da qual fazes parte, caro Marco, está bem viva - outra inevitabilidade mórbida - e a devorar intervalos televisivos numa voracidade de alcateia; Bill Hicks tinha génio, Marco, e, ao contrário do que possas pensar - se essa faculdade te foi granjeada pelo Criador, ainda que em doses muito modestas -, o génio não é uma qualidade secundária facilmente maquilhada pelo trabalho árduo da ubiquidade mediática. Para finalizar, Bill Hicks era considerado por John Cleese - sim, o dos Monty Python, Fonte da Eterna Gargalhada - um dos grandes génios cómicos do Séc. XX. Quando o mesmo Cleese te conseguir reconhecer no meio de um jantar de turma de um grupo de estudantes do Técnico, podemos então falar tu-cá-tu-lá. Como diria o próprio Hicks, case fucking closed.
Enquanto que, na maior parte das ocasiões, a comédia está a associada a uma espécie de entretém com o propósito de esvaziar a panela de pressão do quotidiano - e por isso recorre ao próprio quotidiano como tecido de fabricação da anedota: distorce-o, enfoca-o através de um prima psicoterapêutico em que o terrível aparece ridicularizado e o medo desprovido de qualquer sentido excepto o do cómico -, em Bill Hicks nada disso transparece. Não há nele a personalidade do entertainer, do terapeuta social, do enche-chouriços das horas mortas. Pelo contrário. É mordaz, é irónico, mas incomoda. É um tipo perfeito em palco e absolutamente indesejável para ser apresentado à família. É frio. Trata de todos os assuntos sobre os quais discorre pelo ângulo de um médico legista enraivecido. Está deprimido. Está zangado com o mundo, está em processo de descontrução do óbvio. É um filosófo, no sentido em que esmiuça as coisas e as regras das coisas fora do seu âmbito puramente pragmático. Essa raiva da inadequação ao mundo, essa espécie de corda-bamba ontológica perpétua torna-o especial. Ao invés de temperar a ferida filósofica no bourbon ou no malte, na senda da melhor tradição do inadequado contemporâneo (as variações do personagem incluem naturalmente o drogado e o desempregado perpétuo) Bill Hicks mantém um controlo mais ou menos bem conseguido - a vida dele fora dos palcos não era exactamente o paradigma da estabilidade afectiva - de duas disposições fundamentais, que são os pontos arquimédicos do seu humor caústico: a raiva e a perplexidade por estar a travar a one man battle. A raiva surge como consequência directa do reconhecimento de que algo está errado somada à incapacidade de precisar o quê e como alterá-lo (uma espécie de nevoeiro de mentira em baixo-registo contínuo). De quando em vez surge um foco mais preciso, um objecto ou uma situação dominados pelo olhar do humorista; assim, de igual modo, surge o sketch, a piada, a anedota. O corolário da raiva é a perplexidade, que se gera na partilha dos momentos de lucidez ou de desvelamento de parte da "Grande Mentira". Bill Hicks (ou qualquer um que julgue a importância de algo na inversa proporcionalidade dos seus semelhantes) não compreende como o caudal de factos da vida que serpentea nas suas actuações (que lhe servem de veículo) não provoca na assistência a mesma ira que o consome (e vice-versa). Todo o seu humor está construido na premissa maior de que há algo de importante a revelar, algo que pode mudar o curso da vida de outrem, algo que não deve ser ocultado em proveito próprio. Ele está a contar a piada que é esta vida, este mundo, estes costumes. He means it. Especialmente se fizer rir. Dir-se-ia, se fôssemos académicos e adeptos das analogias rápidas, que o homem está constantemente numa fase pré-fenomenológica. Vê o problema. Não vê o que lhe subjaz, nem como ele se articula com os outros.
Bill Hicks morre em 1994, na sequência de um cancro no pâncreas. No seu último espectáculo, repete diversas vezes para a plateia o facto de aquele ser o último espectáculo que dá. Diz que foi contratado pela CBS, portanto desistiu dos live shows. Passaria a fazer unicamente programas semanais de meia hora (uma justificação obviamente falsa, mas é também óbvio que é para ele está a falar consigo próprio quando menciona o último espectáculo). A meio do mesmo, vira-se para a plateia e diz: "Há algo de muito importante e sério que quero partilhar com vocês" (o facto de estar a morrer enquadra-se nessa caracterização). "Algum dos senhores na audiência vê todos os dias o programa C.O.P.S.?"
As coisas demasiado importantes não podem ser levadas a sério.